Economia de Serviços

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Category: Competitividade (page 1 of 7)

Serviços, emprego e produto

A figura 1 mostra a taxa instantânea de crescimento anual do emprego setorial no período 1990-2011. Com 1,36%, os serviços são a principal fonte de geração de empregos no Brasil. A manufatura, que vem logo depois, tem taxa quase duas vezes menor, de 0,71%. Com isto, o setor de serviços tende a ter participação cada vez mais predominante no estoque de emprego. Em 2016, o setor já respondia por mais de três quartos do emprego total, nível comparável apenas ao de países avançados.

Quais são as razões de tamanho “sucesso”? São várias, mas a principal é a elevadíssima elasticidade-emprego do produto, qual seja, a sensibilidade do emprego setorial com relação à variação da atividade econômica do setor.

A figura 2 mostra as elasticidades setoriais. O aumento de 1% do produto no setor de serviços implica num aumento de 1,12% no emprego. Na manufatura, essa taxa é de 0,54%. Tudo o mais constante, o crescimento econômico leva a um aumento desproporcionalmente elevado do emprego nos serviços, enquanto que nos demais setores a variação do emprego é desproporcionalmente baixa – na agricultura, a variação chega a ser negativa, o que, obviamente, está associado à forte adoção de tecnologia. A consequência é que o setor de serviços está se tornando largamente predominante no mercado de trabalho, para o bem e para o mal.

O que explica o diferencial de elasticidades setoriais? São muitas as causas, mas a principal são as características das empresas. Diferentemente dos demais setores, micro  empresas, empresas de baixa relação de capital por trabalhador e de baixa adoção tecnológica e empresas de baixa e baixíssima produtividade (Arbache 2015) predominam no setor de serviços

Se, por um lado, o setor de serviços cumpre a bem-vinda tarefa social de criar muitos postos de trabalho, por outro lado, esse benefício vem com custos não negligenciáveis, já que muitos desses empregos são bastante vulneráveis. Ali, assim como empregos são criados aos montes, eles também são destruídos aos montes. E isto acontece sobretudo porque as próprias empresas de serviços são relativamente mais vulneráveis ao ciclo econômico do que as empresas dos outros setores.

De fato, a maior parte dos empregos criados no período de rápida queda do desemprego (2005-2013) teve origem no setor de serviços. Mas a maior fonte de desemprego no período de recessão (2014-presente) também teve origem nos serviços. Para detalhes, veja o Boletim de Serviços deste blog.

Para além da baixa qualidade do emprego, a baixa produtividade do setor também preocupa em razão dos seus efeitos no nível e nas perspectivas de aumentos salariais – se a produtividade não cresce, não há porque esperar aumentos salariais reais dos trabalhadores do setor.

Na medida que os serviços já são o maior componente da cesta de consumo das famílias e das matrizes de custos de produção das empresas industriais (Arbache 2016; Arbache, Rouzet e Spinelli 2016), então este imenso setor de baixa produtividade “intoxica” a economia e compromete o custo de vida, o bem-estar das famílias e a competitividade das empresas.

O eventual (e necessário) aumento da eficiência e da produtividade do setor de serviços terá, provavelmente, efeitos negativos de curto prazo na geração de empregos. A commoditização digital também deverá contribuir para reduzir a elasticidade emprego do produto no setor. No médio prazo, porém, é provável que os efeitos da maior eficiência e produtividade do setor de serviços sejam desproporcionalmente positivos para a economia, especialmente em razão dos seus impactos na competitividade e no bem-estar.

 

Nota técnica: estimações do autor. Dados do Groningen Growth and Development Center. Foram excluídos dos cálculos os serviços governamentais, construção civil e utilidades públicas.

Telecomunicações têm a maior receita do setor de serviços

Os serviços de telecomunicações continuam ocupando a primeira posição entre os serviços que mais geram receita operacional líquida no Brasil, excetuando os financeiros. É o que aponta a Pesquisa Anual de Serviços – PAS, publicada 22 de setembro deste ano pelo IBGE. Apesar de terem perdido participação de 2007 (18,9%) para 2015 (11,3%), tais serviços devem continuar em posição de destaque na geração de receitas nos próximos anos, principalmente com a chegada da quinta geração de comunicação móvel (5G) e da consequente massificação da internet das coisas (IoT). Crescente em importância na produção e na agregação de valor ao produto final, o setor de telecomunicações apresenta elevada concentração de mercado e poderia ver suas receitas crescendo em ritmo menos acelerado caso uma política mais agressiva de promoção da concorrência fosse aplicada.

A pesquisa revelou para o setor de serviços e de telecomunicações em 2015, respectivamente, 1.286.621 e 7.494 empresas operando, gerando R$ 1,4 trilhão e R$ 162 bilhões de receita operacional líquida, R$ 856 bilhões e R$ 72,2 bilhões de valor adicionado bruto e, ainda, 12,7 milhões e 195 mil pessoas empregadas que receberam R$ 315 bilhões e R$ 9,9 bilhões em salários, retiradas e outras remunerações. Em 2015, enquanto o salário médio mensal em serviços situou-se em R$ 1.911, os maiores salários vieram das empresas de informação e comunicação, com média de R$ 3.831 mensais. A pesquisa também revelou o ranking abaixo.

Os dados acima corroboram com a análise de Arbache (2015); na página 3 o autor afirma que o aumento dos rendimentos dos serviços está conectado aos fatores produtivos e tecnológicos que levam a uma crescente participação dos serviços nas cadeias de suprimentos e no valor agregado dos bens. O desenvolvimento e a massificação das tecnologias da informação e da comunicação (TIC), bem como dos serviços de transporte e logística, contribuíram para a popularização das tecnologias organizacionais e de produção que possibilitam às firmas focarem nas suas atividades principais, terceirizando as demais funções.

