Economia de Serviços

um espaço para debate

Month: junho 2019

Telemigração: oportunidade para o Brasil na nova fase da globalização

O recém-lançado livro do Professsor Richard Baldwin, “Globotics Upheaval”, é provocante e sedutor. Provocante, porque sugere a reversão de algumas das principais previsões em relação ao comércio internacional para século o XXI. A principal inversão sugerida por ele é que a (aparente) vantagem competitiva generalizada dos países desenvolvidos no setor de serviços não tende a se aprofundar com as novas tecnologias que, segundo ele, inaugurarão uma nova fase da globalização. Sedutor, pelo fato de que essa nova forma de pensar os próximos passos da globalização é condizente com as tendências que vêm emergindo e sugere oportunidades antes distantes para países em desenvolvimento, dentre os quais o Brasil. A maior dessas oportunidades encontra-se naquilo que Baldwin chama “telemigração”. Mas a que se refere esse termo?

O autor emprega a expressão para se referir a trabalhadores estrangeiros que virtualmente migram para outros países através da prestação de serviços que, até recentemente, eram protegidos da globalização. A telemigração tem se tornado possível devido a desenvolvimentos tecnológicos relacionados, principalmente, com a revolução digital. Alguns deles são a tradução automática (que diminui a barreira linguística) e algumas tecnologias de comunicação (como realidade aumentada). Além disso, plataformas on-line (como Upwork, Freelancer e Amazon Mechanical Turk) estão contribuindo substancialmente para unir indivíduos dispostos a realizar essas atividades (telemigrantes) e potenciais empregadores. Relatório produzido pela consultoria McKinsey & Company estimou que já em 2025 as chamadas “plataformas de talento online”, que inclui os sites supracitados e outros como o LinkedIn, podem gerar US$ 2,7 trilhões em ganhos no PIB anual mundial e beneficiar 540 milhões de indivíduos ao redor do globo.

Seriam os países em desenvolvimento candidatos a se apropriar da maior fatia desses ganhos? A resposta de Baldwin para essa resposta é: claramente. A lógica é a mesma que move o comércio de bens. Entendendo a globalização como um fenômeno motivado pela arbitragem entre preços de fatores de produção, a telemigração permite que empresas e indivíduos de países desenvolvidos reduzam seus custos pela contratação de trabalhadores localizados em países em desenvolvimento, os quais possuem salários mais baixos. A diferença é que, diferentemente do que ocorre na manufatura, nos serviços providos por telemigração a empresa que contrata o serviço não precisa mover fisicamente parte do processo produtivo para outro país.

O autor estima, por exemplo, que um programador de computador (profissão cujos serviços podem facilmente ser providos por telemigração) nos Estados Unidos ganha, em média, US$ 4,141 mensais. O mesmo profissional na China ganha em média US$ 252, ou seja, cerca de 20 vezes menos. Para além dessa diferença considerável de custos, há funções nas quais profissionais de países em desenvolvimento têm um desempenho médio superior quando comparados às suas contrapartes de países desenvolvidos. O caso de programadores de computador é novamente um exemplo emblemático. Uma pesquisa realizada em 2016 apontou os (baratos) programadores chineses como os melhores do mundo, enquanto os (caros) programadores norte-americanos não figuraram na lista dos dez melhores. Em face dessa diferença considerável de custo e, por vezes, da qualidade do trabalho, espera-se que empresas e/ou indivíduos tenham fortes incentivos para contratarem provedores de serviços de países em desenvolvimento caso não haja restrições para isso.

Se os países em desenvolvimento são vistos de forma geral como os potenciais beneficiários pela telemigração, como o Brasil insere-se nesse quadro? Em recente entrevista à Folha de S. Paulo por ocasião da sua vinda ao Brasil, Baldwin apontou o país como um dos possíveis casos de sucesso no desenvolvimento da telemigração. A principal razão é que esse tipo de trabalho exige certa infraestrutura e qualificação formal, aliada à um salário mais competitivo do que aquele praticado em países desenvolvidos. Indivíduos de renda média (a nível global) localizados em países de renda média surgem, então, como os maiores potenciais beneficiários. O gráfico abaixo relaciona a distribuição de renda global (eixo vertical) e o percentil de distribuição no país (eixo horizontal) e mostra que o Brasil tem boa parte da sua população próxima da média de salário global, o que em tese o qualifica para ter uma vantagem competitiva com a telemigração. Vale, no entanto, abordar com mais detalhes algumas das exigências para que esse potencial, de fato, se concretize.

Fonte: Milanović (2015)

Barreira linguística

Baldwin é um entusiasta da redução da importância da barreira linguística. Para ele, o desenvolvimento de ferramentas de tradução automática deve praticamente zerar esse obstáculo para boa parte dos serviços que podem ser prestados por telemigrantes. Fato é, no entanto, que até o momento a questão linguística ainda tem um peso importante. Não à toa, a Índia, que possui um grande número absoluto de indivíduos fluentes em inglês, é um dos grandes provedores de serviços para países desenvolvidos anglófonos, como os Estados Unidos e o Reino Unido. O Brasil, no entanto, segue com proficiência baixa na língua inglesa. Isso é um potencial impeditivo para o país se beneficiar com a telemigração. Isso é agravado pelo fato de que o fuso-horário poderá ser um fator determinante para o estabelecimento dos fluxos de telemigração, outra previsão de Baldwin e que coloca o Brasil como um potencial provedor para o grande mercado dos Estados Unidos. Na medida em que países com fuso-horários próximos, como a Argentina, possuem níveis de proficiência melhores do que o Brasil, eles podem largar na frente para prover serviços aos norte-americanos. Considerando que a maior parte dos alunos brasileiros frequenta escolas públicas e que cursos privados de inglês são muitas vezes inacessíveis à maior parte da população, está a cargo sobretudo dos governos municipais, estaduais e federal fazerem os investimentos necessários para melhorar o domínio da língua no país. Pesquisa realizada pelo British Council mostra que uma área fundamental é a provisão de recursos didáticos adequados, o que inclui livros, projetores e acesso à internet. Esse último ponto, inclusive, afeta a possibilidade de desenvolver a provisão de serviços por telemigração para além da questão linguística, como será visto a seguir.

