Economia de Serviços

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Month: julho 2015

A participação do setor de serviços no PIB é elevada?

A figura abaixo mostra a renda per capita e a participação dos serviços em países desenvolvidos e emergentes. A relação positiva entre as variáveis resulta, dentre outros, da relação crescentemente simbiótica e sinergética entre bens e serviços, novas tecnologias de organização da produção e de produção, mudanças nas preferências dos consumidores e mudanças nos hábitos de consumo associados à renda e à demografia.

O caso do Brasil salta aos olhos. Isto porque combinamos renda per capita relativamente baixa com participação relativamente alta dos serviços no PIB. Jabuticaba? Como explicar esta anomalia?

São várias as explicações, sendo a mais importante a forte expansão das atividades de serviço a partir de meados da década de 1980, quando a indústria passou a experimentar processo lento e quase contínuo de contração. Por várias razões, os serviços ocuparam quase todo o espaço deixado e se tornou em definitivo a principal fonte de criação de emprego e renda. O problema é que o setor se tornou ainda mais caracterizado por ser composto por empresas pequenas, pouco produtivas, de baixa intensidade tecnológica e voltadas, sobretudo, para a provisão de serviços de consumo final.

Hoje, temos um setor de serviços imenso que é mais um problema do que solução. Mudar esta realidade deve ser parte fundamental de qualquer agenda de política de crescimento sustentado, combate à pobreza e aumento da competitividade e da produtividade.

A figura mostra que a África do Sul também tem situação parecida com a do Brasil. Mas, lá, a razão principal está associada às consequências econômicas do regime do apartheid, assunto que discutiremos num outro post.

Participacao dos servicos no PIB

Quais são os serviços mais consumidos como insumo de produção e por que isto é importante?

Quais são os serviços mais utilizados como insumos de produção? Esta questão é relevante, pois é fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas e privadas eficazes de aumento da competitividade da economia.

O gráfico abaixo mostra, a partir dos dados da Pesquisa Industrial Anual, a distribuição percentual dos gastos com serviços na indústria de transformação e no setor de extração mineral. Na indústria, despesas financeiras lideram de longe as despesas com serviços, perfazendo 26% do total. Serviços industriais prestados por terceiros e fretes e carretos (logística) representam, juntos, outros 25%. Logo, esses três serviços respondem por 60% do total.

No setor de commodities, as despesas financeiras representam nada menos que 44% do total. Serviços industriais prestados por terceiros respondem por outros 20%, enquanto alugueis e arrendamentos e fretes e carretos perfazem outros 20%. Estes serviços totalizam 84% das despesas totais do setor com serviços.

Na indústria, as despesas com serviços representam 64,5% do valor adicionado, enquanto que na extração mineral elas representam 39,5%. Logo, os serviços têm peso muito grande na planilha de custos.

Podemos depreender que, primeiro, a reforma do setor financeiro para torná-lo mais competitivo é mudança importante a ser feita no setor de serviços com vistas a aumentar a competitividade agregada.

Segundo, a modernização das empresas prestadoras de serviços industriais e a atualização da legislação de terceirização também terão impactos importantes na competitividade agregada.

E, terceiro, embora bastante importante, a modernização da infraestrutura de transportes não é a panaceia que muitos alardeiam.

Por fim, note que a indústria despende parcela relativamente maior com serviços de agregação de valor (royalties, assistência técnica e despesas com propaganda) do que o setor primário. Para estes, os serviços de custos é que fazem toda a diferença, afinal, commodity é commodity. A modernização dos serviços de agregação de valor e diferenciação dos produtos será especialmente importante para a recuperação da indústria doméstica.

 

Figura post distribuicao dos servicos

Fonte: Arbache e Aragão (2014)

Serviços de valor e serviços de custo

O setor de serviços é heterogêneo em praticamente todos os aspectos, englobando desde ramos como bares até atividades de P&D. Uma classificação bastante utilizada é entre serviços de consumo final e serviços para empresas. Apesar de a maior parte da literatura sobre o setor se concentrar no primeiro grupo, é o segundo que tem mais ramificações e impactos na economia, conforme discutido em post anterior.

Porém, mesmo dentro desses grupos, há, ainda, grande heterogeneidade. Arbache (2014)  propõe a classificação dos serviços para empresas em dois grupos: aqueles que contribuem principalmente para a agregação de valor e os serviços de custo, ou seja, aqueles que são itens básicos de produção. Esta divisão é necessária, pois os grupos de serviços participam de forma distinta do processo produtivo e parecem impactá-lo de maneira diferente.

O primeiro grupo é formado por atividades que contribuem mais para a customização e a diferenciação dos produtos. Por consequência, esses serviços tornam os produtos menos facilmente substituíveis e podem promover maior competitividade, produtividade e retorno do capital. Neste grupo incluem-se serviços que normalmente requerem mais capital humano, como P&D, design, consultorias de gestão, projetos de engenharia e arquitetura, produção de softwares, branding e marketing. Essas atividades são mais importantes em mercados de produtos mais sofisticados, nos quais a diferenciação é mais necessária.