Podemos exemplificar essa ideia do autor com o caso de um fabricante de acessórios de informática no Brasil. Em sua cadeia de suprimento, serviços de telecomunicações são demandados na medida em que a sede se comunica com os fornecedores. Empresas de transportes levam os insumos até a fábrica. Um restaurante é contratado para servir alimento aos funcionários e a vigilância fica a cargo de uma empresa de segurança. Uma vez que as demais atividades necessárias ao funcionamento fabril são contratadas de terceiros, a fábrica está apta a focar estritamente na produção de acessórios de informática. Ademais, a tecnologia bluetooth representaria  valor agregado ao teclado — produto final da fábrica — na medida em que a receita advinda da venda do teclado sem fio, apto ao bluetooth, é maior comparativamente a da venda do antigo modelo com fio.

Seguindo esse raciocínio, observe que os serviços de telecomunicações são importantes tanto durante a produção dos bens quanto na agregação de valor aos produtos finais. E essa importância deve crescer com o tempo, pois com o 5G, por exemplo, as máquinas devem estar ainda mais conectadas dentro das fábricas e as cadeias de suprimentos também devem aumentar sua integração. Do ponto de vista da agregação de valor, inovações tecnológicas adicionadoras de serviços de telecomunicações aos dispositivos móveis devem seguir surgindo, como resposta à demanda de consumidores por produtos mais conectados (o smartphone é o maior exemplo disso).

A inserção dos cidadãos nas redes de comunicação de dados seria cada vez mais democrática se houvesse redução dos preços dos serviços de telecomunicações. De acordo com estudo inédito do IPEA em parceria com a Anatel, é grande o potencial atual de expansão da banda larga no país: mais de 50 milhões de residências desejam acesso à web, a grande maioria de baixa renda.

Apesar da PAS revelar mais de 7 mil empresas operando as telecomunicações em 2015, o setor é bem concentrado pois poucas empresas dominam a maior parte do mercado, resultando em preços mais elevados e em qualidade inferior aos predominantes numa eventual concorrência perfeita. Dessa forma, o estímulo à entrada e ao crescimento de empresas até então com menor expressão no mercado é essencial para redução de preços e a consequente inclusão das famílias de baixa renda às redes de comunicação de dados, e para incentivar a melhoria na qualidade do serviço.

A promoção de concorrência no setor poderia até causar uma desaceleração no crescimento das receitas dos serviços de telecomunicações, dado a queda de preços. Ainda assim, as receitas deveriam continuar crescendo. Isso porque, além dos motivos apresentados anteriormente, um estudo recente (2017) organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prevê R$ 155 a R$ 620 bilhões aportados na economia brasileira, até 2025, pela Internet das Coisas. Já no resto do mundo, o valor deve ser de 4 a 11 trilhões de dólares.

A partir do discorrido acima, podemos concluir que os serviços de telecomunicações são crescentes em importância tanto no processo produtivo quanto na agregação de valor aos produtos finais. Não é à toa que eles despontam como os maiores geradores de receita líquida no Brasil, dentre os serviços avaliados pela PAS. De fato, a concentração de mercado contribui para tal resultado, visto que os preços poderiam ser menores com o fortalecimento de operadoras de menor porte e de menor poder de mercado. Porém, é provável que um possível fortalecimento da concorrência não ofereceria queda de receita para as atuais firmas de grande poder de mercado, mas sim uma desaceleração no crescimento de futuras receitas e uma maior democratização no uso do serviço.

A Armadilha da Renda Média no Espaço-Indústria

A armadilha da renda média é um fenômeno que foi cunhado na literatura econômica em meados da década de 2000. Inicialmente, o termo foi utilizado para definir o processo comumente observado de diminuição do crescimento de uma economia quando esta se desloca da renda baixa para a média. Nesse processo, os fatores que geralmente impulsionam o crescimento – mão-de-obra barata, catch-up tecnológico e realocação estrutural da agricultura para a manufatura – perdem momentum, ao longo do desenvolvimento econômico, forçando o país a estabelecer novas fontes de crescimento quando a economia atinge a renda média.

Desde que fora sugerido, o termo ganhou tração no mundo acadêmico e na imprensa internacional, porém sem haver consenso sobre sua validade. O apelo e a controvérsia desse fenômeno devem-se à ausência de uma teoria que satisfatoriamente aponte políticas de desenvolvimento para economias de renda média. As teorias de crescimento endógeno são adequadas apenas para países de renda alta – que somam um bilhão de pessoas – e o modelo de Solow ainda é a base para entender o problema do crescimento nos países de baixa renda – também com um bilhão de pessoas. Nenhuma dessas teorias é satisfatória, entretanto, para os cinco bilhões remanescentes, que vivem em economias de renda média. Ironicamente, como os próprios precursores do termo afirmam, a real armadilha do tema seria a ignorância sobre a natureza do crescimento econômico na maior parte do globo.

Pensar a armadilha da renda média sob a ótica do espaço-indústria pode lançar luz sobre a questão.

A variável de interesse do espaço-indústria é a densidade industrial, ou seja, o valor adicionado da indústria per capita. Essa variável captura a capacidade de uma sociedade de investir em capital físico e humano, garantir as necessidades de infraestrutura e P&D, reformar instituições e gerenciar esses recursos para fomentar o desenvolvimento industrial, espelhando, enfim, o nível de desenvolvimento de uma economia.

Os países iniciam suas jornadas de desenvolvimento industrial na região R1 da Figura 1, abaixo. Nessa região, a economia ainda é essencialmente rural, com baixas taxas de urbanização e alta participação da agricultura no PIB. À medida que o fenômeno de urbanização ocorre, cresce a demanda por produtos industriais básicos. A região R2 caracteriza, portanto, a fase de desenvolvimento em que a indústria de base, manufaturas de baixo valor adicionado e serviços tradicionais substituem a agricultura como principal vetor de produção da economia.

