Economia de Serviços

um espaço para debate

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 327 outros assinantes

Author: Rafael Moreira (page 1 of 6)

Os 10 posts mais lidos de 2017

Neste ano, vimos a discussão sobre a economia de serviços crescer no Brasil, tanto na academia e no setor privado, quanto na imprensa e na política pública. Acreditamos que este Blog colaborou com esse movimento, tal como sugere o crescente número de leitores e de visitas.

Abaixo, listamos os 10 posts mais lidos de 2017 para vocês (re)lerem, discutirem e comentarem.

Obrigado por nos acompanhar em 2017 e esperamos seguir contando com a sua companhia em 2018!

A Equipe do Blog Economia de Serviços

Boletim de Serviços – Novembro de 2017

O Boletim de Serviços de novembro de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • O volume do setor de serviços registrou queda de 2,7% em setembro na comparação anual, com destaque positivo para os serviços tradicionais (10,0%).
  • A inflação de serviços acumulada em 12 meses seguiu alta, em 5,7% em outubro, consideravelmente acima do IPCA geral (2,7%).
  • O setor de serviços seguiu apresentando resultado positivo na geração líquida de emprego, tendo criado 47,2 mil novas vagas em outubro, com destaque para os serviços de custo (44,4 mil vagas criadas).
  • A balança de serviços seguiu apresentando déficit no mês de outubro, de US$ 2,7 bi.

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: https://economiadeservicos.com/boletim.

Vídeo: Economia digital e seus impactos no Brasil

No último sábado, 25 de novembro, fizemos a primeira live do blog Economia de Serviços, sobre economia digital e seus impactos no Brasil. Nós, da equipe do blog (Jorge Arbache, Rafael Moreira e Vanessa Carvalho), batemos um papo de uma hora sobre o assunto, respondendo perguntas pelo facebook. Você pode ver a live completa abaixo ou via nossa página no facebook. Faremos outras em breve. Fiquem à vontade para sugerir temas!

Live: Economia digital e seus impactos para o Brasil

No próximo sábado, 25/11, às 15h, a equipe do Blog Economia de Serviços fará uma Live para discutir como a economia digital pode impactar a economia brasileira. A live vai acontecer aqui no site do Blog e na página do Economia de Serviços no Facebook.

Confirme a sua presença na página do evento!

Com as participações do Professor Jorge Arbache, Secretário de Assuntos Internacionais (SEAIN) do Ministério do Planejamento e Professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB); do economista Rafael Moreira, coordenador do Núcleo de Novos Negócios Digitais do Sebrae Nacional; e da economista Vanessa Santos, doutoranda em economia pela UnB e assessora da SEAIN, serão debatidas questões como:

  • Por que a economia digital é a nova face da globalização?
  • Como ela impacta modelos de negócios e padrões de consumo?
  • Como ela pode impactar a renda e o emprego?
  • Qual o impacto dessas mudanças para o Brasil?

Contamos com a participação de vocês!

Uber e o impacto da concorrência na produtividade

Como se sabe, todos os países que conseguiram sustentar crescimento econômico por décadas e aumentar o bem-estar da sua população passaram por um processo de aumento de sua produtividade do trabalho. Para os não economistas, “produtividade” é a razão entre alguma medida de produto sobre algum insumo de produção. Em geral, mede-se a produtividade do trabalho dividindo-se o valor adicionado (valor da produção menos o consumo intermediário) de um dado país, setor, segmento ou empresa pelo número de pessoas envolvidas no processo de produção. Portanto, um aumento de produtividade do trabalho significa aumento na capacidade de se gerar valor adicionado por trabalhador. Em outras palavras, um aumento na eficiência.

Por ser um tópico essencial na economia, o que não faltam são estudos tentando encontrar a melhor explicação para os fatores que fazem a produtividade crescer (ou diminuir): capital humano, inovação, qualidade de gestão, ambiente de negócios, etc. O fato é que a produtividade depende de vários fatores. No entanto, um fator que está quase sempre presente é o grau de exposição das empresas à concorrência. Quanto mais protegido for o setor, via de regra, menor será a sua exposição à competição e, tudo o mais constante, menor será a sua produtividade.

