Economia de Serviços

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O papel dos serviços na diversificação econômica: o caso dos Emirados Árabes Unidos

[Ver nota do editor]

Em 1971, quando os Emirados Árabes Unidos (EAU) se tornaram independentes, pela confederação de sete emirados que formavam o protetorado britânico dos Estados da Trégua, o Golfo Árabe era escassamente povoado, com atividade econômica concentrada na pesca e no comércio de pérolas. Com a ascensão da economia petrolífera, a região alterou-se substancialmente. Cerca de 10% das reservas mundiais de petróleo bruto atualmente conhecidas estão localizadas nos Emirados. Nos 40 anos após a independência do país, essas reservas permitiram a expansão real do PIB na ordem de 5,5% por ano.

Desde a década de 1990, o governo dos EAU tem buscado diversificar sua economia e reduzir sua dependência de petróleo. Atualmente, os Emirados são considerados um grande centro econômico no Golfo Árabe, e os investimentos de seus fundos soberanos destacam-se no mundo. A proporção do PIB gerada por setores não petrolíferos superou 69% em 2016, contra 53% em 2000. Embora a participação de setores não relacionada a hidrocarbonetos tenha aumentado no PIB, as receitas de exportação e do governo continuam concentradas em óleo e gás.

Figura: Crescimento do PIB dos EAU – Setor de Petróleo, Outros e Total

Fonte: UAE National Bureau of Statistics

Segundo estudo do FMI, há uma forte correlação entre diversificação e crescimento econômico sustentável, uma vez que economias baseadas em várias fontes de renda são menos vulneráveis a choques e ciclos econômicos. Evidências empíricas, no entanto, também atestam que a maioria das estratégias de diversificação para reduzir dependência do petróleo não foi bem-sucedida, com exceção dos casos da Noruega e do Canadá.

Obstáculos relacionados à “doença holandesa” dificultam a busca de fontes alternativas de renda, em decorrência de fatores como a volatilidade econômica induzida pela instabilidade das receitas do petróleo; efeitos acomodatícios das receitas do petróleo sobre instituições nacionais; e os riscos de as exportações de petróleo ocasionarem taxas de câmbio sobrevalorizadas. Como consequência, o êxito ou o fracasso de uma estratégia de diversificação depende de políticas econômicas que antecipem o futuro declínio nas receitas do petróleo.

O governo emirático tem buscado alcançar a diversificação sustentável pela implementação da UAE Vision 2021, que considera a inovação e o conhecimento como os principais motores da economia no futuro. De acordo com essa estratégia, os Emirados pretendem reduzir a participação das receitas do petróleo no PIB para apenas 5% em 2021, sobretudo por meio de investimentos em alta tecnologia e em serviços com elevado potencial de crescimento.

Significativos investimentos têm sido feitos em áreas como energia solar e logística portuária. Por conta de sua posição geográfica estratégica, entre a Europa e os principais mercados da  Ásia, os EAU também têm se destacado no setor de aviação, que já responde por 15% do PIB do país.

Lançada em 2016, a estratégia de impressão 3D da Dubai Future Foundation visa posicionar o emirado como um dos principais centros de tecnologia de impressão 3D em medicina; bens de consumo; e, especialmente, construção. Novas regulamentações municipais e diversas agências públicas, a exemplo da Dubai Electricity and Water Authority, devem contribuir para que, a partir de 2019,  2% dos edifícios de Dubai sejam total- ou parcialmente construídos por impressoras 3D. Segundo as metas propostas, esse número pode chegar a 25% em 2030, por meio de incentivos públicos e da esperada adesão da iniciativa privada.

Além dos desafios da “doença holandesa” para a diversificação econômica do país, os Emirados precisam superar problemas de produtividade. Apesar das altas taxas de crescimento desde os anos 2000, a produtividade do capital investido não tem crescido, e a produtividade do trabalho tem diminuído no mesmo período. Ainda que as exportações de serviços dos EAU venham aumentando, o saldo líquido de serviços é deficitário desde 1990. O país tem oportunidades e potencial para superar seus desafios pelo emprego de novas tecnologias.