Ocorre que a expansão das indústrias básicas e leves é ditada por retornos decrescentes provenientes do processo de crescimento baseado em acumulação de capital. Ao mesmo tempo em que esse processo possibilita a transformação da economia de renda baixa para a média, sua contribuição marginal para o PIB esvai-se ao longo do processo de expansão industrial. Atinge-se um ponto de inflexão no espaço-indústria no qual o simples aumento da parcela da indústria no PIB não é capaz de ampliar a densidade industrial. Nesse momento, é comum registrar economias que começam processo de desindustrialização.

Para seguir se desenvolvendo, o país deve diversificar-se em favor de bens e serviços mais sofisticados. Ao invés de majoritariamente transformar insumos, a indústria deve passar a demandar serviços logísticos, financeiros, projetos de engenharia, marketing, e diversas outras atividades de apoio. A armadilha da renda média recai justamente na dificuldade em alterar a função da indústria na economia, que deverá se transformar não só no principal conector entre os setores econômicos, mas também em catalizador de serviços de alto valor adicionado.

Se a economia obtiver sucesso ao produzir essa nova dinâmica do desenvolvimento industrial, a armadilha da renda média será superada, alcançando-se as regiões R3-R4. Nesse momento, a indústria ainda desempenha função central na economia, mas o setor deixa de ser o principal gerador direto de valor adicionado, dando lugar aos serviços profissionais e comerciais. É comum haver redução da participação relativa da indústria no PIB, apesar do rápido crescimento da densidade industrial. Consolida-se uma relação simbiótica entre indústria e serviços, típica de modelos de crescimento endógeno, gerando bens que não seriam propriamente categorizados em nenhum desses setores.

Como mostra a Figura 2, Brasil, China e Estados Unidos são casos representativos das regiões de desenvolvimento industrial mencionadas acima. Nos últimos anos (2000-2014), nossa economia não superou a armadilha da renda média e está retornando da R2 para a R1. A indústria brasileira não conseguiu abraçar a função de catalizadora de serviços complexos no seu processo de desindustrialização, minando o crescimento da densidade industrial. Resta-nos imaginar maneiras de realizar um leapfrogging em uma próxima janela de oportunidade.

A potência asiática, situada na R2, aumentou a importância dos serviços profissionais e comerciais na sua economia, com ligeira desindustrialização, o que permitiu aumento vertiginoso da densidade. Entretanto, a China ainda terá de superar muitos desafios para completar seu processo de desenvolvimento. Os Estados Unidos seguem na R4 e são o melhor exemplo da relação simbiótica entre indústria e serviços, liderados por suas superestrelas. O país possui as sete empresas mais valiosas do mundo, sendo cinco delas pertencentes ao setor tecnológico: Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon.

O desafio do desenvolvimento para economias de renda média não é trivial. Faltam a nós, economistas, ferramentas para compreender melhor a natureza do crescimento econômico nesse estágio de desenvolvimento. Refletir esse fenômeno sob a ótica do espaço-indústria não representará uma panaceia, mas poderá esclarecer alguns pontos que escapam à vista e, quem sabe, impedir que essa armadilha seja fatal.

A economia do Japão e o setor de serviços

O que explica a longa estagnação da economia japonesa? Obviamente, existem explicações diversas. O objetivo deste post é o de adicionar um pouco de luz num aspecto sintomático da estagnação: o padrão e o comportamento do setor de serviços.

Vários indicadores podem ser empregados para ilustrar a estagnação da economia japonesa. O gráfico abaixo mostra dois desses indicadores. O primeiro, o de densidade industrial (Arbache 2012); o segundo, o índice de complexidade de Hausmann-Hidalgo. Esses indicadores sugerem inequívoca tendência de queda da competitividade da indústria manufatureira japonesa.

De acordo com a literatura de espaço-indústria (Arbache 2012), a variável-chave da transformação econômica é a capacidade da manufatura elevar a densidade industrial. Essa capacidade não se revela pela participação da manufatura no PIB, mas pela sua capacidade de desenvolver uma relação sinergética e simbiótica com os serviços para, juntos, agregarem valor (Arbache 2017).

De fato, evidências empíricas internacionais mostram elevada e crescente parcela de serviços e inovações “embarcados” em bens manufaturados. Tratam-se de P&D, marcas, design, distribuição, projetos, softwares customizados, funcionalidades e conectividade, marketing, entre outros tantos serviços que diferenciam, agregam valor e conectividade ao bem tangível. Serviços de custos, como logística e serviços financeiros convencionais, são importantes, mas não diferenciam produtos e nem agregam valor.

Para agregar valor, a economia precisa ter um setor de serviços capaz de responder às demandas da indústria por novas soluções e de apoiar o desenvolvimento de novos modelos de negócios.

O que se observa no caso japonês? Observa-se estagnação da participação dos serviços comerciais profissionais no PIB (professional business services – PBS), que são os serviços que agregam valor à indústria. Observa-se, também, aumento da participação do setor de serviços no PIB. Logo, a participação do PBS no setor de serviços está contraindo, enquanto que os demais serviços, incluindo os voltados para o consumo, estão vendo a sua participação na economia aumentar.

Essas tendências vão na direção contrária do que se observa em economias mais dinâmicas, como Estados Unidos e Alemanha (e China, mais recentemente), em que o nível do PBS no PIB é mais elevado e segue crescendo.