Domínio de Informática e Cobertura Digital

O Professor Alan Blinder, economista da Universidade de Princeton, fez uma lista das ocupações com maior probabilidade de serem realocadas dos Estados Unidos para um outro país devido à diferença de custos (offshored) – fenômeno esse que, no setor de serviços, estamos chamando de telemigração. Das 10 primeiras ocupações identificadas, metade são serviços providos via computador. Isso significa que as principais oportunidades relacionadas à telemigração estarão diretamente relacionadas a uma infraestrutura que permita o domínio de ferrramentas básicas de computação e o acesso à internet. Embora o número de pessoas com conhecimento de informática esteja crescendo no país, o acesso à internet ainda é um desafio no país. Relatório do Banco Mundial de 2016 afirmou que 98 milhões de brasileiros permanecia sem acesso à internet. Mesmo para aqueles que possuem acesso, a qualidade da conexão não é boa. Levantamento feito pela consultoria McKinsey & Comapny (figura abaixo) mostra que a média da velocidade da internet no Brasil é metade da média global. Para que o Brasil possa, efetivamente, ser um provedor de serviços para países desenvolvidos é preciso que essas lacunas sejam enfrentadas de forma prioritária.

McKinsey & Comapny (2019)

Atenção às regras multilaterais de comércio

Assim como há um posicionamento protecionista de países desenvolvidos em alguns dos setores nos quais os países em desenvolvimento possuem vantagens competitivas no comércio de bens (ex. agricultura), se a telemigração tomar a proporção que vem se anunciando, espera-se que haja uma reação semelhante por parte dos países desenvolvidos para frear esse movimento. Nesse ponto, no entanto, as regras multilaterais podem jogar a favor dos países em desenvolvimento. A provisão de serviços já está regulada no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), por meio do Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS, na sigla em inglês). Hoekman e Primo Braga (1997) mostram que os países desenvolvidos assumiram mais compromissos de liberalização no GATS em comparação aos países em desenvolvimento. Isso inclui os compromissos relacionados ao Modo 1 (Comércio Transfronteiriço), no qual se classificam os serviços passíveis de serem providos por telemigração.

No entanto, as discussões relacionadas a comércio digital avançam tanto no âmbito multilateral quanto em acordos regionais de comércio. Caberá aos negociadores dos países em desenvolvimento levarem em consideração o fato de que seus países podem ter também interesses ofensivos nesses temas, o que exige um posicionamento mais qualificado do que apenas a histórica proteção no comércio de serviços. Os posicionamentos defensivos dos países em desenvolvimento no setor de serviços precisarão, portanto, ser balanceados com buscas por manutenção dos compromissos de liberalização nos setores em que eles possam se beneficiar. Será necessário, por exemplo, redobrar a atenção para que eventuais novos compromissos não abram brechas protecionistas para os países desenvolvidos nos setores que podem ser providos por telemigração, o que poderia reverter aquilo que já foi previamente negociado no GATS.

Considerações finais

Na essência, o que Baldwin chama de telemigração não é essencialmente novo. Isso nada mais é do que a utilização de um novo (e sugestivo) termo para a caracterização de alguns serviços específicos via Modo 1. A grande virtude do seu novo livro, no entanto, é empregar uma linguagem acessível e refletir sobre aparentes pequenas mudanças presentes no dia-a-dia para caracterizar o que pode vir a ser uma grande reversão no comércio internacional: países em desenvolvimento sendo importantes provedores de serviços para países desenvolvidos. A base desse fenômeno é o emprego de uma vantagem competitiva explícita dos países em desenvolvimento (salários mais baixos) em um segmento no qual ela permanecia largamente velada por limitações tecnológicas (serviços). Essa é uma oportunidade de superar a restrição ao movimento de pessoas físicas (Modo 4) de prestação de serviços que, embora não condizente com a teoria neoclássica de comércio que baseia o sistema multilateral atual, é largamente aceita sob a justificativa de inviabilidade política. Para o Brasil, a telemigração vem como uma rara possibilidade de utilizar a sua renda média como uma vantagem inicial e não como uma armadilha. Ademais, é uma chance de diversificar a nossa pauta exportadora ainda largamente dependente de bens e, mais especificamente, de produtos básicos. Para aproveitar essa oportunidade, será necessário melhorar o domínio de inglês da população, assim como oferecer uma melhor infraestrutura relacionada à informática. A revolução digital é um desses raros momentos em que há oportunidades reais de mudança nos fluxos comerciais, comparável à revolução industrial do início do século XIX. É melhor não perdermos esse novo trem da história (não mais a vapor, mas agora virtual), pois ele pode demorar a passar novamente.

Autor:

Edgard Carneiro Vieira é graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Atualmente, é mestrando em International Affairs pelo Graduate Institute, Genebra. 

Big Data: Um exemplo de aplicação em Economia

Você já deve ter lido em algum portal de notícias que a utilização de Big Data vai revolucionar o mundo dos negócios, a atuação do governo e outros aspectos importantes da economia. A evolução de ferramentas computacionais nas últimas décadas permitiu o armazenamento, organização, manipulação e análise de uma quantidade enorme de informações. Diariamente, são produzidos 2,5 quintilhões de bytes de dados, e 90% dos dados existentes atualmente foram gerados apenas nos últimos dois anos. Considerando esses números, podemos nos perguntar como essa quantidade imensa de dados poderia impactar as pesquisas na economia.