Já o segundo grupo é composto por serviços que afetam principalmente os custos de produção sem necessariamente contribuir para a geração de valor, como logística e transportes, infraestrutura, reparos e manutenção, serviços financeiros, viagens e acomodação. Naturalmente, serviços de custo melhores ou mais baratos podem contribuir para aumentar a competitividade, mas normalmente pouco contribuirão para diferenciar produto. Quanto mais homogêneo ou “commoditizado” for um bem, mais importantes serão os serviços de custo para lhe garantir competitividade.

Não por acaso, as atividades de serviços de agregação de valor nas cadeias globais de valor estão concentradas nos países desenvolvidos, enquanto montagem e serviços de custo estão normalmente em países em desenvolvimento (UNCTAD, 2013).

Em recente artigo, Arbache e Moreira (2015) apresentam evidências de que ramos industriais que usam mais intensivamente serviços de agregação de valor têm produtividade do trabalho maior do que ramos que usam mais intensivamente serviços de custo.

Tornar nossos serviços de custo mais competitivos certamente trará ganhos para toda a economia. Mas, para aumentar a produtividade agregada e gerar mais riqueza e bons empregos, será preciso investir mais nos serviços de agregação de valor.

 

Por que a Apple vale mais que todas as empresas na Bovespa?

O Jornal O Estado de São Paulo de hoje informa que o valor de mercado da Apple fechou, ontem, 24/7/2015, a US$ 714 bilhões, US$ 29 bilhões a mais que todas as empresas de capital aberto na Bovespa.

Como isto é possível? Claro, são muitas as explicações, as quais incluem as condições atuais da economia americana e brasileira, taxa de câmbio, dentre outras. Mas tem um aspecto que merece destaque. Trata-se da natureza das empresas em questão.

A Apple nasceu essencialmente uma empresa de hardware. Por anos, seguiu o caminho de tantas outras empresas americanas em busca dos louros do mercado de computadores. Mas, com o passar do tempo, a Apple aprendeu que, muito mais que produzir equipamentos, o que cria mesmo valor adicionado são os serviços embutidos nesses equipamentos e as funcionalidades dos mesmos. Não por acaso, a empresa é, hoje, acima de tudo, uma vendedora de serviços.

A Google também teve a mesma compreensão, mas seguiu o sentido oposto. Nasceu essencialmente uma empresa de serviços, desenvolvendo e fornecendo os mais diversos tipos de funcionalidades, muitos delas gratuitamente. Mas, com o tempo, entendeu que a verdadeira agregação de valor está em vender esses serviços e funcionalidades embutidos em equipamentos. Claro, ao invés de produzirem funcionalidades para, digamos, a GM oferecê-los em seus carros, porque não ela mesma não faria isto? Bingo! A empresa é, cada vez mais, sócia e desenvolvedora de hardwares, como os carros inteligentes, os quais serão, acima de tudo, passaportes para os serviços e funcionalidades que ela cria.

No século XXI, a criação de valor e de bons empregos já está, mas estará cada vez mais associada ao conhecimento e à capacidade de fomentar a relação sinergética e simbiótica entre bens e serviços para se criar um terceiro bem que nem são serviços nem tampouco bens convencionais, mas um mix entre os dois. Por aqui passa uma das principais razões da Apple valer tanto.

E aqui entre nós? Bem, uma inspeção nas empresas listadas na Bovespa mostraria larga predominância de empresas de commodities ou fortemente dependentes de commodities, como siderúrgicas, empresas de consumo, empresas de serviços de baixo valor adicionado e empresas de ramos industriais de médio ou baixo conteúdo tecnológico. Ou seja, um rol de empresas que é a cara do século XX, se muito.

Claro que produzir commodities não é um problema. O problema é não agregar valor e não desenvolver conhecimentos e tecnologias que façam dessa vantagem comparativa um passaporte para o século XXI e para a geração de valor e de empregos de qualidade.

Uber

O Rio de Janeiro acordou hoje com manifestações dos motoristas de táxi contra o Uber. Essas manifestações não são próprias do Rio e algo similar acontece em outros países. Não é nosso objetivo comentar sobre aspectos de legalidade ou legitimidade da contenda. Nosso objetivo é comentar o que está em jogo.

Ao que tudo indica, a causa dos taxistas é perdida. Isto porque ela é parte de um movimento muito maior que está em curso no mundo, qual seja, a da crescente transformação da natureza dos serviços. Aprendemos na escola de economia que os serviços em geral são “non-tradable”, ou seja, não estão expostos à concorrência internacional. Este é o caso dos serviços de cabeleireiro, de jardineiro e de taxi e da loja da esquina. De outro lado, aprendemos que os bens industriais são “tradable” e, portanto, estão expostos à concorrência de produtos importados da China e de outros países.