Indicadores internacionais de conectividade são reveladores em razão da sua relação com o PBS. O indicador de conectividade da McKinsey Global Institute, por exemplo, mostra que o Japão está numa longínqua 24ª posição no ranking atrás, inclusive, de países emergentes asiáticos. Os Estados Unidos estão na terceira posição, a Alemanha na quarta e a China na sétima posição. Os componentes do indicador da McKinsey que mais explicam as diferenças entre o Japão e os três países são fluxo de serviços, fluxo de dados e fluxo de pessoas, fatores comumente presentes nas economias mais abertas e dinâmicas e associados à capacidade de desenvolvimento de serviços sofisticados e novos modelos de negócios.

A economia japonesa talvez só não esteja em situação ainda mais desafiadora em razão do elevado estoque de capital per capita que tem e do ainda elevado nível de densidade industrial da sua economia.

As características estruturais da economia do Japão sugerem insistência num modelo econômico tradicional incompatível com o nível do seu PIB per capita e que, claramente, já demonstra retornos decrescentes. Para avançar, o Japão terá que considerar adotar uma visão muito mais ampla e aberta de manufatura. Para isto, terá que aprofundar o entendimento acerca do imperioso papel dos serviços para a competitividade e a criação de valor industrial.

Notas sobre o gráfico: Densidade industrial: valor adicionado da manufatura per capita (em US$), eixo da esquerda. Fonte: calculado com dados do World Development Indicators.

%Manuf-PIB: participação percentual da manufatura no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

%PBS-PIB (professional business services): participação percentual dos serviços comerciais profissionais no PIB; consideram-se os serviços especializados destinados às cadeias de produção tais como correios e telecomunicações, intermediação financeira, atividades imobiliárias comerciais, aluguel de máquinas e equipamentos, TI e atividades correlatas, P&D e outras atividades comerciais profissionais, eixo da direita. Fonte: World Input-Output Database.

%Serviços-PIB: participação percentual dos serviços no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

Indicador de complexidade (0-1). Eixo da direita. Fonte: Atlas of Economic Complexity

De onde virão os empregos?

Uma das perguntas mais relevantes deste início de século XXI é: de onde virão os empregos?

A pergunta é mais que pertinente em razão da commoditização digital, que está fazendo com que bens de capital e tecnologias super-sofisticados, como robôs e impressoras 3D, inteligência artificial, internet das coisas, computadores e softwares avançados e até aplicativos disponíveis na Internet experimentem queda de preço e popularização jamais registrados.

Mudanças nos modelos de negócios dos produtores e desenvolvedores desses bens de produção tangíveis e intangíveis, que passaram a mirar o efeito-rede e o efeito-plataforma, e crescimento dos serviços na composição do valor agregado, estão entre as causas primárias daquela popularização. A tendência é que a commoditização digital siga avançando a passos ainda mais largos ao longo dos próximos anos.

Essa mudança é transformadora para o emprego por várias perspectivas. Neste post, tratamos de uma delas: o desenvolvimento econômico.

Um dos atrativos dos países em desenvolvimento para investidores é o custo relativamente baixo da força de trabalho. No entanto, a combinação de commoditização digital com mudanças nas preferências dos consumidores, que exigem cada vez mais bens e serviços customizados e de fornecimento (quase) instantâneo, entre outros fatores, estão desafiando a capacidade daqueles países de competir por investimentos estrangeiros, mesmo que para produzir bens relativamente simples, como têxteis e calçados.

Considere o caso das camisetas esportivas. A Adidas passará a produzir nada menos que 800 mil camisetas por dia numa nova planta industrial a partir do emprego de robôs, impressoras 3D e computadores. Vinte e dois segundos será o tempo de produção de cada camiseta. Detalhe: a planta fabril será em Little Rock, Arkansas. Com a automação, o custo da força de trabalho por camiseta será de 33 centavos de dólar (trinta e três!). Serão criados um total de 400 empregos naquela que será a maior planta de camisetas esportivas do mundo.

A produção de outros itens simples também está voltando para “casa”. A Adidas decidiu iniciar produção de calçados esportivos na cidade bávara de Ansbach e em Atlanta a partir da instalação de fábricas também supersofisticadas e automatizadas. A Nike não está atrás e também já decidiu produzir calçados esportivos nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos onde estão os seus principais mercados.

Hoje, fábricas da Adidas, Nike, Zara e outras tantas marcas globais estão concentradas em países como Vietnam, Tailândia, Laos, Indonésia, El Salvador e outros países em desenvolvimento. A produção responde por parcela importante do emprego formal, receitas tributárias e exportações daqueles países. Em El Salvador, por exemplo, os têxteis representam nada menos que 45% do total das exportações.

Mas é muito provável que esse cenário se altere significativamente nos próximos anos.

De fato, estamos presenciando uma profunda transformação da geografia da produção que terá efeitos sem precedentes para os países em desenvolvimento. Força de trabalho e mesmo incentivos fiscais e subsídios muitas vezes oferecidos para atrair investidores estão perdendo relevância em favor de novas tecnologias de produção e de gestão da produção e proximidade dos mercados consumidores. De outra forma, fatores de custo estão definitivamente perdendo espaço para tecnologias.

De onde, então, virão os empregos? Virão, majoritariamente, do desenvolvimento, distribuição e gerenciamento de plataformas digitais, inovações, tecnologias, design, marcas e outros fatores intangíveis e da gestão de cadeias de valor. Milhões de empregos já estão sendo criados nessas áreas em países como Estados Unidos e Alemanha e até na China, que entendeu a transformação em curso e nela se engajou de corpo e alma. Não é propriamente no chão de fábrica, mas no “entorno” dela que estará a criação de empregos.

E os países em desenvolvimento? É muito provável que eles se defrontem com desafios jamais vistos para criar empregos. Agendas de custos baixos já não serão suficientes. Capital humano, ambiente de negócios, fomento ao empreendedorismo e maior acesso a commodities digitais serão parte da solução, mas também não serão suficientes.

