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Ensino One to One

[Este post faz parte da série “10 Tendências que afetarão o ensino superior até 2025]

As tecnologias amadurecidas e metodologias inovadoras possibilitam uma educação individualizada. Na construção do modelo, alguns dos temas em evidência são adaptive learning e t-learning, entre outros. Esse deve ser o cenário da educação superior em 2025.

Em 2025, os estudantes de cursos universitários deverão ter “professores” 100% dedicados e pacientes para acompanhar cada um deles. Disponíveis em cada minuto dos cursos que estarão fazendo. Vinte quatro horas por dia, sete dias por semana. Por “professores”, com aspas, entenda-se suporte tecnológico, em software e hardware presentes em todas as coisas.

Novos universitários serão beneficiados pelas tais tecnologias que deverão possibilitar o acesso a educação altamente individualizada. A educação personalizada deverá ser, já em 2025, integralmente aplicada aos novos conceitos de ensino superior, assim como em outros níveis.

Até 2027, os robôs substituirão os professores, segundo a previsão do britânico Anthony Seldon, especialista em educação, feita em 2017. Ou pelo menos, numa visão nossa — talvez menos radical –, irão reconfigurar completamente seu papel. Ele não foi o primeiro a notar o potencial da tecnologia para substituir os trabalhadores humanos. Se os “robôs” assumem a forma de programas de software artificialmente inteligentes (AI) ou máquinas humanóides, eles podem ser os novos professores.

As mudanças evidenciam, como diferencial, a possibilidade de os cursos começarem a qualquer momento, em qualquer mês, de acordo com o interesse do estudante. Como há grande número de atividades de ensino a distância, apenas supervisionadas por professores humanos, deixa de ser necessário um calendário baseado em semestres ou anos.

Bastarão um currículo mínimo obrigatório, mesmo assim com uma flexibilidade enorme para atender ao surgimento de profissões que ainda nem existem em 2017. Se você deseja começar um curso, faça a inscrição e pronto. Identifique professores para a função de supervisores e é isso. Siga em frente.

 

Atendimento

E como isso deve se dar na prática? Recém-aprovado no curso da área de Tecnologias de Saúde, que requer conhecimentos em ciências exatas e de saúde, na turma de março de 2025, César tem apenas um medo: matemática. Biologia ele “tira de letra”, como se dizia antigamente. Ao contrário dos números, seu grande terror.

Não devia se preocupar. Ao contrário dos seus pais, que se limitavam a seguir a rota definida por campos específicos de interesse, o estudante terá todo o apoio para superar as resistências e limitações de aprendizado e campos abertos em todas as dimensões.

César se beneficia da evolução alcançada pelas tecnologias de inteligência artificial e de aprendizado de máquina. Em 2025, ela possibilitará a maturidade de propostas dos modelos de educação baseados em “adaptive learning” e “t-learning”, entre outros exemplos. Em síntese, são propostas que estimulam a interação do estudante com os objetos de estudo.

Esses são sistemas capazes de aprender o jeito correto de lidar com a dificuldade de cada aluna. E vão ajudar não só ao César, como a qualquer colega dele. Milhões de estudantes como ele vão poder usar os recursos como a interação contínua por vídeos, recorrendo à Internet para oferecer conhecimentos.

Imagine que, em determinado momento, César esbarra em dificuldades para entender o conceito de “equações lineares homogêneas”. O sistema não só identifica onde está a resistência do estudante como cria instantaneamente um roteiro de aprendizado e apresenta filmes de apresentação de todos os conceitos e práticas.

Serão os benefícios da evolução de recursos de “adaptive learning”. Plataformas adaptativas propõem atividades diferentes para cada estudante, a partir da observação e da coleta de dados sobre sua performance, suas respostas e suas reações diante de tarefas.

O software de apoio ao estudante pode oferecer a César, portanto, um reforço sobre algum conteúdo no qual ele demonstrou dificuldade. Ou, ainda, repetir alguma questão que foi respondida corretamente após um intervalo, para garantir que o acerto não foi um golpe de sorte.

O futuro é e sempre será uma incógnita, mas a customização de tudo (incluindo a educação) é um caminho sem volta.

