Economia de Serviços

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Author: Renan Abrantes de Sousa

O Milagre Econômico da E-stônia

O ano é 1991.  Gorbachev anuncia a dissolução da União Soviética, reconhecendo a independência de diversas repúblicas que pertenciam à antiga União. O anúncio foi recebido festivamente, principalmente pelo menor desses estados, a Estônia, que usufruía de independência pela segunda vez na sua história; a primeira durara apenas vinte e dois anos, no período entre-guerras. O longo histórico de ocupação territorial obrigava os estonianos a se fortalecerem politicamente e economicamente para se afirmarem como estado independente

A liberdade, entretanto, não garantiu prosperidade. Pelo contrário, a quebra da estrutura econômica e das conexões comerciais com sua antiga matriz gerou dificuldades imediatas. Em 1992, o pequeno estado báltico sofreu uma queda de 30% na produção industrial e de 45% nos salários reais, além de apresentar taxa de inflação que superava 1000%. A economia não conseguia se estabilizar, ocasionando um declínio acumulado de 36% no PIB estoniano entre 1990 e 1994.

No meio do caos, há sempre uma oportunidade. O corte dos laços com a antiga estrutura econômica e política produziu grandes dificuldades para a Estônia, mas também configurou uma janela de oportunidade para que o país se reconstruísse a partir do zero. As reformas de estabilização macroeconômica aplicadas na década de 1990 abriram o caminho para políticas de inovação, de abertura econômica, de inclusão digital e de governança.

O processo de inclusão digital merece especial atenção. Em 2000, a Estônia se tornou o primeiro país a declarar o acesso à Internet um direito humano básico, mesmo ano em que ratificou lei reconhecendo assinaturas digitais. Os estonianos também foram os primeiros a permitir votação on-line em eleições, em 2005. Já em 2012, o sistema escolar do país começou a ensinar programação aos seus alunos. Reivindica-se que 99% dos serviços públicos migraram para plataformas digitais, funcionando 24 horas por dia.

A confluência de políticas favoráveis à digitalização e à abertura de negócios rendeu resultados, principalmente ao setor de serviços. Inúmeras startups de tecnologia emergiram da capital Tallinn nas  décadas recentes, dentre eles os famosos Skype e Kazaa. Robôs que realizam entregas (Starship Technologies) e plataformas que angariam capital para startups utilizando blockchain (FunderBeam) estão entre as novas soluções que essas empresas oferecem.

Pode-se afirmar que esse pequeno estado báltico, hoje pertencente à Zona do Euro, escapou da armadilha da renda média. O processo de desindustrialização ocorrido desde a independência foi acompanhado da ascensão de uma ampla gama de serviços profissionais e comerciais (PBS), como exemplificado acima, e, por conseguinte, do crescimento da densidade industrial. Lastreada em conexões industriais, a parcela de PBS no PIB somou 25% em 2014, valor similar ao da Dinamarca. As Figuras 1 e 2 explicitam a trajetória que o país tomou no espaço-indústria (clique aqui para saber mais sobre esse conceito), entre 2000 e 2014. O México, país que possuía densidade industrial similar à Estônia no começo desse período, percorreu outro caminho.

Atualmente, a Estônia tem PIB (PPP) per capita superior a US$27.000 e é a mais próspera das ex-repúblicas soviéticas. O país aproveitou a janela de oportunidade que surgiu e garantiu a sua passagem para o desenvolvimento.

Em momento de crise e discussão de políticas públicas no Brasil, pode-se aprender muito com o experimento estoniano, com a ressalva de que desenvolvimento não se faz como receita de cozinha. Talvez não tenhamos os ingredientes para reproduzir a legítima pirukas estoniana, mas nada impede que as nossas ideias e reflexões possam ser inspiradas pelos eestlased.

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A Armadilha da Renda Média no Espaço-Indústria

A armadilha da renda média é um fenômeno que foi cunhado na literatura econômica em meados da década de 2000. Inicialmente, o termo foi utilizado para definir o processo comumente observado de diminuição do crescimento de uma economia quando esta se desloca da renda baixa para a média. Nesse processo, os fatores que geralmente impulsionam o crescimento – mão-de-obra barata, catch-up tecnológico e realocação estrutural da agricultura para a manufatura – perdem momentum, ao longo do desenvolvimento econômico, forçando o país a estabelecer novas fontes de crescimento quando a economia atinge a renda média.

Desde que fora sugerido, o termo ganhou tração no mundo acadêmico e na imprensa internacional, porém sem haver consenso sobre sua validade. O apelo e a controvérsia desse fenômeno devem-se à ausência de uma teoria que satisfatoriamente aponte políticas de desenvolvimento para economias de renda média. As teorias de crescimento endógeno são adequadas apenas para países de renda alta – que somam um bilhão de pessoas – e o modelo de Solow ainda é a base para entender o problema do crescimento nos países de baixa renda – também com um bilhão de pessoas. Nenhuma dessas teorias é satisfatória, entretanto, para os cinco bilhões remanescentes, que vivem em economias de renda média. Ironicamente, como os próprios precursores do termo afirmam, a real armadilha do tema seria a ignorância sobre a natureza do crescimento econômico na maior parte do globo.