O princípio é que um mercado competitivo, com livre entrada e saída de empresas, faria as empresas mais eficientes ganharem mais espaço no mercado e as menos eficientes perderem espaço, até saírem do mercado, em um processo de ganhos de eficiência alocativa (SYVERSON, 2004; GOMES & RIBEIRO, 2014). Além disso, uma forte concorrência faria as empresas investirem em melhorias de gestão, aderirem a novas tecnologias de produção, entre outros. Isso as tornaria mais eficientes e produtivas, ou seja, trata-se de um processo de ganho de produtividade interno às firmas (SCHMITZ, 2005; SYVERSON, 2011).

Um exemplo prático da importância da concorrência para o aumento da produtividade está no crescimento da produtividade do trabalho na indústria de transformação brasileira após a abertura comercial do país no começo dos anos 1990. Outro exemplo mais específico é o de Bridgman, Gomes e Teixeira (2010). Os autores estudaram como o fim do monopólio da Petrobras na produção, refino, importação e exportação de petróleo, em 1995, e a ameaça de competição decorrente levaram a aumentos significativos de produtividade na empresa. Segundo os autores, de 1976 a 1993, a produtividade do trabalho da Petrobras cresceu a uma média de 4,6% ao ano.

Os autores relatam que, com a ameaça e eventual concretização da quebra do monopólio da empresa, a Petrobras passou por grandes mudanças de gestão, mesmo sem ter perdido poder de mercado de fato. A empresa reduziu o número de empregados, fechou poços de petróleo menos produtivos e focou nos mais promissores e tomou outras medidas de gestão que diminuíram o número de insumos e, ainda assim, aumentaram a produção. Entre 1994 e 2001, a produtividade total dos fatores da Petrobras dobrou, um crescimento muito acima da média da economia brasileira. Além disso, foi registrado um crescimento médio na produtividade do trabalho três vezes maior do que o do período anterior.

Portanto, há pouca contestação na literatura econômica de que, em geral, quanto menores as barreiras de entrada e maior a exposição à concorrência, maior tenderá a ser a produtividade das empresas e da economia em geral. Isso sem contar o impacto da maior concorrência na formação dos preços e no aumento do bem-estar do consumidor.

Diante disso, nota-se que aplicativos de transporte individual, como o Uber, Cabify e 99, aumentam de forma considerável a competição nesse mercado, antes quase exclusivo dos táxis. Segundo estudo de Cramer e Krueger (2016), os motoristas de Uber são mais produtivos do que os de táxi, tanto quando se mede o tempo ocioso dos motoristas, quanto quando se medem os quilômetros dirigidos por dia. Portanto, esses aplicativos podem ser ferramentas importantes para o aumento da produtividade do segmento.

Como já discutido neste blog, as plataformas da chamada “Economia do Compartilhamento” tendem a aumentar a eficiência da economia como um todo, dando uso a recursos subutilizados e aumentando a oferta de serviços (e bens) aos consumidores, além de serem importante fonte de renda para os ofertantes dessas plataformas.

Nota técnica recente do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) mostra que o Uber criou nova demanda por seus serviços (consumidores que não usavam táxi anteriormente) e, de fato, conquistou parte dos usuários de táxi. É possível ver, no gráfico abaixo, que, de fato, o interesse por táxi e aplicativos de táxi (medido pelo Google Trends) diminuiu desde a introdução do Uber e do Cabify, mas o crescimento destes foi consideravelmente maior do que a queda do interesse por táxi. Ao fim, o estudo ressalta que “tendo em vista as inovações tecnológicas que são capazes de minimizar as falhas de mercado verificadas neste mercado, faz sentido cada vez menos regulação neste mercado de transporte individual de passageiros”.

Fonte: Google Trends, inspirado em Nota Técnica do CADE (2017). A escala de popularidade varia de 0 a 100 e é relativizada.

Não se argumenta aqui que esses aplicativos não devam ser regulamentados. E como qualquer atividade econômica privada, seus serviços devem ser tributados. Mas é preciso garantir que o processo de cadastramento de motoristas não seja burocratizado ou que um aplicativo tenha muita restrição para começar a funcionar, o que contribuiria para reduzir a competição. Isso prejudicaria consumidores, prestadores de serviços dessas plataformas e a eficiência da economia de maneira geral.