Mas o que é exatamente Big Data? Em 2001, Doug Laney identificou três dimensões sob as quais a gestão de dados seria desafiada nos próximos anos: Volume, Velocidade e Variedade. Essa é a origem do modelo “3Vs”, que serviu de base para conceituações subsequentes, como a da Gartner, que definiu Big Data como “ativos de informação de alto Volume de dados, alta Velocidade de geração (ou atualização) e grande Variedade de fontes (e formatos), que exigem formas de processamento inovadoras e eficientes e que permitem melhor compreensão, capacidade de tomada de decisão e automatização de processos”. Outros V’s foram adicionados ao modelo à medida que Big Data foi se tornando uma realidade em diversos contextos: Veracidade, referente à presença de ruído e viés em grandes conjuntos de dados, Volatilidade, referente às frequentes mudanças tecnológicas e de ambiente em que grandes conjuntos de dados são produzidos, e Valor, relacionado à dificuldade em se extrair informações relevantes de grandes fontes de dados.

Uma interessante aplicação de Big Data na área econômica ocorreu em um período que a Argentina enfrentava um problema de credibilidade institucional. Em um cenário de alta inflacionária, após o índice de preços ao consumidor (IPC) argentino atingir 12% em 2006, parte da diretoria e do corpo técnico do INDEC – Instituto Nacional de Estadística y Censos – responsável pela divulgação do índice oficial de preços, foi substituída ou demitida por ordem do poder executivo. Dadas as alterações metodológicas no computo do índice em 2008, somadas a denúncias de ex-funcionários do INDEC de que o governo estaria manipulando o IPC, setores da mídia, da academia e economistas em geral passaram a desconfiar das estatísticas oficiais. Além disso, índices de inflação regionais, compilados pelos governos das províncias argentinas, divergiam consideravelmente dos números nacionais do INDEC. O governo central, nesse caso, justificava que a divergência ocorria devido a problemas no tamanho das amostras de preços coletadas pelos governos locais.

Dada tamanha desconfiança em relação ao índice de inflação divulgado pelo INDEC, economistas e institutos independentes buscaram criar índices inflacionários alternativos. Por exemplo, em 2007, o índice oficial de inflação foi de 9,7%, ou seja, redução em relação ao ano anterior. Mas estimativas independentes da Torcuato di Tella University indicavam uma inflação real próxima dos 30% naquele ano. E, com o surgimento dessas estimativas independentes, o governo argentino começou a ameaçar, com multas e até prisão, quem publicasse índices alternativos de inflação.

Nesse contexto surgiu o trabalho em Big Data de Alberto Cavallo. Com o crescimento do comércio eletrônico nas últimas duas décadas, cada vez mais produtos e serviços passaram a ser ofertados “on-line”. Assim, surgia uma enorme “base de dados” distribuída na Internet com informações sobre preços. Cavallo então passou a coletar preços on-line de vários produtos em sites de varejistas da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela, por meio de uma técnica denominada web scrapping. Basicamente um algoritmo específico, que pode ser desenvolvido em diversas plataformas, como Python, navega na página de um determinado varejista, busca por produtos pré-determinados, coleta seu preço e armazena em uma base de dados. Ou seja, esse método é caracterizado pelo alto grau de automatismo com que preços podem ser coletados, em grande volume e em alta frequência, vantagens consideráveis em relação aos métodos convencionais, que envolvem pesquisa presencial ou via telefone. Uma outra vantagem para Cavallo, especificamente no caso da Argentina, é que pôde realizar a pesquisa a partir dos EUA, ou seja, estava livre das ameaças do governo argentino (claro, excluindo a hipótese de querer retornar para sua terra natal naquele período).

Entre outubro de 2007 e março de 2011, Cavallo coletou em média 11 mil preços diários de sites de grandes supermercados daqueles cinco países. Com base nesses preços, o pesquisador pôde construir índices de inflação “on-line” para cada país. As conclusões de Cavallo foram interessantes: para Brasil , Chile, Colômbia e Venezuela, o índice de preços on-line se aproximava, em termos de nível e dinâmica, dos índices de inflação oficiais desses países, mesmo com algumas diferenças metodológicas entre a composição dos índices. Contudo, para o caso argentino, não houve convergência em termos de nível entre o índice on-line e o oficial. No período de análise (três anos e meio), enquanto o índice oficial indicava uma inflação na ordem de 35%, o índice on-line registrava mais de 100%. Ao realizar uma regressão entre os dois índices, Cavallo identificou que o índice oficial estaria subdimensionado, por mês, em média 0,84%. Porém, o que intrigou o pesquisador foi que, apesar da grande diferença em termos de nível, ambos os índices apresentavam grande correlação em relação a dinâmica dos preços.

Buscando explicar tais resultados, Cavallo formulou algumas hipóteses. Haveria alguma diferença em termos de nível entre os preços on-line e os preços nas lojas físicas do varejista pesquisado? Tal hipótese foi rejeitada com base em pesquisa presencial. O varejista, objeto da pesquisa on-line, seria não representativo? Também foi refutada quando o pesquisador expandiu sua coleta para outra rede de supermercados. O índice oficial poderia utilizar pesos maiores para produtos com preços controlados pelo governo? Tal suspeita também não se sustentou: como o controle de preços era intermitente, em momentos de relaxamento das restrições, as firmas aumentavam os preços acima da inflação, já que possuíam expectativa de sofrerem novas restrições. Por exemplo, os itens que sofriam controle de preços, em 2010, tiveram inflação de 40% pelo índice on-line. Após esgotadas essas e outras hipóteses, Cavallo sugere que a melhor resposta seria a mais simples: o INDEC manipularia consistentemente o índice inflacionário argentino, nas etapas finais de agregação, simplesmente divulgando algo que seria próximo de um terço do índice real.

Durante a realização desse trabalho, Cavallo e Roberto Rigobon fundaram o The Billion Prices Project, iniciativa acadêmica que coleta diariamente mais de 15 milhões de preços on-line, de mais de 1000 varejistas em 60 países. Também fundaram a PriceStats, empresa privada com o objetivo de produzir índices de preços em alta frequência para clientes dos setores financeiro e público. A conclusão de que preços on-line apresentariam comportamento similar aos preços off-line, em termos de dinâmica e nível, abriu portas para o uso dessa nova fonte de dados para pesquisas sobre preços, macroeconomia em geral e até economia internacional.