Pensar a armadilha da renda média sob a ótica do espaço-indústria pode lançar luz sobre a questão.

A variável de interesse do espaço-indústria é a densidade industrial, ou seja, o valor adicionado da indústria per capita. Essa variável captura a capacidade de uma sociedade de investir em capital físico e humano, garantir as necessidades de infraestrutura e P&D, reformar instituições e gerenciar esses recursos para fomentar o desenvolvimento industrial, espelhando, enfim, o nível de desenvolvimento de uma economia.

Os países iniciam suas jornadas de desenvolvimento industrial na região R1 da Figura 1, abaixo. Nessa região, a economia ainda é essencialmente rural, com baixas taxas de urbanização e alta participação da agricultura no PIB. À medida que o fenômeno de urbanização ocorre, cresce a demanda por produtos industriais básicos. A região R2 caracteriza, portanto, a fase de desenvolvimento em que a indústria de base, manufaturas de baixo valor adicionado e serviços tradicionais substituem a agricultura como principal vetor de produção da economia.

Ocorre que a expansão das indústrias básicas e leves é ditada por retornos decrescentes provenientes do processo de crescimento baseado em acumulação de capital. Ao mesmo tempo em que esse processo possibilita a transformação da economia de renda baixa para a média, sua contribuição marginal para o PIB esvai-se ao longo do processo de expansão industrial. Atinge-se um ponto de inflexão no espaço-indústria no qual o simples aumento da parcela da indústria no PIB não é capaz de ampliar a densidade industrial. Nesse momento, é comum registrar economias que começam processo de desindustrialização.

Para seguir se desenvolvendo, o país deve diversificar-se em favor de bens e serviços mais sofisticados. Ao invés de majoritariamente transformar insumos, a indústria deve passar a demandar serviços logísticos, financeiros, projetos de engenharia, marketing, e diversas outras atividades de apoio. A armadilha da renda média recai justamente na dificuldade em alterar a função da indústria na economia, que deverá se transformar não só no principal conector entre os setores econômicos, mas também em catalizador de serviços de alto valor adicionado.

Se a economia obtiver sucesso ao produzir essa nova dinâmica do desenvolvimento industrial, a armadilha da renda média será superada, alcançando-se as regiões R3-R4. Nesse momento, a indústria ainda desempenha função central na economia, mas o setor deixa de ser o principal gerador direto de valor adicionado, dando lugar aos serviços profissionais e comerciais. É comum haver redução da participação relativa da indústria no PIB, apesar do rápido crescimento da densidade industrial. Consolida-se uma relação simbiótica entre indústria e serviços, típica de modelos de crescimento endógeno, gerando bens que não seriam propriamente categorizados em nenhum desses setores.

Como mostra a Figura 2, Brasil, China e Estados Unidos são casos representativos das regiões de desenvolvimento industrial mencionadas acima. Nos últimos anos (2000-2014), nossa economia não superou a armadilha da renda média e está retornando da R2 para a R1. A indústria brasileira não conseguiu abraçar a função de catalizadora de serviços complexos no seu processo de desindustrialização, minando o crescimento da densidade industrial. Resta-nos imaginar maneiras de realizar um leapfrogging em uma próxima janela de oportunidade.

A potência asiática, situada na R2, aumentou a importância dos serviços profissionais e comerciais na sua economia, com ligeira desindustrialização, o que permitiu aumento vertiginoso da densidade. Entretanto, a China ainda terá de superar muitos desafios para completar seu processo de desenvolvimento. Os Estados Unidos seguem na R4 e são o melhor exemplo da relação simbiótica entre indústria e serviços, liderados por suas superestrelas. O país possui as sete empresas mais valiosas do mundo, sendo cinco delas pertencentes ao setor tecnológico: Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon.

O desafio do desenvolvimento para economias de renda média não é trivial. Faltam a nós, economistas, ferramentas para compreender melhor a natureza do crescimento econômico nesse estágio de desenvolvimento. Refletir esse fenômeno sob a ótica do espaço-indústria não representará uma panaceia, mas poderá esclarecer alguns pontos que escapam à vista e, quem sabe, impedir que essa armadilha seja fatal.

Globalização Financeira e Überfremdung – O que a história pode nos contar?

O controverso meme Pepe The Frog: um dos símbolos do atual sentimento antiglobalização.

Situada entre meados do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, a primeira era da globalização financeira foi marcada por um crescimento sem precedente dos fluxos internacionais de capital. À época, os escassos controles sobre a entrada de capital estrangeiro eram exercidos com a finalidade de limitar a influência estrangeira sobre empresas e setores relevantes da economia de maneira a evitar submissão aos países exportadores de capital. Por exemplo, em 1909, a Alemanha estabeleceu limites ao controle das minas de carvão por estrangeiros.