A esta altura, soluções muito mais complexas e sofisticadas terão que ser exploradas, como a industrialização das vantagens comparativas, e políticas que promovam leapfrogging. Isto exigirá enorme capacidade de elaboração e implementação de políticas.

O setor de serviços e o desafio da revolução digital na China

Mudanças estruturais no perfil da demanda chinesa estão em aceleração, seguindo o esgotamento do modelo baseado em investimentos, exportações e na produção estritamente industrial. Mesmo com a redução do crescimento da população trabalhadora migrante no país, muitas de suas cidades costeiras já possuem uma alta densidade populacional. Além disso, desde 2011, a população passou a ser mais urbana do que rural. Há a expectativa de crescimento dos serviços tradicionais, pela demanda da população sobretudo urbana, e dos serviços avançados pela demanda do setor manufatureiro.

Com a desaceleração do setor industrial, voltam-se as preocupações com a redução da demanda chinesa por importações, que foi um dos mecanismos importantes para a recuperação da economia global. Há uma emergência do setor de serviços na China, mas há quem defenda que ainda é improvável que isso possa compensar a redução da participação chinesa no comércio global, ou que vá apoiar as exportações do resto do mundo no curto prazo (SPIEGEL, 2015).

Ao se analisar o setor externo pelo lado dos serviços, a dinâmica aparenta ser bem diferente da verificada no setor industrial. Nota-se um grande crescimento das importações pela China a partir de 2010, saltando de US$ 140 bilhões para mais de US$ 450 bilhões em 2016. Já as exportações de serviços pelo país nesse mesmo período apresentaram-se quase constantes após um aumento de 2010 para 2011, variando em valores próximos a US$ 200 bilhões anuais desde então (ver figura abaixo). Claramente, a China não parece apresentar, no setor de serviços, a mesma competitividade verificada no setor manufatureiro, e isso pode ser um importante entrave para a continuidade no processo de forte crescimento que o país tem apresentado nas últimas décadas.

Figura – Exportações e Importações de Serviços da China

Fonte: elaboração própria, com base nos dados do Banco Mundial.

Ao mesmo tempo em que há um problema de competitividade dos serviços chineses, o país tem passado por um processo de aceleração da transformação digital nos últimos anos. Dinâmicas importantes do perfil de consumo e do padrão de vida de sua sociedade, cuja renda nacional média em termos de Paridade do Poder de Compra saltou de US$ 2.900 em 2000 para US$ 15.500 em 2011, aumentaram o ritmo dessa transformação.

De acordo com dados do Banco Mundial, o uso de celulares móveis na China saltou de 6,7% em 2000 para 63,2% em 2010, para então 92,2% em 2016. Quanto à porcentagem de usuários da internet, essa representava apenas 1,8% da população em 2000, elevando-se para 34,3% em 2010, até que, em 2016, a maior parte passou a ser usuária (50,3%). Esses dados mostram um crescimento considerável de conectividade, mas que ainda apresenta grande margem a ser explorada, seja em números absolutos de potenciais usuários da internet, seja no fechamento do hiato “celular e acesso à internet”.

Ainda que pouco mais da metade da população utilize Internet, por seu tamanho, o país possui a maior população de usuários da internet, em torno de 721 milhões. No entanto, é mais do que claro que o país conta com rígidas restrições de presença de grandes empresas estrangeiras e de acesso de seus cidadãos a plataformas globais, e que isso pode interferir na expansão digital futura. A internet para China funciona mais como uma espécie de intranet, na qual muitos sites de alcance global como o Google, Youtube e Facebook possuem acesso censurado ou conteúdo bloqueado. Como resultado, outras plataformas, em geral chinesas, passam a funcionar como ‘substitutas’ ou ‘paralelas’, como Baidu, Youku, Weino e WeChat.

As restrições políticas e regulatórias interferem claramente nas decisões de investimentos, mas algumas empresas estão dispostas a se adaptar ao regime. A Apple instalou o primeiro centro de dados na China, seguindo as regras mais rígidas implementadas recentemente por Pequim quanto à segurança cibernética, segundo as quais todos os dados coletados de cidadãos chineses devem ser armazenados em território chinês. As informações incluem mensagens privadas, fotos e back-ups de dispositivos (BRADSHAW; FENG, 2017). É uma espécie de concessão para que as empresas internacionais acessem o maior mercado de celular móvel do mundo, em troca de fornecer maior garantia ao governo chinês de controle e inspeção.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, em uma pesquisa de opinião realizada com executivos na China, foi revelado que a maior preocupação da comunidade de negócios do país é a dificuldade em inovar. É notório que os Estados Unidos são a economia mais competitiva no setor de serviços avançados muito em razão de seu ambiente e cultura favoráveis à proliferação de práticas inovadoras e empreendedoras. Sendo assim, cabe o questionamento: será a China capaz de criar condições e incentivos em larga escala para a inovação e livre iniciativa na economia de serviços e sem prejudicar os avanços da revolução digital? O desafio da transição estrutural pode se apresentar como um teste à própria resiliência do modelo político-econômico chinês.

A transformação econômica da China e os serviços

A China experimenta a mais formidável transformação econômica que se tem registro. De uma economia rural e agrária, a China passou a ser uma economia industrial e voltada à exportação de bens industriais. Reformas políticas combinadas com políticas de realocação da mão-de-obra rural para movimentar fábricas e com políticas vigorosas de expansão do crédito, dos investimentos e das infraestruturas levaram o país à condição de segunda maior economia do globo em menos de duas gerações.

Mas o modelo de export-led strategy fortemente baseado em acumulação de capital e em trabalho barato está chegando ao fim. As taxas anuais de crescimento do PIB passaram da ordem de 10-12% para cerca de 6,5% e deverão caminhar para um patamar de 4,5-6,5% nos próximos anos.