Mas essa classificação está se tornando obsoleta. Isto porque os serviços são cada vez mais comercializáveis. Pense na Amazon, no Netflix, nos programas de TV a cabo, no Airbnb e em tantos outros serviços que consumimos no dia a dia. Pense também nos serviços de internet na nuvem, nos serviços de projetos e design adquiridos fora, softwares e tantos outros insumos do setor produtivo. Mas, acima de tudo, pense nos serviços embutidos nos produtos industriais que consumimos no dia a dia – no caso do iPad, nada menos que 93% do valor final remunera serviços, a maior parte deles sediados nos Estados Unidos. Os demais 7% remuneram peças e montagem.

O UBER é parte desta mudança. Mas, neste caso, o mais intrigante para os economistas é que até mesmo um serviço como o de taxi se tornou tradable. Afinal, uma empresa sediada milhares de quilômetros daqui controla um serviço de transporte individual local e fica com a maior parcela do valor adicionado.

Manifestações como as de hoje podem até adiar, mas é improvável que venham a impedir o avanço da nova geração de serviços.

Para consolo, a indústria também passa pela mesma situação – parte significativa de uma sonda da Petrobrás construída num estaleiro nacional remunera projetos, design, softwares, etc, todos eles vindos de fora.

A esta altura, o melhor a fazer é aceitar que já estamos no século XXI e desenvolver políticas e práticas que criem oportunidades para que se possa concorrer em melhores condições. Ao invés de bloquear a quase inevitável mudança, é preciso investir em conhecimento e empreendedorismo, incentivar o investimento e a produtividade e atrair empresas estrangeiras de serviços para o Brasil. Somente assim poderemos ter condições de gerar riquezas e empregos aqui.

TPP, Serviços e Desenvolvimento Econômico

O colapso da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o ritmo lento das discussões em torno de disciplinas como serviços e propriedade intelectual contribuíram para estimular uma profusão de acordos plurilaterais. O principal acordo ora em discussão é o Trans-Pacific Partnership (TPP), que merece atenção especial em razão do porte das economias envolvidas e da sua declarada pretensão de ocupar espaço não preenchido pela OMC de estabelecer bases e padrões conceituais de governança e de abrangência da agenda do comércio. O TPP envolve Estados Unidos, Japão e mais outros tantos países do Pacífico. O acordo deverá ser finalizado em breve e submetido para ratificação dos respectivos parlamentos provavelmente em 2016.

O grande diferencial desse acordo não está na remoção de barreiras tarifárias entre os países envolvidos, que já são bastante baixas, mas em temas como compras governamentais, investimentos, mercado de trabalho, meio ambiente, competição e, sobretudo, em serviços e propriedade intelectual.

Para os Estados Unidos, país com ampla vantagem comparativa em serviços, o acordo tem caráter estratégico não apenas pelos seus impactos nas exportações de serviços e na consolidação do comando de cadeias globais de valor, mas, sobretudo, porque garantirá a geração de empregos em larga escala. De fato, como os serviços estão se tornando “tradable” e cada vez mais são providos a partir de um terceiro país, então a liberalização terá profundas repercussões na forma como entendemos comércio internacional, investimentos, fluxos de mão de obra qualificada e de capitais e, sobretudo, crescimento econômico.

Quando calculado em valor adicionado, os serviços já representam 54% do comércio global, mas estima-se que serão 75% até 2025. O mercado mundial do segmento de serviços comerciais, por exemplo, é de US$ 4 trilhões, mas estima-se que chegará US$ 9 trilhões nos próximos 10 anos.

Economistas como Dani Rodrik, Joseph Stiglitz e Andrés Velasco argumentam que, por serem excessivamente restritivas para atender aos interesses de grandes corporações, as cláusulas de propriedade intelectual propostas no TPP reduzirão, ao invés de aumentar a eficiência e a competição em vários mercados, com impactos negativos no acesso ao conhecimento, tecnologias e inovações por parte dos países em desenvolvimento.

Embora haja apelo na abertura ampla dos mercados de serviços devido aos seus efeitos mais imediatos no bem-estar das pessoas e no acesso a serviços comerciais mais competitivos, há, também, outros aspectos que devem ser considerados. Países que buscam escapar da armadilha do crescimento não deveriam abrir mão de encorajar e estimular atividades econômicas em que ainda seja possível aliar crescimento do emprego com aumento da produtividade. Este é precisamente o caso dos serviços, notadamente por seus efeitos potenciais no desenvolvimento de inovações tecnológicas e de novos modelos de negócios, bem como no aumento da densidade industrial e da diversificação da produção e das exportações.

Proteger a propriedade intelectual e promover a eficiência dos mercados são postulados. Mas também é preciso reconhecer a necessidade de se acelerar a disseminação e a absorção do conhecimento e a crucial relevância dos serviços para o desenvolvimento econômico.

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