O reestabelecimento dos fluxos de capital após a Primeira Guerra Mundial levou o mesmo país a cunhar o termo überfremdung, que significa “superestrangeirização”, para traduzir as preocupações sobre uma entrada excessiva de capital estrangeiro na década de 1920. Essas preocupações se solidificariam com a crise alemã do início dos anos 1930 e o seu alastramento ao continente europeu, relegando os fluxos de capital ao papel de desestabilizadores econômicos. O que sucedeu, nos países avançados, foi uma escalada de controles de capital (e protecionismo comercial) que só começaria a ser substancialmente revertida na década de 1970.

O abandono do padrão dólar-ouro, a crescente internacionalização da atividade comercial, o desejo europeu de integração regional e o advento de teorias econômicas liberais contribuíram para que os controles de capital nas economias avançadas fossem retirados gradualmente. No começo da década de 2000, tornaram-se basicamente inexistentes, assim como na primeira era da globalização financeira. Da mesma maneira, os membros da OCDE retiraram a maioria das restrições ao investimento estrangeiro direto (IED), uma forma específica de controle de capital. A überfremdung se perderia do domínio da linguagem econômica para adquirir significado em outras temáticas, como imigração e xenofobia. Entretanto, desdobramentos recentes apontam que a expressão alemã poderá renascer no contexto da globalização financeira.

Lançado em 2015, o plano decenal Made in China 2025 procura subir um degrau e colocar o país na vanguarda da Indústria 4.0. Em 2016, as aquisições de empresas estrangeiras, um dos instrumentos para atingir o objetivo chinês, somaram aproximadamente US$56 bilhões na União Europeia e nos Estados Unidos e estão sofrendo crescente resistência política nessas economias. Um caso emblemático é a compra da produtora de chips alemã Aixtron pela chinesa Fujian, que recebeu o veto presidencial americano no mês passado – o terceiro na história do país –, alegadamente por questões de segurança nacional.

Historicamente, restrições ao IED se concentraram em setores ligados à segurança nacional e geralmente oligopolizados, como transporte e energia. Entretanto, assegurar a integridade nacional pode, aparentemente, se tornar indissociável de impedir a estrangeirização de ativos em setores estratégicos da economia. A transferência de nacionalidade do ativo é ainda mais dificultada se a natureza da cooperação econômica externa do país investidor estiver em cheque. Sendo o carvão insumo essencial para o desenvolvimento da indústria alemã no começo do século XX, entende-se, assim, a imposição pelo país de limites ao controle de suas minas por estrangeiros. Ademais, a medida visava conter a influência da então rival política e econômica, a França.

O carvão não possui hoje o mesmo papel na geração de riqueza que tinha um século atrás: o combustível de uma economia avançada passou a ser a combinação virtuosa entre indústria e serviços, fornecendo produtos especializados, de alto valor agregado. O desafio para a transição econômica chinesa não reside, portanto, apenas em balancear a economia a favor do consumo, mas, também, em alterar a estrutura econômica para elevar a densidade industrial e fortalecer a geração de serviços de valor. Se, por um lado, a aquisição de empresas estrangeiras de alta tecnologia é considerada fundamental à transição chinesa, por outro, pode afetar a estrutura econômica e arriscar a competitividade de alguns países avançados, suscitando questionamentos quanto à conveniência da operação.

A alegada concorrência desleal chinesa, haja vista o forte envolvimento estatal na política industrial e a assimetria na abertura ao IED, fortalece ainda mais a argumentação a favor de restrições às aquisições estrangeiras, que vem ganhando ímpeto no alto escalão político das economias avançadas. O ministro da economia alemão, Sigmar Gabriel, e a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, se declararam favoráveis à reintrodução de controles de capital ao se defrontarem com um arcabouço regulatório que, após décadas de liberalização financeira, dificulta exercer escrutínio sobre a aquisição de empresas por estrangeiros. Entretanto, os recentes desdobramentos permitem apenas conjecturar se o veto de Barack Obama marcará o ressurgimento dos controles ao investimento estrangeiro.

A intensificação da integração internacional econômica nas últimas cinco décadas, que tem como um dos pilares a liberalização das transações financeiras, é apontada como uma das razões para o recente fortalecimento do próprio sentimento antiglobalização. O apoio popular ao protecionismo nos países avançados já foi internalizado nas campanhas políticas e poderá ser institucionalizado futuramente. Ainda que cautelosamente, é inevitável comparar o atual momento à Grande Depressão, cujo desfecho impediu a manutenção da ordem financeira internacional liberal precedente. Somando-se ao contexto atual o inerente embate entre as economias avançadas e a China, fica a interrogação: estaria a überfremdung lentamente retornando à linguagem econômica?

Renan Abrantes de Sousa é mestrando em Economia na UnB e analista no Banco Central do Brasil.

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