Brenner Lopes é Mestre em Administração com ênfase em Inteligência Competitiva e é sócio na Consultoria Nous SenseMaking.
 Carlos Teixeira é jornalista e futurista, consultor associado da Nous SenseMaking. Especialista em Comunicação Integrada, Gestão da Informação e Inteligência Estratégica.
João Lopes é consultor da Nous SenseMaking e professor, com graduação em Administração de Empresas e pós-graduação em Engenharia da Produção e Gerenciamento de Projetos.

 

Virtualização da Educação

[Este post faz parte da série “10 Tendências que afetarão o ensino superior até 2025]

[1]Nota dos autores

O cenário será marcado pela utilização massiva de tecnologias e metodologias de ensino a distância (EAD), e-learning, ensino híbrido — on e off line — blended learning, mobile learning entre outras.

Um estudante universitário de 2017 que acorde em uma universidade do ano de 2025 terá um susto ao perceber a diferença do ensino a distância atual em relação ao do futuro. Mesmo em prazo tão curto, os saltos exponenciais da evolução tecnológica asseguram que cursos virtuais terão poucas semelhanças com o que se pratica na atualidade.

Na verdade, os conteúdos e a forma oferecidos atualmente pelas escolas, mesmo no exterior, podem ser avaliados como partes da pré-história do ensino intermediado pela tecnologia. Não haverá o smartphone, o desktop, a internet lenta e o excesso de textos. O vídeo será o padrão. Não em telas, mas em qualquer suporte, seja em uma mesa, uma parede, espelho ou no chão.

A força da digitalização de tudo

Para compreender a diferença profunda entre duas realidades é necessário identificar as principais forças das transformações tecnológicas vigentes por volta de 2025. O funcionamento do mundo estará moldado pela capacidade de processamento, velocidade de tráfego de informações e poder de armazenamento da computação.

Será a internet ultra veloz, no planeta que estará mais próximo da computação quântica, propiciando força adicional à inteligência artificial. Entenda que os computadores serão praticamente invisíveis, como a eletricidade. Basta um botão — virtual — para acessar a rede em qualquer lugar, por qualquer plataforma.

Sistemas inteligentes adotados em processos de e-learning serão capazes de entender que a frase “vou chutar o balde” tem um significado diferente de “vou dar um chute em um recipiente de transportar água”. Ou seja, vai entender a linguagem natural através da qual os seres humanos se comunicam.

Máquinas que aprendem, que processam a fala, a ponto de “enganar” os interlocutores, e que reconhecem imagens já são tecnologias quase prontas. Agora, pense no seguinte: em pouco mais de sete anos, será possível acompanhar a aula de um professor em japonês ou mandarim. E trocar ideias com os seus colegas japoneses, chineses, sul-africanos em conversas animadas. Com tradução simultânea. E por voz.

Agora, a pergunta que não pode ser calada: será possível convencer o nosso estudante a sair de casa, enfrentar distâncias mesmo que em um carro confortável e totalmente automático para ter uma aula diante de um professor, no modelo atual? A resposta mais provável é que não. Parece mera questão de lógica. Estudantes vão querer experiências imersivas, mesmo em uma aula sobre filosofia de Platão, sobre literatura gótica ou matemática integral e derivadas.

É natural que se espere, para 2025, que os recursos de tecnologia educacional oferecidos aos alunos, mesmo em sala de aula, estejam todos adaptados para atender aos diferentes interesses e necessidades da comunidade de aprendizado. Adicione, então, à capacidade de processamento e à internet em todos os lugares a oferta dos sistemas de virtualização de imagens — realidades virtual (RV), aumentada (RA) e mista (RM) — e a receita para o fortalecimento do ensino a distância estará completamente definida.

Corrida pela adoção

A carência das melhores tecnologias não impede que já se tenha iniciado o movimento pela adoção das estratégias associadas ao ensino superior a distância. Nos Estados Unidos, por exemplo, universidades renomadas já aderem à modalidade de educação virtual. Em maio, a Universidade de Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) firmaram parceria para oferecer versões online de seus cursos presenciais.