É provável que a economia dos EAU continuará a depender do setor de hidrocarbonetos para impulsionar o crescimento e a diversificação nos próximos anos, mas os setores não petrolíferos poderão ganhar mais destaque, dado que, de fato, os projetos da UAE Vision 2021 deem os resultados esperados. A agregação de valor desses setores, sobretudo dos serviços, dependerá de fatores cuja eficiência se baseia crescentemente em ativos intangíveis, como conhecimento e infraestrutura.

O governo emirático deverá considerar que o conhecimento não é apenas produzido, mas também exportado. Como enfatizado em outros textos neste blog, a exportação de conhecimento decorre de serviços embutidos em produtos tangíveis, como design, royalties, marcas, e outros serviços profissionais e técnicos que agregam valor a bens. Para ter êxito, a estratégia de diversificação dos EAU, consequentemente, deve antecipar-se a tendências futuras e concentrar-se em setores inovadores e serviços que promovem o adensamento de valor nos bens.

Nota do editor: O autor é secretário executivo do Gabinete da Embaixada dos Emirados Árabes Unidos em Brasília.

Os serviços em 2016

Saíram na última semana os dados do produto interno bruto (PIB) do Brasil de 2016. Os resultados são, sem exagero, catastróficos. A economia brasileira registrou queda de 3,6% no ano, ligeiramente menos pior do que em 2015, quando a variação foi de -3,8%. Em dois anos, o PIB do país encolheu em 7,3%, voltando aos níveis de 2010. Se levado em conta o PIB per capita, mais adequado para medir a riqueza de um país, o cenário é ainda mais preocupante: queda de 9% desde 2013 e volta aos níveis de 2009. Em palavras simples, nos últimos anos, a economia brasileira voltou quase uma década no tempo.

Esse cenário crítico ainda demonstra poucos sinais claros e consistentes de melhora. É provável, porém, que o pior já tenha passado. Como discutido continuamente no blog, o setor de serviços responde por mais de 70% da economia, pelo maior número de empregos formais, está fortemente presente nas cadeias produtivas e, em geral, não é comercializável para além de fronteiras (um serviço de cabeleireiro, por exemplo, não pode ser ofertado a distância). Por todos esses motivos, e pelo fato de seu consumo ser muito sensível à renda e ao desempenho da atividade econômica, os serviços são altamente pró-cíclicos: quando a economia como um todo vai bem, eles vão bem; quando vai mal, eles também vão mal. Logo, o resultado dos serviços nas contas nacionais de 2016 não poderia ser diferente: queda de 2,7% na sua produção, voltando a níveis de 2011.

Com a exceção honrosa das atividades imobiliárias, que apresentaram ligeiro crescimento de 0,2%, todos os demais segmentos do setor de serviços encolheram em 2016 (ver gráfico abaixo). Os segmentos de comércio e de transporte, armazenagem e correios foram os mais afetados pela crise no setor: queda na atividade de 6,3% e 7,1% cada, respectivamente. Mesmo com resultados tão negativos, o setor de serviços como um todo apresentou resultados um pouco melhores (ou menos piores) que os setores da agropecuária (-6,6%) e indústria (-3,8%).

Com as mudanças no perfil de consumo e os avanços tecnológicos em curso, está claro que o crescimento dos países no século XXI dependerá, em grande parte, da capacidade de se produzir bens e serviços com cada vez mais conhecimento e tecnologias “embarcados”. Para isso, é preciso desenvolver um setor de serviços qualificado e mais integrado às cadeias de produção, em especial naquelas nas quais o Brasil apresenta vantagens comparativas estáticas e dinâmicas já reveladas.

É preciso colocar essa agenda como prioridade, ou correremos o risco de seguirmos eternamente suscetíveis aos custosos “voos de galinha”.