Por exemplo, Cavallo avaliou a rigidez dos preços on-line, importante mecanismo de transmissão da política monetária em diversos modelos macroeconômicos. Concluiu que os preços na Internet tendem a antecipar choques, reagindo de forma mais rápida que preços em lojas físicas. Tal observação não se deve a habilidade de se coletar os preços on-line em maior frequência, e sim devido a um menor custo de menu e competição de maior intensidade e transparência, características de ambientes de comércio eletrônico.

Outra pesquisa envolveu a utilização da base de dados de preços on-line como meio alternativo para calcular Paridade do Poder de Compra (PPC). Os pesquisadores apontam que, com uso de preços on-line, é possibilidade aumentar a frequência e a transparência da compilação do PPC em relação ao método tradicional, apesar de limitações da fonte de Big Data e diferenças metodológicas.

Os pesquisadores também puderam realizar ensaios sobre a Lei do Preço Único. A pesquisa tradicional sobre esse tema enfrenta barreiras devido à dificuldade em se obter preços para muitos bens idênticos, simultaneamente, em muitos países, situação em que o uso de preços on-line pode ser vantajoso. Ao utilizar sua base de dados, os pesquisadores verificaram que a Lei do Preço Único tende a ser verdadeira em países que possuem moeda em comum, por exemplo, na área do Euro ou em países em que o dólar é a moeda oficial. Ou seja, concluem, nesses casos, que fatores como distância e impostos não seriam tão importantes na formação de preços quanto se acreditava ser.

Essa é uma pequena amostra de como fontes alternativas de Big Data, indisponíveis até pouco tempo, podem ser utilizadas de formas inovadoras na área de pesquisa econômica.

Autores:

Bernardo Resch D’Oliveira possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade de Brasília (UnB) e é mestrando em Economia pela Universidade de Brasília (UnB).

Carlos Alexandre Piccioni é Engenheiro de Controle e Automação Industrial e Mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Santa Catarina (USFC). Atualmente, cursa doutorado em Economia na Universidade de Brasília (UnB).

Educação, Distribuição e Incentivos – Novos e Inusitados Meandros

Novas pesquisas (que detalharemos mais na frente neste post) indicam curiosos e inesperados vínculos entre três dimensões ou variáveis já amplamente tratadas na literatura: educação, distribuição de renda e incentivos.

Iniciemos a nossa discussão com uma lembrança: a educação foi, desde os primórdios da economia como ciência (Smith), associada à produtividade, ao crescimento da renda dos indivíduos e das nações e vinculada a aspectos distributivos e de pobreza. Essa singularidade multifacetária da educação mereceu um particular tratamento na moderna Teoria do Capital Humano (Becker, Schultz, etc.), e hoje está relativamente bem sedimentada na literatura. Em realidade, esses atributos da educação surgem devido à mesma estar associada a um maior desenvolvimento da capacidade cognitiva, proficiências, habilidades, etc., dos indivíduos (ver, por exemplo, Hanushek (2008)). Em geral, o capital humano está associado, primordialmente, à escolaridade, tanto em termos quantitativos (anos de estudo) quanto qualitativos. Dessa forma, o ativo de um país em termos de formação, habilidades e proficiências de sua força de trabalho é corriqueiramente vinculado aos anos de estudo e, nas análises mais sofisticadas, essa dimensão quantitativa é corrigida por algum fator que incorpora a qualidade (Hanushek and Kimko (2000)). A partir dessa correspondência entre capital humano acumulado no sistema escolar e instâncias como crescimento, distribuição, pobreza, etc. gerou-se uma enorme polêmica sobre a relevância dos recursos alocados na educação (especialmente gastos públicos) nos resultados atingidos. Em um famosíssimo artigo (Hanushek (1986)), um dos mais conhecidos teóricos da economia da educação chega à conclusão que os gastos em educação não parecem guardar correlação robusta com o produto (“there appears to be no strong or systematic relationship between school expenditures and student performance”). Esta conclusão foi, obviamente, amplamente debatida na literatura, sendo contestada em outros artigos (“Do school inputs matter for the educational attainment of children? The answer is a resounding yes”, ver aquí). A eficiência e eficácia dos gastos dependeria tanto de como os mesmos são alocados (bibliotecas ou laboratórios ou salários dos professores) quanto da faixa etária da criança ou jovem privilegiado, sendo consensual hoje que os primeiros anos de vida são cruciais para determinar o futuro desenvolvimento cognitivo (ver aqui) e mesmo a trajetória na vida ativa do indivíduo (ver aqui).

Contudo, toda essa polêmica sobre a eficiência/eficácia do gasto, a alocação ótima do mesmo e a etapa da vida mais importante tem como eixo o sistema escolar. Em realidade, a capacidade cognitiva de um indivíduo, seu sistema de valores, sua maturidade sócio-emocional, sua autonomia, etc., todos fatores cruciais para sua futura produtividade, é uma mélange do incorporado no sistema escolar, do ambiente familiar, de seu entorno sócio-econômico, etc.. Essas distintas instâncias se superpõem e interagem. Um indivíduo criado em um ambiente familiar de elevado capital humano e com uma conseguinte renda elevada, frequentará estabelecimentos escolares de qualidade, os pais transmitirão capital humano, valores, prioridades, etc. complementando, também, as tarefas da escola/colégio. A criança/jovem interagirá com colegas oriundos de um contexto socioeconômico similar, conviverá com familiares, etc. e, em todos os casos, irá formando seu perfil de personalidade que não unicamente formatará sua vida particular senão também seu perfil profissional. Obviamente, a esse viés se agregam nexos de relações sociais e pessoais que também alimentam a estratificação e inércia da estrutura social. Em outros temos, as características individuais que determinarão a trajetória profissional futura de uma pessoa não podem ser creditadas, exclusivamente, ao estabelecimento escolar.