Como dito anteriormente, um dos mecanismos pelo qual o aumento da concorrência aumenta a produtividade é a melhoria dos serviços dos incumbentes, em resposta à entrada dos novos competidores. Uma resposta adequada dos legisladores ao crescimento dos serviços como Uber poderia ser a diminuição das barreiras de entrada e das exigências para se dirigir um táxi. Essa decisão beneficiaria consumidores, taxistas, uberistas e a economia como um todo.

Boletim de Serviços – Outubro de 2017

O Boletim de Serviços de outubro de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • O volume do setor de serviços registrou queda de 3,0% em agosto na comparação anual, com destaque positivo para os serviços tradicionais (3,0%).
  • A inflação de serviços acumulada em 12 meses seguiu alta, mantendo-se em 5,3% em setembro, consideravelmente acima do IPCA geral (2,5%).
  • O setor de serviços seguiu apresentando resultado positivo na geração líquida de emprego, tendo gerado 17,1 mil novas vagas em setembro, com destaque para os traditional services da classificação da OCDE (23,3 mil vagas criadas).
  • A balança de serviços seguiu apresentando déficit no mês de junho, de US$ 2,9 bi.

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: https://economiadeservicos.com/boletim.

Boletim de Serviços – Setembro de 2017

O Boletim de Serviços de setembro de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • O volume do setor de serviços registrou queda de 2,8% em julho na comparação anual, com destaque positivo para os serviços tradicionais (3,5%).
  • A inflação de serviços acumulada em 12 meses seguiu alta, chegando a 5,4% em agosto, consideravelmente acima do IPCA geral (2,5%).
  • O setor de serviços foi o que apresentou o resultado mais positivo na geração líquida de emprego em julho, tendo criado 15,1 mil novas vagas, com destaque para os serviços para empresas (14,5 mil vagas criadas).
  • A balança de serviços seguiu apresentando déficit no mês de junho, de US$ 3,0 bi.

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: https://economiadeservicos.com/boletim.

Ainda haverá emprego no futuro?

Muito tem se discutido sobre o futuro do trabalho (e do emprego) com a ascensão de tecnologias, como a Inteligência Artificial e a automação, que seriam poupadoras de mão de obra, além do crescimento da importância da chamada “gig economy”, ou “economia de bicos”, muito por conta do surgimento de aplicativos como Uber e AirBnb que possibilitam o aproveitamento de ativos e mão de obra subutilizados. No Brasil, somam-se a isso o processo de flexibilização do mercado de trabalho e a quase universalização da terceirização por meio da Lei 13.429/2017.

Todos esses movimentos apontariam para um futuro no qual poucas pessoas teriam uma ocupação e menos pessoas ainda teriam um emprego formal. Disso, surgem várias discussões sobre formas de atenuar os impactos sociais de tamanha transformação. Entre as soluções sugeridas estão a introdução da renda básica universal e a taxação do uso de robôs, defendida por figuras como Bill Gates.

Há, por outro lado, especialistas que defendem que, assim como o emprego não acabou (pelo contrário) com a introdução de tecnologias disruptivas como a máquina a vapor e a eletricidade no passado, ele também não acabará com o aumento da automação dos processos produtivos. Em um interessante Ted (ver abaixo), o economista David Autor, do MIT, apresenta um dado impressionante: desde a introdução do caixa eletrônico (ATM), há quase 50 anos, o número de caixas humanos praticamente dobrou nos EUA.

Para Autor, dois simples fatos garantiriam o futuro do emprego no mundo: a criatividade e a insaciabilidade humanas. Sobre o primeiro fato, ainda utilizando o exemplo dos ATMs, em um primeiro momento, o número de caixas (humanos) por agência bancária nos EUA caiu em um terço. Porém, como ficou mais barato manter agências, o número delas aumentou em 40% no curto prazo. Como resultado, o número de agências e de caixas humanos aumentou. A única diferença foi que esses caixas passaram a fazer trabalhos diferentes, focando mais na venda de serviços e no relacionamento do cliente do que nas atividades repetitivas que poderiam ser feitas pelos ATMs. Na leitura de Autor, à medida que as tarefas repetitivas vão sendo automatizadas, o papel daquelas tarefas menos automatizáveis, ligadas à criatividade, à resolução de problemas e às habilidades inerentemente humanas, tornam-se ainda mais relevantes, por serem os “elos fracos” da cadeia (pois estão mais sujeitas a erros).