O preço do desenvolvimento

O sistema de preços relativos é a linguagem universal dos mercados. Friedrich Hayek, economista da escola austríaca, consolidou a ideia de que os preços traduzem toda sorte de eventos que afetam a escassez de bens e serviços no mercado. Se por estiagem ou praga a lavoura do trigo ruir, pouco importa: se a oferta cai, o pão nosso de cada dia encarece. No português claro: quando bate no bolso, amigo, todo mundo entende!

David Ricardo, grande economista clássico, estabeleceu a relação entre preço e escassez. Quanto mais pão queremos, mais terras precisamos; a expansão da fronteira agrícola incorpora terras cada vez menos produtivas e a produtividade média das lavouras cai; nosso pão de cada dia encarece. A ideia de preços ricardianos é essa: no longo prazo, a expansão da fronteira agrícola e a exaustão das reservas minerais aumentariam a carestia pelas crescentes dificuldades técnicas e quedas de produtividade, ainda que no curto prazo flutuações de oferta e demanda (as intempéries comentadas acima) reduzam ou reforcem essa tendência. Hayek e Ricardo estão dizendo que os preços entregam informações de escassez imediata e também de tendência.

No caso dos produtos industrializados a formação de preços não é ricardiana. A indústria persegue avanços tecnológicos e ganhos de escala permanentemente. A expansão da produção industrial está intimamente associada ao aumento da produtividade – essa é a Lei de Kaldor-Verdoorn; a produção aumenta por efeitos dinâmicos (tecnologia) ou por efeitos estáticos (escala), e ambos levam à queda de custos. Assim, a tendência deflacionária da produção industrial é inerente ao desenvolvimento industrial de longo prazo.

No setor de serviços os preços sofrem de limitações de comercialização. Se sua banda larga é cara e lenta você não pode contratar uma barata e veloz do Japão. Os serviços são pouco mecanizáveis, pouco padronizáveis e, em sua maioria, não-comercializáveis para além-fronteiras; portanto, conformam mercados menos concorrenciais em relação aos produtos comercializáveis, que enfrentam preços formados no cenário internacional. Ceteris paribus, produtos não-comercializáveis apresentam trajetória inflacionária em relação ao de produtos comercializáveis, que sofrem a disciplina de preços imposta pela mecanização, padronização e ampla e acirrada concorrência internacional.

Quando essa dinâmica de preços é inserida na contabilidade nacional vintage para o cálculo do valor adicionado, o setor industrial perde participação. Ao longo de todo o pós-guerra, o setor de serviços ganhou participação no PIB de diversas economias – sobretudo as desenvolvidas – às custas da redução do setor industrial. O fato estilizado mais apontado na tese da desindustrialização é a queda do valor adicionado da indústria em proporção ao valor adicionado total da economia. A indústria cede espaço para o setor de serviços como centro dinâmico; no caso dos desenvolvidos, esse seria um fenômeno natural, sustentado pela noção de que a elasticidade-renda da demanda por serviços aumenta – enquanto a de bens cai – com o aumento da renda per capita; no caso dos países em desenvolvimento, a desindustrialização seria uma patologia veiculada pela globalização e por uso cada vez maior de tecnologias poupadoras de mão-de-obra. A narrativa desse parágrafo foi rasteiramente banalizada: “Indústria pra quê? Os países desenvolvidos são economias de serviços”.

Ledo engano. As séries históricas do PIB americano que mostram mudanças na composição do valor adicionado não diferenciam variações reais decorrentes do quantum de variações reais decorrentes de preços relativos, escondendo os padrões de evolução produtiva e as regras subjacentes à formação de preços específicos de cada setor, como mencionado acima. As séries do PIB repartem o valor agregado setorialmente, desconsiderada a indissociável conexão entre indústria e serviços. Não existe aplicativo sem smartphone. Observando o caso americano a partir da evolução dos preços relativos dos setores industrial e de serviços a história é outra.

O gráfico abaixo mostra como quantum e preço evoluem de formas distintas entre os setores e como essa combinação produz a visão de mudança estrutural da economia americana. Os índices de quantum (linhas pontilhadas) do valor adicionado dos serviços e da indústria apresentaram comportamentos semelhantes, ainda que o quantum de serviços tenha atingido um nível maior; no entanto, os índices de preços se comportam diametralmente, com 30 anos de estagnação no setor industrial e persistente elevação no setor de serviços.