Essa interação entre diferentes dimensões (sistema escolar, família, amigos, etc.) que acabam desaguando na formação particular de cada indivíduo tem como corolário algumas singularidades bem inusitadas. Citemos uma delas que será a referência para colocações que realizaremos nos próximos parágrafos. Imaginemos que os pais de um núcleo familiar têm uma dada meta em termos de educação de seus rebentos. Nesse caso, a eficiência/eficácia e os recursos disponíveis no sistema educativo podem determinar o esforço ou dedicação que a família dedica à educação no lar. Uma elevação na eficiência/eficácia do estabelecimento escolar pode redundar em menores engajamentos ou, ao contrário, no contexto de uma deterioração no processo educativo, atingir a meta desejada pode induzir os pais a alocarem maiores horas na ajuda da criança/jovem a fim de complementar a formação e atingir um nível dado de habilidades. Ou seja, dado um objetivo em termos de educação, o esforço e tempo dedicado ao complementar à formação das crianças e jovens no seio da unidade familiar pode ser a variável de ajuste. Nesse contexto, os resultados nos sistemas de avaliação devem ser olhados com extremo cuidado. Por exemplo, maior alocação de recursos públicos no ensino pode não ter como corolário melhores indicadores, sugerindo, equivocadamente, falta de eficácia na sua aplicação. Contudo, esses maiores recursos podem ter como conseqüência menor dedicação da família nas tarefas de formação dos filhos e, nesse sentido, concluir que, dado que os indicadores de resultado não variaram, existe ineficiência na aplicação dos recursos, seria um erro.

Se transitamos desse nível micro (o indivíduo) para um nível mais macro (a distribuição), as inter-relações entre crescimento e concentração de renda foram território de duas grandes e conflitivas interpretações. A primeira, sustentava que uma renda concentrada permitiria fugir da armadilha da pobreza: países pobres não investem porque têm baixa poupança, alimentando um círculo vicioso. A concentração de renda abriria espaço para elevar a taxa de poupança (os ricos poupam, os pobres não), viabilizando o investimento e conseqüente crescimento. No longo prazo, o desenvolvimento acabaria beneficiando toda a população, inclusive os que, transitoriamente, tinham sido penalizados pela concentração. A frase atribuída a Delfim Neto na época do milagre (“primeiro crescer depois distribuir”), sintetizaria esta posição. A China pós-Mao seria um exemplo bem-sucedido desta hipótese. O dinamismo econômico desde os anos 80 do século passado retirou mais de 600 milhões de pessoas da pobreza em um reduzido tempo histórico (um quarto de século). Hoje menos de 3% da população vive abaixo da linha de pobreza.[1] Contudo, a China hoje é uma sociedade mais desigual que no período maoísta. No caso da maior desigualdade propiciar maior crescimento que acaba beneficiando os mais vulneráveis, essa maior concentração seria, para Rawls (1999), legítima. Lembremos que, no Princípio de Diferença de Rawls, as desigualdades de renda (e de poder) só se justificam se contribuem para melhorar o bem-estar dos mais desfavorecidos. Em outros termos: para Rawls a igualdade sempre será preferível, exceto quando a desigualdade acaba melhorando as condições de vida de todos, inclusive e preferencialmente dos mais pobres.

Além do efeito sobre a poupança, maior desigualdade geraria um sistema de incentivos capaz de tornar atrativos investimentos, recompensar esforços, elevar a eficiência na alocação de recursos, etc., fatores que redundariam em um maior dinamismo econômico. Ou seja, via incentivos, a concentração, indiretamente, acabaria beneficiando a todos e, nesse sentido, seria legítima na perspectiva de Rawls. Voltando à Teoria do Capital Humano, maiores retornos a investimentos em educação seriam a outra face de uma maior concentração dos rendimentos do trabalho. Quanto maiores os diferenciais de salários, segundo escolaridade, maiores seriam os incentivos à acumulação de capital humano (freqüência escolar), tendo desdobramentos sobre os rendimentos individuais em paralelo a uma dilatação das fronteiras de crescimento.

Logicamente, estes supostos benefícios de uma maior concentração sobre o crescimento e, no longo prazo, sobre a pobreza, têm um histórico de críticas na literatura (ver, por exemplo, aqui). Uma corrente interpretativa associa maior desigualdade a menor crescimento potencial, uma vez que a concentração de renda geraria sociedades com tal grau de instabilidade política que acabaria afetando os investimentos via elevação do risco (ver aqui).

Essas diferentes escolas de pensamento e o conseqüente debate são conhecidos e a polêmica está longe de esgotar-se. Contudo, dois autores (Matthias Doepe e Fabrizio Zilibotti) abriram ainda mais o leque de variáveis e correlações (ver aqui e aqui). Basicamente eles revelam a existência de uma robusta correlação entre desigualdade de renda, a dedicação que os pais dedicam à educação de seus filhos e o tipo de educação que proporcionam.

A primeira correlação encontrada diz que, quanto maior a desigualdade de renda de um país maior será o tempo, os esforços e a dedicação da família à formação dos filhos. Assim, China, Rússia e EUA, países com elevados parâmetros de desigualdade, apresentam, também, alto engajamento dos pais no “êxito” escolar de seus rebentos, uma vez que sabem que o fracasso pode representar uma perda importante na posição social (absoluta e relativa) futura. Contrariamente, em países com um desenvolvido Welfare-State e reduzida desigualdade, (os países Nórdicos, por exemplo) o envolvimento da família é muito menor, deixando as tarefas a cargo do Estado. O fracasso ou uma precária formação escolar não redundará em grandes privações materiais ou distanciamento com respeito à média.

A segunda correlação diz respeito ao tipo de formação procurada pelos pais. Em sociedades muito desiguais, a formação pretendida pela família tende a ser mais estreitamente vinculada ao mercado de trabalho ou a habilidades e proficiências com matching nos perfis requeridos nos empregos. O perfil educativo dado aos jovens tenderá a privilegiar aspectos como a disciplina, obediência, etc., particularmente valorados no mercado de trabalho. Nas sociedades com menores graus de desigualdade, as famílias favoreceriam uma formação que poderíamos definir como “mais humanista”, onde a liberdade dos alunos, o desenvolvimento da imaginação, da autonomia, do espírito crítico, etc. são valorizados.