Esse primeiro fato garantiria que haverá alguns empregos no futuro. O segundo fato, o da insaciabilidade humana, garantiria que ainda haverá muitos empregos no futuro. Muitos dos produtos e serviços nos quais gastamos nosso dinheiro nos dias de hoje não existiam ou eram muito caros há poucas décadas (em alguns casos, até poucos anos): smartphones, computadores, ar condicionado, turismo de aventura, etc. Ao poupar tempo, a automação abre espaço para a criação de novos produtos e serviços, que, por mais que muitos deles pareçam frívolos, a maior parte das pessoas deseja obtê-los. Segundo dados apresentados por Autor, um trabalhador médio americano ganha três vezes mais do que há um século, mas ainda assim não se sente saciado.

Por mais otimista que seja essa visão, ela parece ser insuficiente para o contexto brasileiro e de outros países em desenvolvimento. Em primeiro lugar, a maior parte das tecnologias que possibilitam a automatização é criada em países desenvolvidos. Se é verdade que a maior parte do emprego será em áreas que exigem criatividade e capacidade de resolução de problemas e boa parte dos empregos brasileiros estão em atividades com possibilidade de automação, será que conseguiremos migrar para essa nova economia?

Como já discutido aqui no blog com relação às novas tecnologias, a maior parte do valor não está no uso delas, mas sim na sua criação e controle. Como podemos fugir das armadilhas da commoditização digital? Estudo da McKinsey aponta que cerca de 50% dos empregos brasileiros têm potencial de serem automatizados no futuro. Por ser um problema novo, não há resposta certa para isso, mas esse deveria ser o centro das discussões sobre a competitividade da economia brasileira nos próximos anos.

O que os últimos resultados do PIB apontam

Na última semana, o IBGE divulgou os resultados mais recentes do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais. Como foi bastante noticiado, ao apresentar dois trimestres consecutivos de crescimento positivo, a economia brasileira saiu oficialmente da recessão, depois de dois anos.

Apesar da boa notícia, o crescimento modesto (0,2% em relação ao primeiro trimestre) não foi uniforme. O setor de serviços, responsável por quase 75% do PIB, foi o que registrou maior crescimento trimestral – 0,6% – com destaque para o segmento de comércio (1,9%). Esse resultado foi puxado principalmente pela volta do crescimento do consumo das famílias (1,4%), fruto da queda do desemprego e de uma maior estabilidade do rendimento médio real da população.

Ainda no setor de serviços, outros segmentos além do comércio mostraram crescimento positivo no período, também puxados pelo aumento da demanda interna: Atividades imobiliárias (0,8%); Outros serviços (0,8%); e Transporte, armazenagem e correio (0,6%). Geram preocupação os segmentos de Serviços da informação (-2,0%); o setor público (-0,3%); e Intermediação financeira e seguros (-0,2%). Todos estes segmentos apresentaram queda de atividade com relação ao primeiro trimestre.

Além desses segmentos, preocupam também o crescimento nulo da agropecuária (após um primeiro trimestre atípico) e o resultado negativo da indústria (-0,5%) (após um primeiro trimestre positivo), além da quarta queda consecutiva do investimento (Formação bruta do capital fixo) (-0,7%), o que pode gerar restrições no crescimento futuro.

Em suma, há motivos para acreditar que o pior da crise já passou, mas também não faltam razões para se preocupar. Para além das questões conjunturais, é preciso pensar em meios de tornar a economia brasileira definitivamente mais competitiva e menos sujeita aos “voos de galinha”. Preparar as novas gerações para as habilidades do século XXI e colocar os serviços e os desafios da economia digital no centro dos debates será fundamental para isso.

 

Comércio eletrônico: é preciso regulamentar?