As estatísticas revelam que, atualmente, 12% dos alunos de ensino superior estão na modalidade de ensino a distância. Já em 2022, estima-se que o segmento será responsável por 16% do total de matriculados. Deverão ser 1,2 milhão de pessoas, com crescimento médio anual de 3,8% até lá.

O potencial de crescimento se dá por causa da conveniência e custo mais baixo comparados aos cursos tradicionais. O avanço de tecnologias como realidade virtual, que possibilitam chats ao vivo, produção audiovisual intensa e softwares para provas e exames, por exemplo, também colabora para a disseminação desses cursos e para maior aceitação deles.

………………….

[1] Este post é o primeiro da série que detalhará as dez tendências que afetarão o Ensino Superior até 2025. Os posts são baseados no estudo “10 tendências que moldarão o ensino superior no Brasil até 2025”, produzido pela empresa de consultoria Nous SenseMaking, de qual os autores fazem parte.

Brenner Lopes é Mestre em Administração com ênfase em Inteligência Competitiva e é sócio na Consultoria Nous SenseMaking.
 Carlos Teixeira é jornalista e futurista, consultor associado da Nous SenseMaking. Especialista em Comunicação Integrada, Gestão da Informação e Inteligência Estratégica. É editor do site Radar do Futuro

 

10 tendências que moldarão o ensino superior no Brasil em 2025

O tempo pode parecer curto. São apenas mais oito anos até 2025. Uma criança com dez anos hoje será um candidato a uma vaga nas universidades de meados da próxima década. As mudanças serão grandes, para o jovem e para os seus pais. No cenário do curtíssimo prazo traçado pela influência exponencial das tecnologias e pela introdução de novos modelos de negócios, o sistema de ensino superior terá uma aparência surpreendentemente diversa da atual. Dentro e fora de sala de aula.

Grupos gigantes e globais de ensino superior, com bancos próprios para financiar o estudo dos alunos, utilização massiva de educação a distância (EaD), ensino híbrido — presencial e virtual — e novos perfis de estudantes. No cenário de influência exponencial das tecnologias e de introdução de novos modelos de negócios, estas são algumas das forças de mudanças descritas pelo estudo “Dez tendências estratégicas que moldarão o ensino superior em 2025”, produzido pela consultoria de inteligência empresarial Nous Sense-Making[1]  e coordenado pelo autor deste post.

A lista de 10 projeções é o resultado da aplicação de metodologia de identificação de visões de futuro, desenvolvida pela empresa, com base em processos de elaboração de cenários. As três etapas de produção das informações incluíram entrevistas com mais de 50 especialistas, além de envolvimento da equipe de consultores especializados, que mapearam as principais forças das mudanças para identificar as questões estratégicas que deverão estar presentes no radar de prioridades das principais instituições do mercado global de ensino.

A atualização tecnológica, reivindicada, hoje, por professores e especialistas em educação como uma necessidade prioritária, terá se consolidado nesses próximos anos nas salas de aula do ensino superior. Os universitários, integrantes da geração dos “centennials”, as primeiras turmas dos nascidos após 2010, terão crescido com um smartphone e um tablet nas mãos.

Não há como evitar as transformações e seus impactos disruptivos. Segundo o estudo, já em 2023 a graduação on-line deverá ser responsável pela formação da maioria dos estudantes. Será o resultado do fato de que a internet estará presente em todos os cantos — ubíqua, por definição.

Caso não queiram ficar para trás, organizações de ensino, pesquisadores e gestores das organizações de políticas públicas no campo da educação precisam reconhecer as hipóteses para o futuro a partir da identificação dos principais drivers que possibilitam a compreensão do ambiente de negócios do segmento. As forças das mudanças já estão ativas. As peças se movem para construir o futuro do sistema educacional.

Entre os drivers de mudanças imediatas, há a formação das “escolas-banco” pelas grandes instituições privadas de ensino. Recentemente, o grupo Kroton fez parceria com um banco para financiar estudantes. A rede de universidades é, hoje, um dos principais players do ensino no Brasil, com vínculos globais. E o Banco Votorantin entrou no mercado de crédito estudantil com uma nova unidade especializada. São estratégias que deverão se intensificar nos próximos anos, como um efeito da redução drástica do financiamento público e um possível esvaziamento da rede pública de universidades federais.