Os autores ressaltam que estas associações (que se teriam aprofundado nas últimas décadas) tendem a alimentar um círculo vicioso que torna as estruturas sociais menos permeáveis à mobilidade e aprofundariam a polarização. Famílias com elevados agregados de capital humano (já hoje no topo da distribuição) teriam mais facilidades em complementar no lar a formação adquirida no sistema escolar. Por outra parte, um elevado grau de rendimentos abriria espaço para financiar formação complementar (aulas particulares, idiomas, etc.). O contrário sucederia na medida em que nos deslocamos aos estratos de famílias com menores acumulações de capital humano e rendimentos. Ou seja, em sociedades muito desiguais o engajamento das famílias na formação dos filhos seria maior e adquiriria um viés mais economicista (muito dirigido ao mercado de trabalho). Nesse contexto, a desigualdade tenderia a se perpetuar, com pouco espaço para a mobilidade. Contrariamente, em sociedades menos desiguais e com Estados de Bem-Estar generosos, a formação seria dada, primordialmente, pelo sistema escolar público, sendo o conteúdo dos currículos menos economicista. Neste caso, o perfil menos excludente da sociedade tenderia, também, a se perpetuar.

Contudo, há outro aspecto não explorado pelos autores. Na medida em que sociedades desiguais tendem a induzir maior participação dos pais na educação de seus filhos e direcionam o perfil de formação em direção a aspectos particularmente valorados pelo mercado (disciplina, conteúdos técnicos, controle sócio-emocional, etc.), o crescimento potencial pode estar sendo ampliado. Aqui voltaríamos a encontrar, por outros caminhos, uma correlação positiva entre desigualdade e crescimento, mas esta vez por meio do comprometimento das famílias na acumulação de capital humano das gerações que no futuro vão integrar a força de trabalho. Os objetivos familiares seriam tanto quantitativos quanto qualitativos (tipo de educação). O velho trade-off equidade-eficiência retornaria, ainda que as variáveis causais sejam outras.

Obviamente, mesmo assumindo que esses vínculos positivos entre desigualdade e quantidade e tipo do capital humano acumulado sejam confirmados em futuras pesquisas, não se pode deduzir de forma direta que o bem-estar das sociedades onde prevalecem a desigualdade e o elevado crescimento seja necessariamente maior. Uma educação na qual se privilegie a autonomia na formação das crianças/jovens sem absurdas pressões sobre os resultados (em termos de notas e competição) pode ser superior, em escalas de bem-estar, quando comparado a um sistema no qual a principal meta da freqüência escolar seja um perfil de habilidades exclusivamente direcionado ao mercado de trabalho, com todas as exigências em termos de disciplina, obediência e dedicação que tal contorno requer. Nesse sentido, a experiência observada nos países nórdicos, por exemplo, faz duvidar que, inexoravelmente, uma menor participação dos pais na formação dos filhos e um perfil educativo não exclusivamente pautado pelas exigências das oportunidades de emprego tenha, fatalmente, impactos negativos sobre a produtividade e o crescimento.

  1.  Fonte: Banco Mundial.

Autor:

Carlos Alberto Ramos é Professor do Departamento de Economia, UnB. Graduação Universidad de Buenos Aires, Mestrado na Universidade de Brasília, Doutorado na Université Paris-Nord.

Domenico de Masi e a Sociedade Pós-Industrial

Em uma recente entrevista para o Estadão (ver aqui), na ocasião da publicação de mais um livro seu, o popular sociólogo Domenico de Masi sintetiza com peculiar nitidez uma corrente interpretativa notoriamente difundida e aceita. Essa escola define o atual período histórico como sendo pós-industrial (etapa na qual o setor predominante em termos de emprego, produto e dinamismo seriam os serviços) e vem acompanhado de um diagnóstico pessimista e de propostas de política. De forma muito sintética, esse diagnóstico identifica uma nova etapa histórica (pós-industrial) na qual os ganhos de produtividade seriam tão elevados que, na ausência de uma nova política pública, o desemprego e a desigualdade definiriam o novo ciclo. Essa nova política consistiria, basicamente, na redução do tempo de emprego (nas atividades mercantis) e, para um dado nível de PIB e uma dada produtividade, na distribuição das necessidades de trabalho de forma mais equitativa. Por outra parte, essa diminuição do tempo de emprego abriria espaço para tarefas criativas (mais ócio, lembremos que de Masi é popularmente conhecido como um teórico do denominado “ócio criativo”), elevando o bem-estar dos indivíduos, ainda que não necessariamente o PIB.

Essa perspectiva parece gozar de certo apelo popular e mesmo acadêmico (especialmente depois dos livros de Daniel Bell). Uma vez que a recente entrevista de de Masi, no Estadão, é uma boa representação dessa perspectiva, vamos avaliar a sua consistência teórica e a aderência com os dados contidos na mesma. Nos próximos parágrafos pretendemos mostrar que, tanto em um caso (analiticamente) quanto em outro (empiricamente), essa identificação de um novo ciclo histórico produtivamente dinâmico porém, pelo desemprego que gera, socialmente excludente, não se sustenta. Ao menos não se ampara em argumentos e dados usualmente expostos pelos seus teóricos.