LEÃO, R. Reinterpretando a mudança estrutural dos EUA: a conexão entre indústria e serviços [Dissertação apresentada ao Mestrado em Economia do Setor Público – UnB]. – Brasília – DF, 2016. – Orientador: Jorge Arbache.

A ideia de uma economia americana avançada e, portanto, em desindustrialização, advém da miopia das contas nacionais, mas, sobretudo, pela desconsideração de diferenciais de produtividade que determinam a estrutura de preços relativos entre bens e serviços. Mecanização e padronização são os pais da produtividade, e crescimento da produtividade significa aumento do produto por trabalhador, mas, também, significa redução de trabalhadores por unidade de produto. A quantidade de trabalho humano envolvido na indústria depende da maturidade tecnológica, o que significa dizer que o trabalho humano é uma peça nas engrenagens até que máquinas possam fazer o mesmo trabalho com mais acurácia, velocidade e, portanto, menores custos. Esse não é o caso de extenso número de atividades econômicas nas quais o trabalho humano é quase ou totalmente insubstituível – basicamente, os serviços (e os de agregação de valor, em especial); na dificuldade de mecanização, padronização e comercialização, o setor de serviços cresce com elevação de seus preços.

A desindustrialização não é o preço do desenvolvimento. O dinâmico setor de serviços dos países avançados é o reflexo da sofisticação industrial que alcançaram; sofisticação que gerou um mundo de desafios tecnológicos que apenas o trabalho humano poderia solucionar. Em língua morta: o setor industrial estimulou o progresso do setor de serviços.

A visão vintage do nosso tempo

O pensamento humano precisa criar padrões, classificações, definições e caracterizações. É a forma que encontramos para entender o mundo ao nosso redor. A ciência da economia não é diferente e também estabeleceu sua própria esquadria para tratar seu objeto de análise. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a ONU liderou a construção do Sistema de Contas Nacionais (SCN) para mensurar o valor agregado das economias. Naquele momento, as divisões setoriais bem demarcadas entre setores primário, secundário, terciário e suas subdivisões eram inovadoras.

Os economistas tinham um sistema de registro que enquadrava empresas em setores e técnicas de análise – como a matriz insumo-produto – que rastreavam insumos e produtos finais que fluíam de uma empresa a outra, de um setor a outro. Naquela época, o SCN foi pensado para dar conta das necessidades… daquela época. As maiores economias do mundo eram industriais e a noção de que indústrias adquirem insumos (físicos e intangíveis) de outras empresas e os processam em produtos finais era bem aderente à realidade. O conceito de valor adicionado caiu como uma luva nessa forma de enxergar a realidade: valor adicionado = produção bruta – insumos. Simples: daquilo que eu produzo, subtraio o que “gastei” e restará aquilo que adicionei.

Daquele momento em diante a economia evoluiu para longe desse modelo, pelo menos nas economias mais avançadas e, sobretudo, nos EUA. A sofisticação industrial e tecnológica das últimas décadas abriu um mundo de atividades econômicas que se encarregaram da provisão de soluções de mercado que já não cabiam dentro de uma unidade empresarial e, até mesmo, de uma classificação setorial. Os serviços ganharam importância e o SCN recebeu vários “puxadinhos” ao longo do tempo para acomodar uma onda de novas atividades produtivas impossíveis de serem previstas no nascedouro do SCN. Esses improvisos conceituais (ainda que de alta complexidade) permaneceram com a mesma estrutura lógica de rigidez setorial e a pesquisa econômica passou a fotografar o novo mundo com câmeras antigas. Criamos a visão vintage do nosso próprio tempo.

A fluidez da atividade econômica nos tempos de hoje já não conhece a distinção de bens e serviços, seja na ideia de serviços inseridos em bens – smartphones e carros autônomos os melhores exemplos – seja na ideia de business services que permeiam o tecido industrial com soluções de todo tipo – customização em massa, por exemplo.

