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O ensejo protecionista de Trump e o futuro do emprego nos EUA

Em seu governo, Trump mantém um discurso carregado de práticas protecionistas em relação ao comércio internacional, em conformidade com sua campanha presidencial. Muitas de suas ações vão no sentido de desmontar o legado de seu antecessor e, mais do que isso, desafiam fenômenos marcantes da economia global das últimas décadas, como a globalização, a interdependência e até o curso das revoluções tecnológicas e digitais. Dentre esses atos, estão a retirada dos Estados Unidos do Acordo Trans-Pacífico (TPP), as críticas direcionadas ao NAFTA e certa coerção a grandes montadoras para que mantenham as suas plantas industriais nos EUA.

A principal justificativa de Trump para tais atos e para os vários outros que poderão vir – cujas consequências para o mundo ainda são incertas – é a de aumento e/ou recuperação de empregos nos EUA, sobretudo para a classe média na produção do setor manufatureiro. Nos discursos do presidente, no entanto, há uma simplificação muito grande da complexidade da economia atual, em grande parte moldada pela globalização, tecnologia e serviços.

Em relação às tendências para o emprego, há grandes desafios críticos para a administração de Trump perante esse objetivo no médio prazo, sendo muitos deles ligados às transformações estruturais que tem ocorrido na economia norte-americana.

Apesar de não haver redução da produção manufatureira dos Estados Unidos, é mais do que evidente que nas últimas décadas houve um aumento da importância do setor de serviços em termos de agregação de valor “embarcados” no produto. Razões para isso não faltam, e destacam-se duas: primeira, o aumento de renda da população tende a aumentar a demanda por serviços de qualidade, como cuidados com a saúde; e, segundo,  a competitividade no setor manufatureiro demanda cada vez mais uma íntima relação com o setor de serviços, tornando-os, sob diversos aspectos, praticamente inseparáveis. Nesse sentido, serviços tais como pesquisa e desenvolvimento, engenharia de software, marketing e “health care”, por exemplo, tornam-se campos nos quais haveria maior perspectiva de geração de emprego, cuja oferta não supre a demanda.

A figura abaixo mostra a evolução dos principais setores em termos de emprego para cada estado americano em quatro tempos. Nota-se que pelo menos desde 1990, o setor manufatureiro foi perdendo constantemente participação relativa para o comércio de varejo. ‘Relativa’ também porque um setor não necessariamente cresce às custas de outro setor. A indústria manufatureira permaneceu como maior empregador em 2013 apenas em estados próximos da região “Rust Belt”, como Michigan, Iowa, Wisconsin, Indiana e Kentucky, e outros mais ao sul do país, como Alabama e Mississípi. Estes últimos são estados que não se destacam por dinamismo econômico e estão entre as mais baixas rendas per capita do país. Do outro lado, segundo o Bureau of Labor Statistics, em 2013, o setor de cuidados de saúde e assistência social era predominante em 34 estados, sendo que no moderno estado de Nova York é o setor predominante desde 1992.

Figura – Setores responsáveis pela maior parte do emprego por estado americano

A redução da participação relativa do setor manufatureiro é um marco da transição do sistema de riqueza industrial para a de economia do conhecimento. Em países de economia madura, dificilmente a produção manufatureira tradicional, de chão de fábrica, responderá de forma ascendente pela maior parte dos empregos. Países como a Alemanha – de alta participação do setor manufatureiro no PIB comparado a outros países desenvolvidos – têm reconhecido que, sem a incorporação de serviços de qualidade aos seus bens manufaturados (assim como sem a benesse do mercado europeu para as suas exportações), o país não conseguirá manter altos índices de competitividade na “Indústria 4.0”, ameaçando, assim, inclusive, os próprios ganhos salariais no setor de manufaturados.

De fato, o eleitor mediano de Trump não vem dos setores mais sofisticados voltados para serviços avançados e indústria de média/alta tecnologia, que são setores de alto desempenho na economia americana e mundial. Mas, com os novos modelos de negócios e revoluções tecnológicas, o hiato de salários entre os trabalhadores de alta e de baixa qualificação tende a aumentar, elevando ainda mais a preocupante desigualdade de renda. Seria mais razoável a utilização de recursos e esforços em um programa de requalificação de trabalhadores para reingressarem no mercado de trabalho com habilidades mais requeridas na economia moderna, mesmo que não seja efetivado na velocidade desejada.