A China está promovendo nova reestruturação da sua economia. Agora, em direção a uma economia com maior participação dos serviços e com maior protagonismo da ciência e da tecnologia. Busca-se organizar e preparar a economia para a etapa mais avançada do desenvolvimento econômico. Ao invés de fábricas de cimento e de aço, fábricas de bens sofisticados com alto conteúdo de inovações embarcadas e produzidos com sistemas avançados de gestão e produção. Ao invés de foco em serviços de consumo, foco em serviços sofisticados de apoio aos setores industrial, agrícola e de mineração que, de um lado, reduzam custos e, de outro, agreguem valor e diferenciem os produtos. Plantas industriais tecnologicamente defasadas, intensivas em mão-de-obra, poluidoras e que consomem muita água estão sendo fechadas ou relocalizadas em outros países. De “fábrica do mundo” a China busca ser produtora de bens e serviços altamente sofisticados e gestora de cadeias globais de valor.

O caminho será longo, mas indicadores já mostram sinais de que a transformação está em curso.

O gráfico abaixo apresenta indicadores selecionados da economia chinesa. A despeito de ligeira queda, a participação da manufatura no PIB segue elevada, por volta dos 30-35%, muito acima do padrão dos países avançados, que é de metade daquele patamar.

Gráfico – China, indicadores selecionados

Notas sobre o gráfico: Densidade industrial: valor adicionado da manufatura per capita (em US$), eixo da esquerda. Fonte: calculado com dados do World Development Indicators.

%Manuf-PIB: participação percentual da manufatura no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

%PBS-PIB (professional business services): participação percentual dos serviços comerciais profissionais no PIB; consideram-se os serviços especializados destinados às cadeias de produção tais como correios e telecomunicações, intermediação financeira, atividades imobiliárias comerciais, aluguel de máquinas e equipamentos, TI e atividades correlatas, P&D e outras atividades comerciais profissionais, eixo da direita. Fonte: World Input-Output Database.

%Serviços-PIB: participação percentual dos serviços no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

A densidade industrial teve aumento contínuo e absolutamente espetacular. Entre 1979 – ano do início das reformas – e 2014, a densidade aumentou nada menos que 29 vezes, o que mostra uma crescente capacidade da indústria chinesa de se aprimorar e agregar valor.

O aumento da participação do setor de serviços não veio em detrimento da indústria. Pelo contrário, como mostram evidências empíricas (Arbache 2012, 2015, 2016), o aumento da densidade industrial resulta do aumento da relação sinergética e simbiótica da indústria e dos serviços para criar valor. O rápido aumento dos serviços comerciais profissionais (PBS) no PIB, que passou de 12% para 18% entre 2000-2014, é uma expressão desse movimento.

A tendência é que o setor de serviços siga crescendo seu protagonismo na economia chinesa, seja para atender à nova etapa do desenvolvimento econômico, seja para atender à crescente demanda do mercado interno urbano de consumo. É improvável, porém, que o setor de serviços atinja participação no PIB comparável ao dos países avançados, mas é muito provável que o PBS cresça de forma desproporcional.

Outsourcing, shelfsourcing e netsourcing

A palavra outsourcing não é um desses anglicismos de modismo. Sua incorporação no linguajar empresarial/acadêmico brasileiro se presta a diferenciar a aquisição de serviços de custo de serviços de agregação de valor. Os serviços de custo são aqueles identificados com a terceirização.

A terceirização é decorre do acirramento da concorrência e da necessidade de cortar custos em toda sorte de atividades auxiliares – altamente padronizadas e raramente customizadas; são serviços de prateleira, simbolizando estágios cada vez mais radicais de um fenômeno que é tão antigo quanto o capitalismo: a divisão e especialização do trabalho. Portanto, o shelfsourcing não traz mudanças conceituais relevantes, pois a empresa compradora desse serviço apenas deixa de realizá-lo por conta própria e o adquire pronto e embalado nas prateleiras do mercado. Na contabilidade nacional, parte do crescimento do setor de serviços se deu pela mensuração do shelfsourcing (advocacia, contabilidade, transporte, limpeza, etc., são bons exemplos de atividades terceirizadas), que gerou uma “desindustrialização contábil” pela mudança de propriedade, mas dificilmente por mudanças estruturais reais.

Estudos[1] que investigam as razões que levam a organização empresarial para formatos mais centralizados ou descentralizados – no que diz respeito às suas atividades finalísticas – mostram que o alto nível de complexidade tecnológica de uma determinada atividade pode induzir à descentralização das decisões dentro de uma empresa. O aumento dessa complexidade proporciona estruturas de comando mais descentralizadas, na qual os gerentes das áreas finalísticas possuem maior autonomia decisória em virtude da elevação da assimetria de informações entre a direção central e os gerentes; um trade-off clássico do modelo principal-agente no qual os custos de delegação são comparados aos seus benefícios.

Se entendermos o outsourcing como o próximo passo após a descentralização empresarial, entenderemos que isso não trata da delegação externa de atividades avançadas previamente desempenhadas dentro da empresa; pelo contrário, elas representam o surgimento de soluções para desafios internos das empresas industriais, mas que, em face ao elevado grau de complexidade que tais desafios têm alcançado, não poderiam surgir internamente ou surgiriam a custos e esforços relativamente elevados. Mais do que isso, a multiplicação e o acúmulo de soluções disponíveis no mercado afrouxaram as fronteiras da capacidade inovadora de toda a economia, não apenas implicando em reduções de custo, mas tornando possível produtos e processos antes inimagináveis. Não se trata de uma empresa contratar um serviço de design industrial como ela contrataria um escritório de contabilidade. Nessa modalidade, a sinergia e a simbiose entre serviços e indústria não se manifesta apenas no design arrojado de um produto, mas na noção de que empresas operando em mercados distintos apenas conseguem evoluir em seus próprios negócios quando fornecem feedback mútuo. Nesse sentido, as empresas praticam netsourcing, pois a criação de soluções ocorre em redes, e é nelas que as empresas buscam e entregam tecnologias.