Os serviços não ganharam importância frente à indústria, mas com a indústria e por causa da indústria, pois os desafios tecnológicos cada vez mais parecidos com ficção científica já não podiam ser resolvidos pela Gerência de P&D da Indústria Ltda. Centros de P&D das grandes corporações industriais tornaram-se operadores econômicos em redes de criação de tecnologias e foram bem-sucedidos em encontrar soluções onde menos se poderia imaginar, se a imaginação se valesse de conceitos antigos.

O fato preocupante é que o crescente anacronismo entre a economia real e sua forma de registro estatístico pode ter levado a pesquisa econômica a interpretar um novo mundo com premissas do passado. O não entendimento dos novos conceitos de produção e da crescente interdependência entre diversas atividades produtivas estabeleceu um debate que contrapôs serviços e indústria equivocadamente. A crescente importância do setor de serviços está associada à sofisticação industrial e não à sua falência.

O antigo é sempre charmoso, mas seu lugar é no passado. O SCN está muito evoluído e intensamente refinado, conferindo um charmoso rigor metodológico ao registro da atividade econômica. Entretanto, pode não ser o sistema ideal para os novos tempos. Precisamos de novas lentes para enxergar o novo mundo. É necessário repensar a estrutura lógica de registro da atividade produtiva a partir de rotas tecnológicas e simbioses produtivas que não se enquadram em limites setoriais.

Rafael Leão é Mestre em Economia pela UnB e integra a carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Atualmente está como Coordenador de Informações e Estudos Estratégicos no MDIC.

Redução no crescimento do comércio mundial – alguns comentários

O arrefecimento no crescimento do comércio global tornou-se preocupação recorrente para economistas e policy makers no mundo todo. A OMC prevê que o comércio de bens crescerá apenas 1,7% em 2016 – é a primeira vez em quinze anos que essa taxa será inferior a estimativa de crescimento do PIB mundial (gráfico da esquerda abaixo).

Alguns fatores são mais fortemente associados a esse quadro, como a redução do efeito-China sobre o comércio global,  a redução em tendências de offshoring e de expansão de cadeias globais de valor, mudanças na dinâmica da atividade econômica – de acordo com o FMI, cerca de 75% da redução no comércio poderiam ser explicados pelo baixo crescimento do investimento–, bem como uma nova onda de protecionismo, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. Em relação a este último fator, observa-se que a Europa tem buscado novas formas de ampliar o uso de medidas antidumping, enquanto o número de medidas restritivas ao comércio adotadas mundialmente tem crescido de forma sustentada (gráfico da direita).

Diversos organismos internacionais saíram em defesa do livre comércio: OCDE, OMC, FMI e Banco Mundial têm conduzido debates, eventos e estudos enfatizando a importância e os benefícios do livre comércio global e da globalização para o crescimento econômico. Ao mesmo tempo, o desenrolar dos acontecimentos de 2016 – Brexit, eleição nos Estados Unidos etc – arrefeceram sobremaneira as expectativas quanto ao avanço de mega-acordos de comercio, em particular no setor de serviços.

Fonte: OCDE

Alguns economistas argumentam que a redução na fragmentação da produção mundial seria um processo natural, reflexo de uma expansão vigorosa na década de 1990 que tenderia a perder momentum nas décadas seguintes. Ainda, argumenta-se que iniciativas como o Trade Facilitation Agreement e demais acordos de comércio de bens bilaterais e regionais em negociação poderiam alavancar as exportações de países em desenvolvimento.  O que esse tipo de argumentação não vislumbra é a mudança na estrutura do comércio mundial na direção do comércio de serviços e dos fluxos digitais.