De Masi afirma:

“Um desempregado trabalha mais do que um empregado. Porque para conseguir comer à noite deve fazer mil coisas para ter o mínimo de comida. O desempregado é o trabalhador mais intenso que existe. Ninguém trabalha como os desempregados, eles fazem os trabalhos que nós evitamos, carregam malas, são babás, lavam pratos”

Essa afirmação carece de qualquer consistência lógica: um desempregado que trabalha não é, por definição, desempregado. Segundo consenso metodológico na construção de estatísticas, a caracterização de um indivíduo como desempregado é a interseção de dois requisitos: não estar empregado e estar procurando emprego. Essa designação pode ou não ser mais elaborada e contar com outros requisitos, mas essencialmente essa é a premissa. Por exemplo, a definição de um limite de horas trabalhadas a partir do qual o indivíduo pode ser definido como ocupado. No caso do Brasil, a PNAD Contínua considera esse limite de uma hora de trabalho completa (remunerada ou não remunerada) na semana de referência. Também podemos sofisticar a quantificação da sub-utilização da força de trabalho segundo situações de desalento, desejo de trabalhar mais horas que as realmente realizadas, etc.. Em geral, seguindo recomendações internacionais, especialmente da OIT, os institutos nacionais de pesquisa (como o IBGE) acompanham essas alternativas metodológicas. Contudo, em nenhum caso se pode afirmar que os desempregados são os indivíduos que mais trabalham. Essa afirmação é um contra-senso. A principal atividade na qual um desempregado aberto está dedicado é a procura de emprego, que leva tempo, esforço e tem custos financeiros. Um ocupado pode estar insatisfeito com as tarefas realizadas ou se sentir sobre-qualificado para a vaga que está ocupando, não ser reconhecido, etc., mas em todos os casos não pode ser qualificado como um desempregado. Ou seja, a afirmação de de Masi não se sustenta.

Em outra parte da entrevista, o sociólogo afirma:

“Conseguimos produzir sempre mais, trabalhando sempre menos. Na Itália, em 1891, éramos 30 milhões e trabalhamos 70 milhões de horas. Em 2018, 61 milhões trabalharam 40 milhões de horas. E produzimos 20 vezes mais. Isso é o que em economia se chama jobless growth (crescimento sem trabalho)”

De Masi confunde. Isso não se chama “jobless growth”, isso se chama “productivity growth”. Se trabalhando quase 13% menos (em horas) os italianos produzem 20 vezes mais significa que a produtividade (por hora) cresceu 2.100% no período. Ele fala que esse aumento da produtividade foi gerado “…sobretudo a causa do desenvolvimento tecnológico”. Basicamente o argumento diz que o desenvolvimento tecnológico, ao propiciar ganhos de produtividade, não gera empregos. Nesse sentido, a sociedade pós-industrial seria singularizada pela predominância do trabalho intelectual como gerador de valor, sendo os ganhos de produtividade de tal ordem que seria utópico imaginar o pleno emprego nesse contexto.

Podemos identificar, nesse argumento, três fragilidades.

A primeira se nutre de pretender teorizar sobre uma quase tautologia. A produtividade é definida dividindo o PIB pelo número de trabalhadores ou as horas trabalhadas (PIB/L, sendo L=trabalho, medido em número de indivíduos ou horas trabalhadas). Assim, a variação da produtividade é a variação do PIB menos a variação do emprego. Quanto maior for a elevação da produtividade menor será a elasticidade PIB/emprego. Esse “resultado” é o corolário óbvio e incontornável de se trabalhar a partir de uma definição. Não existe a possibilidade de o aumento da produtividade não ser “jobless”. Se o aumento da produtividade não é “jobless” ou não estamos diante de um aumento ou o que estamos medindo não é produtividade. Isso na sociedade pós-industrial, na industrial ou na agrícola.

Em outros termos, a utilização de menos trabalho por unidade de produto não seria uma característica de nossas sociedades hoje (pós-industriais) e sim seria uma peculiaridade de qualquer sociedade que esteja elevando a sua produtividade. Nesse sentido, nos encontramos diante da segunda fragilidade: o dilema atual seria produto de uma sociedade incapaz de dar oportunidades de emprego a toda sua força de trabalho devido ao desenvolvimento tecnológico. Vamos retroagir no tempo. Mais precisamente quase dois séculos. Na terceira edição de Princípios de Economia Política e Tributação (1821), Ricardo agrega a seu livro um novo Capítulo (XXXI), intitulado Sobre a Maquinaria (On Machinery), no qual discorre sobre os efeitos da introdução de máquinas sobre o trabalho, chegando a sustentar (Ricardo):

 

“…but I am convinced, that the substitution of machinery for human labour, is often very injurious to the interests of the class of labourers………. All I wish to prove, is, that the discovery and use of machinery may be attended with a diminution of gross produce; and whenever that is the case, it will be injurious to the labouring class, as some of their number will be thrown out of employment, and population will become redundant, compared with the funds which are to employ it”

Nossa intenção não é polemizar sobre as afirmações de Ricardo, senão lembrar que a questão do desenvolvimento tecnológico, a substituição de trabalhadores por capital, etc. está presente desde os primórdios das sociedades modernas. O movimento ludista, da Inglaterra no século XIX, está aí para nos referenciar. Assim, associar um suposto excedente estrutural de trabalho (desempregados, que em realidade parece que são, segundo de Masi, os que mais trabalham) a uma hipotética tipicidade contemporânea própria de uma sociedade pós-industrial é uma afirmação sem qualquer aderência à história. O temor que o desenvolvimento tecnológico (a máquina, o computador, a inteligência artificial, etc.) substitua o trabalho humano e, ao elevar a produtividade, torne enormes contingentes de indivíduos em um descomunal exército de reserva é um temor recorrente, mas, como veremos nos próximos parágrafos, infundado, sem âncora em séries históricas ou nas trajetórias concretas dos países.