Esse momento de extrapolação dos limites da empresa em suas atividades finalísticas as coloca como conectores de um emaranhado de soluções que podem ou não ter sido elaboradas, inicialmente, para seus problemas específicos – essas soluções estão intimamente associadas aos serviços de agregação de valor. O netsourcing pode, sim, significar uma mudança conceitual relevante na forma como as empresas se organizam para a produção. No espaço-indústria a elevação da participação dos serviços na economia dos países desenvolvidos conjugada com o aumento da densidade industrial é consequência direta do netsourcing, e não do shelfsourcing – essas nações tornaram-se economias de serviços de agregação de valor, e não de custos. Muitos antigos centros de P&D internos de grandes corporações industriais abandonaram a pesquisa propriamente dita e tornaram-se membros colaborativos em redes de empresas, laboratórios governamentais e universidades, intercambiando agendas de pesquisa e soluções tecnológicas.

A maturidade e sofisticação industrial das últimas décadas estão na raiz do protagonismo do setor de serviços. O mundo moderno gerou uma vasta e complexa necessidade de novas soluções que estimulou a consolidação de uma rede de empresas especializadas em provê-las. Trabalhar em rede (o netsourcing) não é apenas o mantra do momento dos gurus da administração; é a verdadeira prática de organização empresarial que sustenta o domínio tecnológico e econômico das grandes corporações e das nações às quais pertencem.

[1] ACEMOGLU D. [et al.] Technology, information, and the decentralization of the firm [Artigo] // The Quarterly Journal of Economics. – Novembro de 2007. – pp. 1759-1799.

A cura de Baumol

Morreu no último dia 4 de maio o economista americano William Jack Baumol. Baumol foi um dos economistas mais influentes do século XX e, provavelmente, seguirá sendo um dos mais influentes neste início de século XXI. A sua obra marcou o estudo da economia com contribuições substantivas. Em ordem cronológica, podemos citar o modelo Baumol-Tobin de demanda por dinheiro em espécie na década de 50; seu esforço em modelar externalidades e o imposto Pigouviano como remédio nos anos 70; e a teoria dos mercados contestáveis formulada nos anos 80. Outras contribuições relevantes foram feitas nos campos do desenvolvimento econômico, empreendedorismo e pensamento econômico, porém, sem a mesma originalidade das áreas mencionadas previamente.

Para os propósitos deste blog, a doença de custos de Baumol foi a maior das suas contribuições. Em artigo seminal publicado em 1967, intitulado Macroeconomics of Unbalanced Growth: The anatomy of urban crisis, Baumol introduz uma perspectiva original sobre a evolução da produtividade – e, portanto, dos preços – de diferentes segmentos produtivos a partir do que ficou conhecido como “doença de custos de Baumol”. O conceito “doença de custos” não foi cunhado por ele. Ao longo dos anos, outros economistas assim entenderam a sua contribuição e, em 2013, o próprio Baumol publicou um livro intitulado The Cost Disease: Why Computers Get Cheaper and Health Care Doesn’t, no qual ele organiza décadas de um debate que ele próprio iniciou.

Seu argumento está assentado na divisão de dois grandes grupos econômicos: um, o que ele denominou de tecnologicamente progressivo, e o outro, de tecnologicamente não-progressivo. Essa diferenciação é fundamentada na capacidade que um dos grupos tem de expandir a sua produção por inovações, acúmulo de capital e economias de escala. Ultimamente, porém, essa diferenciação vem do papel que o trabalho humano desempenha na produção. Segundo Baumol,

The basic source of differentiation resides in the role played by labor in the activity. In some cases labor is primarily an instrument – an incidental requisite for the attainment of the final product, while in other fields of endeavor, for all practical purposes the labor is itself the end product. Manufacturing encompasses the most obvious examples of the former type of activity. (…) Thus it has been possible (…) to effect successive and cumulative decreases in the labor input coefficient for most manufactured goods, often along with some degree of improvement in the quality of the product. (…) On the other hand there are a number of services in which the labor is an end in itself, in which quality is judged directly in terms of amount of labor. Teaching is a clear-cut example, where class size (…) is often taken as a critical index of quality. Here, despite the (…) variety of innovations, there still seem to be fairly firm limits to class size.” (Pág. 416)

Ou seja, Baumol não se refere a outras atividades distintas da indústria como menos importantes ou menos sofisticadas. Sua categorização mostra que a quantidade de trabalho humano envolvido na indústria depende do estágio de maturidade tecnológica que permite mais ou menos trabalho.

Muitas são as implicações da sua visão original, apesar de algumas delas terem passado praticamente em desapercebidas. O recente debate sobre commoditização digital e a percepção de que a contabilidade nacional tem problemas de mensuração das atividades econômicas, especialmente a superestimação do tamanho do setor de serviços, são reinterpretações da visão original de Baumol que jogam preciosa luz sobre o debate das novas tecnologias, mudança estrutural e da desindustrialização ao trazer para o centro do debate as trajetórias não convergentes da produtividade entre os diversos setores e o inevitável encarecimento relativo de tudo aquilo que depende intrinsecamente da criação e do trabalho humano.

Em tempos de inteligência artificial e robotização frenética, o trabalho humano foi colocado em xeque. Teremos emprego? Teremos serventia? E, mais importante, teremos trabalho? Chegou a hora de reinterpretar a visão de Baumol. Talvez a doença de custos seja a cura para o nosso temor de sermos descartados por robôs e computadores.