Em relação a cadeias globais de valor (CGVs), muito se argumenta que ainda haveria espaço para ganhos pela entrada de países em desenvolvimento. Não se pode negar que toda a agenda de desburocratização do comércio de bens e de redução nos custos para exportação (entrando aqui toda a questão de eficiência portuária e logística) tem importante papel para melhorar a inserção e competitividade desses países no comércio mundial. Todavia, fica cada vez mais claro que a tendência em países que estão inseridos de forma mais qualificada em CGVs guarda cada vez mais ligação com serviços de agregação de valor e diferenciação de serviços – como P&D, design, marketing, pós-venda etc – muito mais do que as etapas de montagem de bens. Assim sendo, a agenda de custos que deve ser explorada para melhorar a inserção de países em desenvolvimento no comércio mundial não deveria avançar sem uma agenda mais estratégica em direção ao comércio ligado a serviços e à economia digital – estas, sim, fontes de geração de valor e riqueza e capazes de modificar estruturalmente a inserção no comércio global.

Em suma, ainda que não se possa negar que houve redução no crescimento do comércio de bens, e que se entenda o motivo de preocupação em relação a isso, dado que o crescimento do comércio sempre foi um fator responsável por explicar parte significativa do crescimento global e do desenvolvimento em países emergentes, o debate conduzido não tende a gerar propostas concretas de ação porque apenas tangencia toda a questão relacionada à transformação na natureza dos bens advinda de sua relação com os serviços, a economia digital e seus benefícios para a retomada de crescimento das exportações, da produtividade e da atividade econômica global. Aliar tais agendas à tendência de crescimento no papel dos serviços, da digitalização e da automação tenderá a fornecer melhores insumos a economias menos desenvolvidas sobre como tomar se beneficiar do comércio global em prol do desenvolvimento.

Quem perdeu e quem ganhou com a crise no setor de serviços

Pelo sétimo trimestre consecutivo, a economia brasileira registrou retração, dessa vez de 0,8% frente ao trimestre anterior. O setor de serviços, por sua forte dependência da demanda interna, também está no seu sétimo trimestre consecutivo de retração, desta vez, de 0,6%. Apenas dois segmentos do setor não registraram retração no terceiro trimestre de 2016: serviços de informação (+0,5%) e atividades imobiliárias (0,0%).

Como já comentado aqui no blog, tamanho derretimento do setor de serviços decorre de questões conjunturais (principalmente, a fraca demanda interna) e estruturais (baixa produtividade, concentração em atividades de baixo valor adicionado, desigualdade de renda, etc.). Provavelmente, o setor só deverá se recuperar com a retomada do consumo interno e da produção dos demais setores. Pelas expectativas do mercado, essa recuperação não deve se iniciar antes do segundo ou terceiro trimestre de 2017. Ou seja, a economia como um todo e o setor de serviços, em específico, ainda deverão seguir sofrendo os efeitos da crise por mais alguns meses.

Mas, como se sabe, o setor de serviços é extremamente heterogêneo, e nem todos os seus segmentos sentiram os efeitos da crise na mesma medida. Alguns até conseguiram expandir suas atividades no período. Abrindo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE de setembro de 2016, é possível verificar quanto cada segmento perdeu ou ganhou em termos de volume de serviços[1] desde o início da crise, no início de 2015.

O primeiro dado chocante é o tamanho da retração do setor como um todo: em setembro de 2016, o setor produziu 9,1% menos que em dezembro de 2014, recuando para o nível de atividade de março de 2012 (ver gráfico abaixo). Nesse mesmo período, dois segmentos se destacaram positivamente: serviços de tecnologia da informação (+20%) e transporte aéreo (+15%). Este dado é positivo pois essas são duas atividades de salários relativamente altos e de produtividade também relativamente alta[2].

Esses dois segmentos são certamente exceções no quadro do setor de serviços. Todas as demais 10 atividades pesquisadas apresentaram contração no período. Apresentaram queda maior que 10% os segmentos de transporte terrestre (-24%); serviços técnico-profissionais (-20%); transporte aquaviário (-16,5%); outros serviços prestados às famílias (-15,5%); serviços audiovisuais, de edição e de agência de notícias (-12,8%); serviços de alojamento e alimentação (-11,3%); e outros serviços (-10,6%). Esses resultados preocupam por mostrarem que a crise é quase generalizada no setor de serviços, afetando atividades voltadas para o consumo final e para empresas; de baixo e de alto valor adicionado.