Outra tendência clara é a concentração de mercado. A tentativa do grupo Kroton de comprar o controle da Estácio, abortada pelo Conselho Administrativo de Ordem Econômica (Cade), é um indicador claro da estrutura em formação no mercado. A união das duas redes privadas de ensino reuniria 1,5 milhão de alunos e a criação de uma rede detentora de 23% do mercado. Pequenas redes de ensino identificam, diante de tal abordagem, riscos enormes, contra os quais dificilmente conseguirão resistir nos próximos anos.

Abaixo listamos as 10 principais tendências que, de acordo com o estudo, moldarão o ensino superior em 2025:

  1. Educação virtualizada
  2. Educação one-to-one
  3.  Wazeirização
  4. Ensino baseado em projetos
  5. Novos mestres
  6. Novas habilidades, novos desafios
  7. Mercado de gigantes
  8. Desafio do foco-atenção
  9. Ensino em rede
  10. Escolas-banco

Para um aprofundamento das temáticas resultantes do estudo, publicaremos posts onde discutiremos cada uma das dez tendências identificadas pelo nosso estudo.

[1]Nota do blog: o autor do texto é sócio da empresa citada.

Por uma política nacional voltada para o desenvolvimento de capacidades

Por Adilson Giovanini, Janaína Führ e Marcelo Arend

Schumpeter (1939) mostra que o surgimento de novas combinações resulta na obtenção de lucros extraordinários. Elas retiram a economia do fluxo circular, fazendo-a crescer. Em adição, Perez e Soete (1988, p. 498) argumentam que o modo como as tecnologias evoluem e se difundem pode explicar grande montante das diferenças estruturais observadas entre os países. De forma mais rigorosa, pode-se afirmar que a capacidade de crescimento destes está diretamente ligada à sua capacidade de inovação. Novas combinações, por sua vez, dependem do conjunto de conhecimentos abarcados e sobre os quais os trabalhadores de cada país possuem domínio.

Para a literatura de inovação é clara a relação íntima existente entre o desenvolvimento de inovações e a ocorrência de mudanças estruturais nos países. A ocorrência de mudanças estruturais se deve, em grande monta, ao desenvolvimento de novas tecnologias que emergem na forma de paradigmas tecnológicos (DOSI, 1982). Ademais, a forma como cada paradigma tecnológico surge e se propaga para as demais economias explica a capacidade de realização de catching up dos países e a forma como estes se desenvolvem (PEREZ; SOETE, 1988, p. 498).

Conforme demostrado pela literatura de inovação, o desenvolvimento de novas tecnologias exige o surgimento de novas competências produtivas. Estas são particularmente relacionadas ao surgimento de funções inovadoras. O avanço tecnológico tende a ser cumulativo, favorecendo habilidades específicas.

Neste contexto, o crescimento das tecnologias digitais observado nas últimas décadas exigiu e continuará exigindo o desenvolvimento de novas capacidades entre os trabalhadores. Estas tecnologias provocaram perturbações no mercado de trabalho, que resultaram na necessidade de reestruturação profunda do sistema econômico. Como resultado, surgiu demanda crescente por profissionais com competências até então não demandadas (OCDE, 2012).

Atualmente, o setor de tecnologias da informação e comunicação (TIC) se encontra no meio de uma fase de crescimento e inovação. Este inclui a adoção de diversas tecnologias emergentes, entre as quais se destacam a computação em nuvem; o uso de dispositivos móveis; a análise de “Big Data”; a segurança em TI; a micro e a nano eletrônica; e a adoção de tecnologias sociais em ambientes pessoais e empresariais.

A difusão das tecnologias para novas áreas como software para impressão em protótipos 3D; sistemas “inteligentes” de energia, infraestrutura e transporte, fabricação de novos semicondutores energeticamente eficientes; gerenciamento de dados e serviços de cloud computing deve impulsionar a demanda por novas capacidades entre os trabalhadores.