Custos e benefícios da abertura do mercado de serviços

Este blog tem discutido há muito que os serviços brasileiros são relativamente caros e de baixa qualidade para padrões internacionais, o que compromete a competitividade das empresas que os utilizam como insumos de produção. Também tem mostrado que vários segmentos do mercado de serviços são bastante protegidos da competição internacional.

A quase instantânea reação a essas evidências é a de apoiar a abertura do mercado de serviços como forma de minorar os impactos negativos mais imediatos para as empresas. Posição mais que legítima. A defesa da maior competição deve, porém, levar em conta outros pontos que também têm impactos para a competitividade, produtividade e geração de riquezas e empregos. Dentre esses pontos, incluem-se os que seguem.

Primeiro, os serviços de custos, como logística e fretes, portos, serviços financeiros convencionais, serviços industriais e serviços de manutenção e apoio, são normalmente menos comercializáveis internacionalmente em razão da sua natureza — pense nos serviços de cargas internas — e, portanto, são providos majoritariamente em nível local. Já os serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos, como licenças e royalties, softwares customizados, design, marcas, marketing, distribuição e pós-vendas, são mais passíveis de serem comercializados internacionalmente também em razão da sua natureza — pense nos serviços providos via internet.

Segundo, embora a participação dos serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos no valor adicionado esteja crescendo, os serviços de custos ainda são absolutamente majoritários nas nossas matrizes de custos industriais  e de commodities (juntas, as duas classes de serviços correspondem a nada menos que 64% do valor adicionado da indústria). Matrizes internacionais de insumo-produto (WIOD) mostram que a participação dos serviços de custos é desproporcionalmente elevada no Brasil porque ela espelha a estrutura de produção — bens sofisticados consomem mais serviços de agregação de valor, enquanto que bens menos sofisticados consomem mais serviços de custos. Commodities, semimanufaturados e outros produtos e serviços de baixo valor adicionado respondem pela maior parte do PIB e das nossas exportações.

Terceiro, muitos dos mais importantes serviços de custos consumidos pelas empresas no Brasil são excessivamente concentrados e oligopolizados, o que leva a preços altos, ineficiências e poucos incentivos para inovar. O mercado de serviços financeiros, que perfazem, em média, 25% dos serviços consumidos pelas empresas, é revelador.  O aumento da competição e da eficiência nos serviços de custos requer, antes de tudo, a remoção de barreiras à entrada de novas empresas e a modernização da regulação que governa aqueles serviços. A tributação incidente sobre muitos serviços de custos é elevada e distorciva e compõe o quadro de ineficiências e preços altos.

Quarto, evidências empíricas mostram que enquanto os serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos elevam a produtividade e a competitividade das empresas, os serviços de custos têm pouco ou nenhum impacto na produtividade, o que decorre desses serviços serem condição necessária, mas não suficiente para se competir internacionalmente. Serviços eficientes e modernos de logística e portos, por exemplo, reduzem custo, mas não criam valor nem inserem o produto em estágios mais avançados das cadeias globais de valor. Isto, quem pode fazer, são os serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos, sobretudo por meio das relações sinergéticas e simbióticas entre bens e serviços para criar valor (Arbache 2016, capt 2).

As considerações acima sugerem que, na margem, a abertura do mercado terá maior impacto nas importações de serviços de agregação de valor do que nos serviços de custos. Por isto, não se deve esperar que a abertura venha, per se, a impactar substancialmente a competitividade e a produtividade das empresas.

A maior dependência da importação de serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos decorrente da abertura poderá ter impactos não negligenciáveis nos incentivos para se desenvolver esses serviços no país, o que poderá ter implicações importantes na nossa capacidade de adicionar valor e de participar de fases mais sofisticadas das cadeias globais de valor. As maquilas do norte do México e a Zona Franca de Manaus são reveladores dos efeitos dessa dependência sobre o que e o como se produz.

Por fim, embora os serviços de custos sejam mais importantes para os produtos que mais produzimos e exportamos, mesmo ali os serviços de agregação de valor já exercem influência importante. Pense na soja em grão. P&D e royalties embutidos nas sementes e nos agrotóxicos, serviços técnicos especializados, serviços de satélite, comercialização em mercados futuro, comercialização internacional por trading companies, dentre outros serviços sofisticados — e que são majoritariamente importados – já respondem por elevada e crescente parcela do valor final da commodity.

O que fazer?

A esta altura do acirramento da competição global por um lugar ao sol, é crucial, crítico até, reconhecer as limitações dos nossos serviços e de seus impactos deletérios na produtividade das empresas e também na produtividade agregada, já que eles perfazem 73% do PIB.

Mas tão ou mais importante que abrir o mercado é remover as enormes barreiras à competição interna que geram verdadeiros cartórios. Além disso, é preciso identificar os principais bottlenecks a partir das relações sinergéticas e simbióticas entre bens e serviços para se criar valor e ali promover aumento dos investimentos e maior acesso à tecnologias (as novas políticas operacionais do BNDES são encorajadoras e vão nesta direção). Outras políticas que serão úteis para o desenvolvimento e a competitividade dos serviços incluem medidas que atraiam investimentos de multinacionais de serviços e seus laboratórios de P&D, estimulem as universidades e institutos de pesquisa a desenvolverem tecnologias de serviços sofisticados, reforma tributária que não discrimine a provisão de serviços de agregação de valor no país, investimentos em infraestruturas avançadas que estimulam negócios no setor (como banda larga) e formação de quadros voltados para as necessidades dos investimentos em serviços.

A maior abertura do setor é inquestionável, mas ela deve ser feita com visão estratégica e deve compor um conjunto coordenado de políticas que se complementem e que contribuam para gerar prosperidade e inserção internacional do país pela “porta da frente”. Deve, ainda, levar em conta a economia política da proteção e os erros de política que foram cometidos no passado e que ajudaram a criar tantas ineficiências no país.

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