O retorno aos EUA de etapas de processos produtivos que foram terceirizadas para o Leste Asiático na “fase de ouro” das cadeias globais de valor poderia ser feito pelas novas tecnologias de produção, reduzindo a fragmentação espacial da produção, e possibilitaria a produção fisicamente próxima do mercado consumidor. É incerto, no entanto, a velocidade com que esses processos se dariam, e se as normas e instituições internacionais contrarrupturas radicais poderiam adiar ou interromper tais mudanças.

Pode ser que o método da coerção realizado até aqui por Trump — discriminação contra produtos estrangeiros, privilégios tributários e investimentos em infraestrutura — traga de volta alguns empregos tradicionais para o solo americano sob o slogan “buy American, hire American”. Entretanto, é improvável que haverá geração significativa de empregos no setor manufatureiro, assim como é improvável que haverá prosperidade duradoura numa economia que se fecha.

Em algum momento, Trump terá que lidar de frente com o lado mais sofisticado e dinâmico da economia contemporânea, os serviços.

Jean Santos Lima é Doutorando em Relações Internacionais na UnB e se dedica ao estudo e pesquisa sobre Desenvolvimento Comparado, Globalização, e Política Internacional.

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2 Comments

  1. Embora as tentativas de se glamourizar a terceirização das manufaturas para a Ásia como um sinal de evolução do sistema produtivo a nível globalizado; ela é apenas reflexo da ganância do empresariado. A China percebeu esta brecha e aproveitou-se dela para, explorando a sua mão de obra farta e semi escravizada, encher os cofres com mais de 3 trilhões de dólares em reservas. A exploração desta mão de obra contribuiu apenas para tirar do mercado uma enorme massa de trabalhadores americanos e de muitos outros países, inclusive o Brasil, que tinham ou tem pouca qualificação, tornando os produtos mais baratos para os mais qualificados. Ocorre que não é possível qualificar todos com a mesma velocidade com a qual a inutilidade de suas habilidades foi sendo decretada. Assim, os menos qualificados vão sendo rapidamente alijados do mercado e tem o seu padrão de vida reduzido. Qual é a vantagem para o cidadão americano diante de uma coisa dessas? Nenhuma! Mesmo não simpatizando com o jeito bufo de Trump, é preciso reconhecer que romper as cadeias transnacionais de valor trazendo de volta os empregos perdidos é atraente para quem os perdeu. O processo da transnacionalização das cadeias de valor foi excessivamente rápido para a capacidade das pessoas se adaptarem. Perceber isto, foi a grande sacada dos estrategistas de Trump. Por isto a ressaca em curso.

  2. Alcides Costa Vaz

    23/03/2017 at 4:43 pm

    A revolução tecnológica e terceirização das economias foram objeto de atenção inicialmente em um contexto no qual dita tendência se afigurava no marco da composição do aparato produtivo e da geração de riqueza no marco das economias nacionais e, já em tal contexto, seus reflexos sobre os empregos suscitava preocupações quanto às condições necessárias para que o contingente de mão de obra deslocado sobretudo do setor industrial pudessem ser exitosamente absorvidos como parte da transição de sociedades e economias industriais para sociedades e economias do conhecimento. Peter Drucker, em artigo publicado na Revista The Atlantic Monthly em 1994, chamava atenção para os impactos sociais potenciais e para aqueles já manifestos desta transição, alertando que muitos dos mecanismos que preveniram graves crises sociais em transições estruturais em contextos anteriores não se mostravam mais suficientes ou mesmo aptos a responder aos desafios contemporâneos que a terceirização das economias traz consigo. Pouco mais de duas décadas depois, os prognósticos mais pessimistas apontados por Drucker não se confirmaram, mas, ao mesmo tempo, não foram afastados o espectro do desemprego e o subaproveitamento da mão de obra decorrentes dos deslocamentos que terceirização, agora afetando a cadeia comporta. Os sinais deste fenômeno são claros na economia européia e também, embora não na mesma proporção, nos Estados Unidos, onde a pujança do setor industrial se viu crescentemente suplantada pelos serviços e por uma etapa mais avançada e complexa da internacionalização da produção marcada pela estruturação de cadeias globais de valor. Contudo, estas também enfrentam problemas em seu funcionamento e alcance, o que, segundo análises recentes da OMC e da UNCTAD, está na origem das vicissitudes que o comércio internacional enfrenta para confirmar o desígnio de servir de propulsor do crescimento e do desenvolvimento econômico. Trump pode ter percebido e capitalizado muito bem as inquietações e a insegurança cada vez mais disseminadas acerca da perca de oportunidades associadas à terceirização e à internacionalização da produção, mas não está claro se há, subjacente às suas propostas políticas, a compreensão dos aspectos estruturais, em grande parte, não reversíveis, que as alimentam.

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