Nos próximos anos a continuidade do processo de difusão das novas tecnologias de comunicação propiciará a disseminação de todo um novo conjunto de inovações. Conforme enfatizado por estudo da Deloitte (2014), diversas tecnologias estão transformando consideravelmente a indústria e o modo como esta se relaciona com o setor de serviços. Entre estas se destacam robôs inteligentes; drones autônomos; sensores, nanotecnologias e impressoras 3D. A adoção destas novas tecnologias resultará em modificações profundas na indústria.

O termo “indústria 4.0” é utilizado para definir este novo estágio do desenvolvimento industrial, que não se restringe apenas à indústria, englobando a gestão e organização de toda a cadeia de valor. Outros termos utilizados para definir este novo estágio são “internet das coisas” (internet of things), “internet de tudo” (internet of everything) e internet industrial (industrial internet). Eles são utilizados para mostrar que a fabricação industrial está passando por uma transformação digital.

Como resultado da emergência destas tecnologias, os setores que requerem maior quantidade de profissionais com conhecimento em TIC são setores de serviços: TIC, finanças/seguros e serviços profissionais. Ademais, gestores, técnicos e trabalhadores de apoio de escritório necessitam de montante mais elevado de conhecimentos em TIC do que outros grupos ocupacionais.

A demanda por profissionais ocorre, principalmente, nas áreas de programação de software; engenharia e integração; e operações de negócios. A demanda por cientistas de dados que podem extrair informações úteis de grandes conjuntos de dados também é crescente, assim como a demanda por profissionais capazes de desenvolver aplicativos móveis. Esta atividade se encontra entre as que apresentam taxas mais elevadas de crescimento e onde se escondem mais oportunidades. Ela surgiu em 2008 e, e se expande rapidamente (OCDE, 2013).

Paralelo a isto, a Application Developers Alliance mostra quais são as habilidades mais demandadas entre os profissionais que atuam em atividades relacionadas a estas novas tecnologias. Ou seja, quais as habilidades que os países precisam disseminar entre os seus trabalhadores para conseguirem ser competitivos na era digital.

Via de regra, os países desenvolvidos estão adotando políticas para tentar internalizar estas atividades. Em seu artigo Computer programming and coding in schools – an emerging trend, o School Education Gateway mostra que, em 2014, matérias de programação  e codificação já faziam parte do currículo escolar de 12 países europeus (Bulgária, Chipre, República Checa, Dinamarca, Estônia, Grécia, Irlanda, Itália, Lituânia, Polônia, Portugal e Reino Unido). Ademais, outros sete países deste continente também pretendiam integrar o tema em seus currículos no futuro.

Apesar de estar sendo amplamente explorada pelos países desenvolvidos, a janela de oportunidades introduzida pela emergência destas novas tecnologias ainda se encontra aberta. Existem amplos espaços para inserção dos países em desenvolvimento. A adoção de políticas de desenvolvimento das capacidades demandadas por estas novas tecnologias se coloca como condição sine qua non para que estes países consigam ingressar no atual paradigma tecnológico e aumentar a sua participação no comércio global de bens e principalmente de serviços relacionados a estas novas tecnologias.

Kearney (2011) e Stephenson (2012) mostram que a emergência das novas tecnologias de comunicação está resultando em comércio crescente de serviços e gerando novas oportunidades em países que apresentam menor nível de renda. Segundo os autores, nove países latino-americanos são competitivos internacionalmente na produção de serviços offshore: México, Chile, Brasil, Costa Rica, Argentina, Jamaica, Panamá, Uruguai e Colômbia.

Uma das grandes limitações enfrentadas por estes países se refere à ausência das capacidades necessárias entre os trabalhadores. Contudo, a melhoria nos sistemas de comunicação e os menores custos (salários mais baixos) indicam que a adoção de políticas de desenvolvimento das capacidades demandadas, se corretamente adotada, pode resultar em crescimento significativo da participação destes países no comércio internacional de serviços.

Dada esta contextualização, surge a seguinte pergunta: quais são as medidas que o Brasil está efetivamente adotando para ingressar neste novo cenário marcado pela crescente digitalização das economias? Ele está adotando postura proativa e incentivando a aquisição das capacidades demandadas ou está perdendo esta oportunidade?