A terceira falta de correspondência entre as afirmações de de Masi e os dados está vinculada à suposta aceleração dos ganhos de produtividade como produto da globalização e do desenvolvimento tecnológico (“A causa da globalização é sobretudo a causa do progresso tecnológico, conseguimos produzir sempre mais, trabalhando sempre menos”). O aumento da produtividade, sempre segundo essa interpretação, teria se acelerado na nova etapa histórica (sociedade pós-industrial). Ocorre, porém, justamente o contrário. Os ganhos de produtividade são, hoje, inferiores aos prevalecentes na era de ouro da indústria e, nesse sentido, os dados são eloqüentes, consensuais e geram um outro tipo de debate. Nos anos 60, as variações da produtividade cresciam a taxas (hoje inacreditáveis) de 4%, com percentuais superiores nos “tigres” desses anos (como Alemanha e Japão, que chegaram a atingir 6/8%). Hoje a variação está no intervalo entre 0/2% (ver aqui) . Por que essa redução ? Justamente, a crescente participação do setor de serviços não estaria alheia a esse fenômeno (um retorno ao Modelo de Baumol ou a prova de sua pertinência). Ou seja, não obstante a proliferação de novas formas de organização do trabalho, da economia digital, a inteligência artificial, da rapidez nas comunicações, etc., a produtividade estaria longe de igualar os patamares atingidos no ciclo dourado da sociedade industrial. Está fora dos objetivos deste post refletir sobre a aparente contradição entre a revolução tecnológica em curso e a quase estagnação da produtividade, mas o certo é que a denominada sociedade pós-industrial não se caracteriza por elevações de produtividade de magnitude tal que gerariam um exército de reserva nunca visto antes na história da humanidade. O contrário, segundo diversos teóricos (ver, por exemplo, Gordon (2017)) o mundo estaria entrando em uma etapa de estagnação secular. No tocante ao nível de emprego, os dados assinalariam que os países desenvolvidos estariam vivendo uma situação próxima do pleno emprego, fato que levou a The Economist a titular um recente artigo: The rich world is enjoying an unprecedented jobs boom.

Mas vamos continuar avaliando esse argumento em termos de sua aderência com as estatísticas. Se a produtividade seria inimiga do emprego e geradora de um excedente estrutural de desocupados, ter-se-ia que observar uma estreita correlação entre aquelas economias que gozam de uma elevada produtividade e suas respectivas taxas de desemprego. Quais seriam os líderes hoje em termos de produtividade ? Alemanha, por exemplo, uma potência exportadora e com um superávit em conta corrente que chega a 8% do PIB. Sua taxa de desemprego ? 3,3%, pleno emprego. Suíça, outra potência mundial exportadora (superávit em conta corrente de pouco mais de 9% do PIB). Sua taxa de desemprego ? 2,6%, pleno emprego. Geralmente EUA é tido como a fronteira em termos de produtividade e desenvolvimento tecnológico. Sua taxa de desemprego ? 3,8%, pleno emprego. Poderíamos continuar com os exemplos. Quais são os países que apresentam as maiores taxas de desocupação? Grécia (20%), Espanha (16%), Itália (11%), etc., justamente economias com problemas estruturais de produtividade.[1] Ou seja, os dados induzem a pensar que, ao contrário da afirmação de de Masi, existe uma correlação positiva: maiores produtividades viabilizam menores taxas de desemprego.

Direcionemos agora a nossa atenção à solução proposta por de Masi: distribuir o tempo de emprego mediante a redução da jornada de trabalho. O raciocínio é extremamente simples (até pode ser qualificado como simplório). Suponhamos que um país produza 100 carros (esse seria seu PIB) com 10 assalariados que trabalham 8 horas. Ou seja, para produzir 100 carros, dada a produtividade, se precisaria de 80 horas. Assumamos que 6 pessoas estejam desempregadas. Nesse caso, se os 10 assalariados no lugar de trabalhar 8 horas trabalhassem 5 horas, viabilizariam o emprego da totalidade da força de trabalho (16 assalariados com uma jornada de 5 horas totalizariam as mesmas 80 horas). Ter-se-ia atingido o mesmo PIB com pleno emprego, menos horas de trabalho e mais tempo de lazer. Em princípio, essa relação linear imaginada por de Masi depende de diversas hipóteses (características da função de produção, a existência de custos fixos, etc.). Se assumimos que a produtividade individual possa variar em função das horas trabalhadas (por exemplo, a primeira hora de trabalho é mais produtiva que a oitava), a regra de três de de Masi não se sustenta. Contudo, uma vez que os resultados dependem de hipóteses (sobre a função de produção, custos fixos, etc.) o mais conveniente é ter como referência as avaliações que foram realizadas nas diversas tentativas de elevar o emprego por meio da redução do tempo de trabalho. Nesse sentido, a França é um bom espaço para realizar avaliações, uma vez que essa “política de emprego” foi ensaiada na França em diversas oportunidades (1936, 1981, 1998). Os resultados são diversos, com algumas pesquisas encontrando resultados favoráveis (ver aqui, por exemplo) e outras bem mais pessimistas (ver aqui). Contudo, essa política de redução das horas trabalhadas, como forma de gerar emprego, está sendo paulatinamente abandonada. Em geral, as variáveis que hoje são avaliadas para explicar porque países vivem em situação de pleno emprego (EUA, Suíça, Holanda, Alemanha, Japão, etc.) e outros convivem com um desemprego cronicamente elevado (Espanha, Grécia, Itália, etc.) não passam pelas horas de trabalho, mas concentram-se no crescimento do PIB, nas instituições que regulam as relações capital/trabalho, na formação/educação, nos custos de contratação e nos encargos trabalhistas, etc.. Assim, afirmar que “Os desocupados devem lutar pela redução de horário de trabalho. Não existe nenhuma outra solução para o desemprego” é uma alegação carente de referencial empírico e de uma absurda simplificação analítica.

Essas são, em geral, as duas singularidades que parecem definir o diagnóstico e as propostas de política de de Masi. Um discurso simplista, com apelo a um suposto “bom senso” e, por isso mesmo, de relativo apelo popular (uma auto-ajuda econômica-sociológica de cunho populista), frágil teoricamente e que esqueceu de combinar com os dados.

  1. / A fonte dos dados de desemprego é OCDE.

Autor:

Carlos Alberto Ramos é Professor do Departamento de Economia, UnB. Graduação Universidad de Buenos Aires, Mestrado na Universidade de Brasília, Doutorado na Université Paris-Nord.