O entendimento sobre o que é comércio eletrônico abrange mais do que a simples venda de bens pela internet. Apesar do varejo em lojas físicas ainda representar a maior parcela do comércio total, o e-commerce – tanto business-to-business (B2B) como business-to-consumer (B2C) – tem crescido muito nos últimos anos, especialmente na modalidade transfronteiriça. Relatório da empresa internacional de logística DHL aponta que, em 2020, esse mercado poderá passar de US$ 1 trilhão, representando 22% de todo o e-commerce mundial.

As implicações desse movimento para a economia são cada vez mais visíveis. Basta observar o valor de mercado e o crescimento projetado das vendas de empresas como Amazon e Alibaba, e o fortalecimento dos braços de compras de plataformas como Facebook e Google (Google Shopping) para compreender porque temas ligados ao comércio eletrônico estão ganhando cada vez mais espaço nas discussões internacionais de comércio.

A consolidação do mercado global de e-commerce está se tornando desafio crescente para empresas locais ou entrantes competirem com “superestrelas” como a Amazon. A lógica do winner-takes-all explica as aquisições e fusões defensivas de grandes varejistas. No fundo, é uma competição não mais por nichos de mercados, mas uma busca pela sobrevivência. Afinal, já há sinais de que as plataformas de fornecimento cuidarão de quase tudo que o consumidor precisa e deseja comprar. Como resultado, o único caminho para os varejistas locais, principalmente as lojas de médio e pequeno portes, é vender nessas megaplataformas ou marketplaces se subjugando às regras do jogo e imposições das plataformas (há algo ainda mais importante aqui, que é o fato de a plataforma capturar e usar todos os dados originados da relação entre o consumidor e o lojista – mas isto será objeto de outro post).

Apesar de paralisadas as negociações, o Tratado da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) cumpriu papel importante ao revelar que o e-commerce é uma das novas arenas de “luta” no comércio mundial. Basicamente, o TPP pretendeu determinar os rumos da economia digital ao definir regras e procedimentos, incluindo o comércio eletrônico de bens e serviços, e temas como padrões, regras e tarifas sobre produtos digitais, localização de servidores, códigos fonte, etc. – todos considerados como “barreiras” aos mercados dos gigantes digitais do e-commerce. Assim, o TPP teria consequências contundentes para os seus signatários e também para os não signatários, em particular para o espaço de formulação de políticas públicas para o setor de serviços e para o e-commerce. Apesar de estar atualmente paralisado, o TPP se tornou inspiração e ponto de partida para as novas negociações comerciais.

Para economias em desenvolvimento, a atenção a essas condições deve ser redobrada, pois a participação em acordos que tratam do comércio eletrônico sem um cuidadoso debate interno sobre onde queremos chegar e o que precisa ser feito poderá dificultar o desempenho do setor e até mesmo as perspectivas do crescimento econômico de médio e longo prazos. O caso do Chile é simbólico: o comércio de varejo do país já é dominado pelos gigantes globais do e-commerce.

A corrida de ocupação dos espaços do e-commerce já tem players bem sucedidos, mas com estratégias distintas. A China praticamente fechou o mercado de e-commerce ao funcionamento de empresas americanas, como o Google e o Facebook, e limitou a ação da Amazon a vendas de bens que ela dispõe em seus próprios armazéns, impedindo-a de exercitar o seu superpoderoso braço de marketplace. Com isso, a China pavimentou o caminho para o desenvolvimento de novos gigantes como o Alibaba, JD.com e Weibo, que hoje já têm projeção global e são, juntos, substancialmente maiores que a Amazon. A China percebeu a sua condição de latecomer num setor crítico e usou ferramentas protecionistas para desenvolver a sua indústria digital nascente. Para empresas estrangeiras que podem operar na China, todos os dados devem ser depositados em servidores lá sediados.

Já os EUA estão empenhados na promoção de ampla liberalização e desregulamentação do mercado digital global, já que, à exceção das chinesas, quase todas as principais plataformas digitais globais são americanas, bem como o são as gigantes do e-commerce com maior presença no ocidente.