Infelizmente quando comparado a outros países poucas são as iniciativas, adotadas em território nacional, voltadas para o desenvolvimento das capacidades necessárias entre os trabalhadores. Tome-se como exemplo o Plano Ceibal (Conectividade Educativa de Informática Básica para o Aprendizado Online), iniciativa adotada pelo Uruguai que garante um notebook para cada aluno e que fornece aulas de programação, robótica e edição de vídeos.

Argumenta-se que, em parte, a crise atual enfrentada pelo país deriva da falta de iniciativas voltadas para a disseminação das técnicas produtivas associadas a estas novas tecnologias, o que explica os baixos níveis de integração digital do Brasil e a sua dificuldade em manter a sua indústria competitiva.

Apesar destas limitações, observadas na política econômica implementada em nível nacional, o objetivo deste post é deixar uma mensagem positiva. A crise na qual o país se encontra não é marcada pela falta de alternativas. O incentivo à formação de profissionais com as capacidades demandadas pelo atual paradigma em emergência se coloca como caminho a ser trilhado para o desenvolvimento tecnológico e econômico do país. Esta política, se corretamente conduzida, pode fazer com que o país volte a observar o crescimento da sua produtividade, retirando-nos da grave crise na qual nos encontramos atualmente.

 

REFERÊNCIAS

DELLOITE Making an impact that matters: 2014 Global Report.

Developer Insights Report: A Global Survey of Today’s Developers.

DOSI, Giovanni. Technological paradigms and technological trajectories. Research Policy, v. 11, p. 147–162, 1982.

KEARNEY, A. T. The A.T. Kearney Global Services Location IndexTM.  Offshoring Opportunities Amid Economic Turbulence. 2011.

OCDE. OECD Economic Outlook, Vol. 2013/1. OECD Publishing. 2013.

OCDE. OECD Skills, Better Jobs, Better Lives A Strategic Approach to Skills Policies. 2012.

PÉREZ, C. and L. Soete (1988): Catching up in technology: Entry barriers and windows of opportunity, in G. Dosi and others (ed.),  Technical Change and Economic Theory , London, Pinter Publishers.

STEPHENSON, SHERRY. Emergence of services, global value chains (GVC) and resulting implications for Latin America. II Inter-American Dialogue Of High-Level MSMEs Authorities Public Policies to Enhance the Competitiveness, Innovation and Internationalization of MSMEs New Orleans, September 10-11, 2012.

SCHUMPETER, Joseph Alois. Business cycles. New York: McGraw-Hill, 1939.

Um Panorama da Educação Superior no Brasil

Conforme apontado em post recente, a modificação no mercado de trabalho advinda do progresso tecnológico e da automação está se expandindo ao setor de serviços, requerendo profissionais ainda mais especializados e eficientes. Nesse cenário, educação é um assunto crítico para que as economias tenham condições de caminhar em direção ao desenvolvimento. Também já apontamos os atrasos da educação básica no Brasil, impondo obstáculos para a inovação. Em linha com essa análise, estudar o desempenho da educação superior brasileira também é um aspecto relevante para entender como esse nível educacional contribui para o aumento da competitividade do país.

Em termos globais, o Brasil apresentou significativo aumento dos gastos públicos com educação desde 2000, compondo atualmente 19% do total dos gastos do governo, acima da média dos países da OCDE cuja fração é de 13%. Há, no entanto, disparidades nesses gastos. No Brasil, o gasto público por aluno do ensino superior é quatro vezes maior do que o gasto por aluno do ensino fundamental, maior disparidade entre os países da OCDE e parceiros.

Chama a atenção também a comparação com estes países quanto ao percentual de pessoas com formação superior entre os 25 e 64 anos (ver gráfico 1), em que o Brasil se posiciona abaixo da média e com baixa presença de mestres e doutores.

Gráfico 1 – Percentagem de pessoas entre 25 e 64 com educação superior, por nível de educação superior (2005)

Fonte: OCDE – EAG 2014

Os dados do Censo da Educação Superior de 2015 foram divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, trazendo informações relevantes sobre a forma como a educação de nível superior se organiza e se desenvolve no país. As instituições de ensino superior (IES) brasileiras englobam universidades, centros universitários, faculdades e ensino técnico (Institutos Federais e Cefets)[1], categorizadas em relação à sua administração (privada ou pública). Nota-se que, no conjunto de IESs, o número de instituições privadas supera largamente as públicas, compondo 87,5% do total. Já quando se trata apenas das universidades, 54,9% são públicas, e elas respondem pela maioria das matrículas de graduação.

