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Por que as empresas terceirizam suas atividades?

O tema da terceirização tem sido bastante discutido na imprensa, principalmente por conta do projeto de lei 4330/2004, que está tramitando no Congresso. Sem entrar no mérito do projeto de lei, cabe a pergunta: por que as empresas terceirizam suas atividades? O que isso tem a ver com serviços?

Em seu clássico artigo sobre a natureza das firmas, Ronald Coase (1937) argumenta que, para uma empresa, há ganhos em verticalizar e expandir a produção, mas estes são decrescentes. Se não fossem, uma única empresa fabricaria tudo internamente. Verticalizar demais traria custos crescentes de organização, o que faria com que a empresa não alocasse seus recursos da maneira mais eficiente. Logo, à medida que uma empresa cresce, haveria um ponto no qual seria mais vantajoso terceirizar parte de seu processo produtivo do que fabricar internamente.

Em trabalho mais recente, Berlingieri (2014) levanta três motivos pelos quais uma empresa decide terceirizar:

  • contratar atividades antes realizadas internamente, de maneira a economizar em custos trabalhistas e ter mais flexibilidade;
  • substituir insumos produzidos internamente por outros fabricados por empresas especializadas mais eficientes;
  • contratar serviços de mercado em resposta a novas necessidades, de maneira a economizar em custos de P&D e aprendizado.

Cabe notar, também, que, com o aumento da complexidade da economia e com a redução dos custos de transporte e comunicação, houve um crescimento tanto da demanda quanto da oferta por serviços especializados. Além disso, as empresas foram se especializando em tarefas cada vez mais específicas e, como os custos de transação diminuíram, terceirizar se tornou mais atraente. Esses fenômenos, conjuntamente, contribuíram para o aumento expressivo da terceirização nas últimas décadas, levando ao extremo, em alguns setores, de empresas que apenas projetavam seu produtos, sem fabricar praticamente nada internamente (STURGEON, 2002).

Analisando dados da economia americana, Berlingieri calcula que serviços profissionais respondem, sozinhos, por 40% do crescimento da participação de serviços no emprego entre 1947 e 2002. No período, os serviços aumentaram sua participação no PIB americano de 60% para 80%; já a participação no emprego passou de 60% para 85%.

O Brasil, de maneira menos intensa, também passou por esse processo de descentralização da produção. A questão é: se os serviços são importantes componentes do aumento da terceirização, mas estes são pouco eficientes, qual o impacto disso para a economia? O gráfico abaixo mostra que os serviços brasileiros têm 19% da produtividade do trabalho dos serviços americanos. “Aluguel de máquinas e equipamentos e outros serviços empresariais” apresenta uma produtividade do trabalho relativa de 13%. Logo, é bem provável que, por mais que possa trazer ganhos, o processo de terceirização da produção, em países como o Brasil, traga algumas perdas de eficiência.

Produtividade do trabalho no Brasil em atividades selecionadas relativa à dos Estados Unidos, 2011 em US$.

Fonte: Moreira (2015), a partir de dados da World Input-Output Database (TIMMER, 2012).

Fonte: Moreira (2015), a partir de dados da World Input-Output Database (TIMMER, 2012).

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2 Comments

  1. Marcio Gold Firmo

    28/07/2015 at 8:36 pm

    Não entendi a afirmação: Logo, é bem provável que, por mais que possa trazer ganhos, o processo de terceirização da produção, em países como o Brasil, traga algumas perdas de eficiência.

    A comparação que permitiria tal afirmação seria terceirizar vs não terceirizar. A comparação que vejo no texto é produtividade de serviços no Brasil vs nos EUA.

    Se a empresa terceiriza os serviços com base numa otimização racional, isso teria impactos positivos sobre a produtividade da economia, ceteris paribus, não?

    Abs,

    • Olá, Márcio,

      É possível, sim, que, a despeito da ineficiência da prestadora de serviço, ainda assim seja melhor terceirizar do que produzir internamente uma atividade (porque a tercerizada é mais especializada naquela atividade, por exemplo). Isso seria uma solução de equilíbrio parcial (local).

      Porém, se a empresa produzir um bem tradable, pode ser que terceirizar, ainda que positivo do ponto de vista imediato, seja negativo do ponto de vista de competição internacional, equilíbrio geral.

      Considere que a função de produção é dada externamente e que não seja possível para uma empresa brasileira do setor X fabricar um produto de forma muito distinta que uma empresa americana no mesmo setor. Se esse for o caso, é possível que, de fato, não seja ótimo ou mesmo viável fabricar internamente. O problema é que muitos dos serviços são não-tradeables ou têm fortes barreiras de entrada. Logo, uma empresa brasileira talvez não tenha opção senão terceirizar parte de suas atividades para empresas locais pouco eficientes.

      Isso pode ser melhor do que produzir internamente (ou seja, é uma decisão racional), mas, como nossos serviços são piores do que os de outros países, é possível que parte do problema de competitividade da nossa economia seja explicado pela baixa qualidade desse setor, que está cada vez mais presente no processo produtivo de outros.

      Abraços e obrigado pelo comentário!

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