Os europeus, cientes dos efeito-rede e efeito-plataforma no mundo digital e no e-commerce, e temendo os efeitos de seu atraso nessas tecnologias, também estão jogando pesado em suas negociações comerciais com regiões menos desenvolvidas em prol da liberalização dos mercados de serviços, inclusive do e-commerce, em favor das suas empresas. Talvez não sejam apenas a preocupação concorrencial e com o bem estar do consumidor que expliquem as recentes multas bilionárias para a Microsoft e Google impostas pelas autoridades de competição de Bruxelas.

EUA e China são dois modelos extremos. O Brasil não é um líder digital e, por isso, agendas ultra-liberalizantes ou ultra-protecionistas devem ser vistas com cautela. Mas o Brasil não pode se enclausurar e proteger a ineficiência, sob pena de repetir os conhecidos erros do passado que ajudaram a nos trazer aqui. Talvez o mais razoável seja desenvolver uma estratégia que leve os operadores internacionais da economia digital a estabelecerem bases operacionais no Brasil (com servidores e abertura de código fonte) e formarem clusters digitais nacionais com parceiros locais.

Nessa discussão, também será preciso levar em conta que o comércio de varejo é, de longe, o setor que mais emprega no Brasil, em especial pessoas com pouca qualificação, bem como um dos setores que mais recolhem ICMS. A eventual expansão do e-commerce internacional no país não será, portanto, neutra em efeitos sociais nem fiscais, incluindo ali os impactos nos recolhimentos e nos benefícios previdenciários.

Uma estratégia nacional para inserir o Brasil na economia digital global deveria incluir ações em ao menos três direções: regulamentação interna do comércio eletrônico; construção de “capabilities”; e inserção internacional.

A regulação interna do comércio eletrônico deve partir do pressuposto de que esse não é um mero canal de vendas remoto, pois as modernas tecnologias permitem experiências de compra e venda tão ou mais completas quanto às do mundo real. Isso traz implicações para os direitos do consumidor, direito econômico (defesa da concorrência, mais especificamente), tributação, entre outros. Além disso, o Marco Civil da Internet e toda a sua regulamentação devem ser pensados numa perspectiva de desenvolvimento econômico, para além das questões sobre democracia e liberdade de expressão. Até mesmo a infraestrutura de transportes e armazenamento e suas regras precisam se adaptar para comportarem uma maior demanda por entregas rápidas, com extensa capilaridade e com projeção internacional. Também é preciso simplificar leis e normas. Porém, algumas das iniciativas recentes requerem atenção. Exemplo disso é a lei – suspensa por liminar no STF – que obriga varejistas online a recolherem ICMS em dois estados em transações interestaduais.

A construção de capabilities é uma tema especialmente importante. Apesar da tendência de consolidação do varejo eletrônico, ainda existe possibilidade de crescimento do mercado, especialmente o de nichos. Análise feita pela FedEx aponta que os segmentos de varejo eletrônico de médio porte crescem mais rapidamente que o segmento de massa. Isso ocorre pela possibilidade de prestação de vendas online e serviços com maior customização e especialização. Obviamente, isso faz parte de uma cultura empresarial na qual a possibilidade de contribuição do governo está centrada numa política de ambiente de negócios e incentivos à inovação e ao capital humano que incorporem, desde a alfabetização, o contato e a aprendizagem de linguagens de programação, machine learning e tecnologias digitais.

Finalmente, a inserção internacional deve ser o farol que orienta os dois pilares anteriores. Para isso, o país precisa amadurecer rapidamente seus planos de abertura comercial, inclusive com vistas à conquista de mercados externos. Manter a economia fechada será um equívoco; abrir o mercado digital de forma apressada sem um plano estratégico será outro equívoco.

Mas que uma coisa fique clara: o Brasil está atrasado na agenda da economia digital, que é a verdadeira guerra dos tronos do século XXI. Embora o momento atual seja de reformas estruturais que estabilizem e reorganizem a economia, é preciso ter clareza do contexto e propor políticas públicas que pensem as fronteiras econômicas do futuro. O que não podemos é esperar que o dirigismo estatal ou que o mercado por si só apareçam com soluções que parem de pé neste complexo novo mundo. Elas simplesmente não aparecerão.

Older posts

© 2018 Economia de Serviços

Theme by Anders NorenUp ↑