Gráfico 2 – Percentual de Instituições de Educação Superior por categoria administrativa

Fonte: INEP – Censo da Educação Superior 2015

O número de matrículas em cursos de graduação vem crescendo em todos os anos desde 2005. Na rede pública, o aumento no número de vagas nos últimos anos se deve, principalmente, ao programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Porém, a rede particular é, atualmente, a que mais recebe alunos de graduação – em 2015, respondeu por 75% das matrículas em cursos de graduação. O crescimento no número de matrículas na rede de ensino superior particular se deu principalmente pelo surgimento e o aumento de programas de financiamento subsidiado e bolsas para alunos de baixa renda, como o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e o Prouni (Programa Universidade para Todos).

Gráfico 3 – Matrículas em cursos de graduação por categoria administrativa (1980-2015)

Fonte: INEP – Censo da Educação Superior 2015

Referente às grandes áreas de formação, a maior parte das matrículas se concentra em Ciências sociais, negócios e direito, seguida de Educação. Apesar da média nos países da OCDE ser mais distribuída entre as grandes áreas, nota-se que não é tão grande a dissonância no percentual de alunos que optam por Engenharia, produção e construção e Ciências, matemática e computação. Quando se observa o número de concluintes (Tabela 1), no entanto, fica clara a discrepância. Considerando-se aqui um período médio de cinco anos para que um aluno se forme na graduação, o Brasil forma menos da metade dos alunos que optam por estas duas grandes áreas. A Tabela 1 também permite observar o crescimento no número de matrículas em todas as áreas de 2010 a 2015.

Tabela 1 – Número de Ingressos e Concluintes em cursos de graduação por 10.000 habitantes, segundo a área geral do Curso Países da OCDE 2014 em comparação com o Brasil 2010-2015

Fonte: INEP – Censo da Educação Superior 2015. Grifos nossos.

Estes dados são preocupantes quando consideramos que as áreas de Engenharia, produção e construção e Ciências, matemática e computação são aquelas com formação de capital humano mais capacitado para a inovação, já que atuam mais diretamente com produção tecnológica e desenvolvimento de patentes. A inovação tem o poder de impactar positivamente a capacidade de um país em absorver tecnologias e desenvolver suas próprias, o que impulsiona seu o crescimento e desenvolvimento.

Em nível de pós-graduação, o Brasil titulou 50.206 mestres e 16.729 doutores em 2014, apresentando um crescimento linear do número de titulados de 1996 até hoje. Destes, menos de 20% obtiveram o título por instituições particulares. É interessante frisar que estes acadêmicos permanecem concentrados principalmente nas grandes áreas de ciências humanas e saúde, tendo havido inclusive declínio nas engenharias.

Nas instituições de ensino superior, a parcela de professores com mestrado e doutorado também vem crescendo. Assinala-se que a rede pública é composta principalmente de professores doutores, enquanto a particular tem maioria de mestres, o que indica que a produção acadêmica pode estar concentrada nas instituições públicas.

Gráfico 4 – Proporção de docentes da educação superior pública e privada de graduação por grau de formação (2005-2015)

Fonte: INEP – Censo da Educação Superior 2015

A qualidade da educação superior, seja pública ou privada, é responsável pela produção científica e acadêmica de um país, podendo mudar sua posição em nível global de um simples assimilador de inovações estrangeiras para o pioneirismo. Na economia de serviços do século XXI, uma educação ampla e de qualidade é condição necessária (mas não suficiente) para um país ser competitivo. A análise da educação brasileira, aqui focalizada no nível terciário, evidencia que temos problemas estruturais a serem superados indo muito além da simples falta de recursos. Sem superar esses desafios, nos manteremos pouco competitivos globalmente.

