O crescimento econômico do último século está intrinsecamente associado à extração de recursos naturais. Todavia, os impactos ambientais da produção industrial, o crescimento populacional  e a demanda cada vez maior por bens e serviços levantam questões importantes sobre os limites desse modelo linear de produção, que pode ser resumido como “extrair, transformar, consumir e descartar”. Entre as diversas abordagens que tentam dissociar o crescimento econômico da restrição de recursos naturais está a economia circular, cujo objetivo é maximizar o valor e a utilidade de produtos, componentes e materiais, com o próprio fim do conceito de resíduo.

circular economy

Fonte: Mckinsey

Análise feita pela Mckinsey estima que o crescimento da economia circular poderia gerar uma economia de materiais da ordem de US$ 1 trilhão até 2025, com capacidade de geração de mais de 100 mil empregos nos próximos cinco anos. Alia-se a isso uma ampla gama de serviços com grande potencial de desenvolvimento, como o design de produtos, eficiência energética, logística reversa, remanufacturing e manejo de resíduos (sólidos e químicos). O eco-design, por exemplo, busca inovações para reduzir a poluição gerada na produção dos bens e minimizar seus impactos ambientais. Esses objetivos podem ser atingidos pela diminuição na quantidade de materiais (dematerialização) e de energia (análise de ciclo de vida do produto) utilizados na fabricação dos produtos e pela simplificação do processo de reciclagem.

Destacam-se aqui os modelos de negócios que buscam sair da tradicional produção de bens para o provimento de serviços para atender tanto às demandas da indústria quanto às dos consumidores. O bem-serviço permanece o tempo todo como “propriedade” do provedor, com quem também fica a responsabilidade sobre o pós-uso. Isso significaria um maior incentivo para produção de bens de forma mais eficiente e com maior durabilidade, com impacto também sobre a quantidade final de bens produzidos pela empresa. A economia do compartilhamento poderia, assim, ser vista também pela perspectiva da economia circular.

Diversas iniciativas utilizam avançam nesse modelo: a Philips, por exemplo, já fornece iluminação como um serviço para cidades como Madri, Buenos Aires e Cingapura. No caso da General Motors, por meio do leasing químico, a empresa passou a alugar os solventes usados para a limpeza de componentes metálicos.  A empresa egípcia Badawi Chemical Works, além de prover o leasing de solventes à GM, supervisiona a sua utilização e recolhe o produto ao final do processo. Empresas como Coca-Cola e Calsberg e Winsdor Atlandida Hotel, no Brasil, tem iniciativas semelhantes.

De modo geral, entre os benefícios para as empresas estão uma facilidade em inovar, pela maior proximidade com o cliente; o acesso a serviços mais customizados; o aumento de eficiência no uso do produto-serviço e menor geração de resíduos. As empresas conseguem ainda estabelecer um relacionamento mais forte e de mais longo prazo com seus clientes.  Além disso, como o bem é de propriedade do fabricante, as empresas prestadoras de serviços teriam maior incentivo à produção de bens que facilitem sua reciclagem.

Como discutido anteriormente pelo blog, modelos de negócios baseados em serviços dependem de uma mudança cultural que viabilize o uso de serviços em detrimento da posse dos bens. Os efeitos positivos da adoção de um modelo circular referem-se à redução na exploração de recursos naturais e ao desenvolvimento de um setor de serviços de maior valor agregado. Entende-se, no entanto, que há um longo caminho a ser percorrido até esse modelo ser mais utilizado, já que isso exigirá uma disrupção tanto na forma de produzir, quanto na maneira de consumir produtos.

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