[1] Universidades são instituições pluridisciplinares, com produção intelectual institucionalizada e requisitos mínimos de titulação acadêmica e carga de trabalho do corpo docente. Os centros universitários são semelhantes às universidades, porém não estão definidos na Lei de Diretrizes e Bases e não necessitam de pesquisa institucionalizada, enquanto as faculdades são instituições que não apresentam autonomia para conferir títulos e diplomas. Por fim, o ensino técnico apresenta caráter mais simplificado, com vistas à atuação no mercado de trabalho (Fonte: Divisão de Temas Educacionais – MRE).

nathaliaNatália Sarellas é formada em administração pela Universidade de Brasília. Contribui para o Boletim de Serviços e tem artigos científicos publicados na área de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e setor bancário e participa de grupo de pesquisa em inovação.

 

O Ensino a Distância pode melhorar o desempenho educacional do país?

Em um post anterior, Tiago Xavier abordou a relação entre o setor de tecnologia da informação e comunicação e o desenvolvimento econômico. E quanto à educação? É possível utilizar tecnologias de informação para melhorar o desempenho educacional do país? A resposta parece ser positiva, e um dos caminhos para obter essa melhoria é a modalidade de educação a distância (EaD).

Para as empresas que adotam a EaD, para os estudantes e também para os educadores, essa modalidade apresenta diversos benefícios, como, por exemplo, a flexibilidade nos horários das aulas, a autonomia para os estudos, e a redução dos custos com deslocamento. O Canadá foi o pioneiro na educação a distância e hoje é membro global do Conselho Internacional de Educação Aberta e a Distância. Das 56 universidades canadenses existentes, 53 oferecem cursos a distância.

No Brasil, a EaD permitiu a ampliação no número de alunos que podem obter o nível superior sem que estes necessariamente precisem abrir mão de outras atividades que os impedem de comparecer às aulas presenciais, dada a possibilidade de adaptar as aulas aos seus horários disponíveis. Além disso, essa modalidade permite que estudantes tenham aulas com professores qualificados, em qualquer lugar do mundo, sem a necessidade de deslocamento. As empresas que adotam a EaD também economizam, visto que não há a necessidade de um espaço físico com estrutura para aulas presenciais.

Apesar dos benefícios, o ensino a distância traz alguns desafios. De acordo com o Censo realizado pela Associação Brasileira de Ensino a Distância, a evasão é o maior obstáculo enfrentado por instituições que oferecem cursos remotos, seguida da resistência dos educadores quanto à modalidade de EaD. Portanto, por parte das instituições de ensino, presar pela motivação dos alunos e contratar professores qualificados e atenciosos é condição essencial para o sucesso de cursos desse tipo.

Assim, os investimentos em EaD devem ser realizados com cuidado. É necessário que haja um contínuo monitoramento das atividades. Universidades como Harvard e MIT estão estudando como o big-data pode melhorar a atuação de seus professores em cursos online.

Presente em diversas áreas do conhecimento (ver Gráfico 1), o ensino a distância ainda recebe relativamente pouco investimento público. A maior parte dos investimentos realizados nessa área são privados e isso parece gerar disparidades regionais (ver Censo EaD 2014). No Brasil, 41% das instituições que oferecem cursos EaD estão no Sudeste; 25%, na Região Sul; 15%, no Nordeste; e 10%, no Distrito Federal. A menor quantidade de instituições encontra-se nas regiões Norte e Centro-Oeste (excluindo-se o DF), que, juntas, somam 9% do total.

O caso da EaD é apenas um exemplo de como uma economia globalizada e com trocas de informações e serviços pode melhorar e promover o crescimento de alguns setores. Economias que possuem excesso de mão de obra qualificada, ou aquelas que conseguem desenvolver melhores pesquisas em determinadas áreas, podem auxiliar os países menos desenvolvidos nessas áreas. Nesse contexto, a profusão de cursos online abertos do tipo MOOCS (Massive open online course), bem como a iniciativa MIT OpenCourseWare (que disponibiliza online o conteúdo dos cursos do MIT), são interessantes exemplos.

Gráfico 1. Percentual de cursos regulamentados e totalmente a distância: ofertados em 2014, por área do conhecimento

Senza titolo

Fonte: Censo da Associação Brasileira de Ensino a Distância (2014/2015)

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