Para voltar a crescer, o Brasil terá que colocar seu setor de maior importância econômica no centro de suas políticas de desenvolvimento. Nesse sentido, teremos que melhorar o ambiente de negócios do setor; atacar a desigualdade econômica, que é parte do problema do setor; pensar formas de aumentar sua produtividade; estimular as atividades de agregação de valor; e melhor integrá-lo às cadeias globais de valor e aos demais setores da economia, em especial àqueles nos quais temos vantagem comparativa.

Gráfico – Variação no volume de serviços

[1] “Volume de serviços” é o termo utilizado pelo IBGE para a receita do setor ou segmento em preços constantes, ou seja, sem os efeitos da inflação.

[2] Segundo dados da Pesquisa Anual de Serviços de 2014, os serviços de tecnologia da informação possuem o sétimo maior salário médio (de 44 segmentos) e o décimo quarto maior nível de produtividade. Já o segmento de transporte aéreo apresenta o segundo maior salário médio e o nono maior nível de produtividade.

O avanço da Tecnologia da Informação como serviço

Tecnologia da informação (TI) pode ser definida como as capacidades oferecidas a organizações por computadores, sistemas, aplicações e telecomunicações para entregar dados, informação e conhecimento a indivíduos e processos (Attaran, 2003).

O Banco Mundial considera que o progresso tecnológico é uma força para o crescimento econômico, inclusive a partir da criação de empregos. Nesse contexto, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) estão transformando as economias mundiais, governos e sociedades.

O tema é tão importante que, em julho de 2015, 54 membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) expandiram a eliminação de tarifas para uma lista de 201 produtos, como semicondutores, lentes ópticas, equipamentos GPS, softwares e outros produtos relacionados a TIC. O comércio mundial destes produtos é estimado em 1,3 trilhão de dólares por ano.

No Brasil, o IBGE classifica os serviços de TI em cinco grupos:

  • Desenvolvimento de programas de computador sob encomenda;
  • Desenvolvimento e licenciamento de programas de computador customizáveis;
  • Desenvolvimento e licenciamento de programas de computador não customizáveis;
  • Consultoria em tecnologia da informação; e
  • Suporte técnico, manutenção e outros serviços em tecnologia da informação.

A partir da análise dos dados da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) sobre os serviços de TI, percebe-se que tem havido um crescimento persistente do setor nos últimos anos. O número de empresas teve crescimento de 34% entre 2007 e 2013, avançando de 44.145 para 59.550 empresas. Os dados sobre a receita destas empresas indicam que o crescimento ocorre de forma sustentada, tendo alcançado R$ 82 bilhões em 2013. Estes valores são expressivos quando comparados aos da receita do setor de telecomunicações, que alcançou R$ 162 bilhões em 2013. Enquanto a receita do setor de TI representava 35% da receita do setor de telecomunicações em 2007, este valor chegou a 51% em 2013.

Além disso, os dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) mostram que em 2014 a receita líquida de vendas das empresas que fabricam equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos foi de R$ 92 bilhões, o que representa 3,3% da receita das empresas industriais no mesmo ano. No caso dos serviços de TI, a proporção é de 6,6% da receita dos serviços empresariais não financeiros.

Os gráficos a seguir permitem uma comparação destes dois grandes grupos:

receitaTI_ind_x_servicos

transf_ind_TI_valor bruto prod_servicos

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Sistema IBGE de Recuperação Automática – SIDRA (Tabelas 1842 e 2623).

* Para a indústria estão incluídas as empresas fabricantes de equipamentos de informática, eletrônicos e ópticos;

** Existem dados para o ano de 2014 apenas para o setor industrial.

Apesar de a receita da indústria ser superior à dos serviços, há uma tendência de avanço do setor de serviços sobre a indústria, conforme previsto pela literatura e evidências empíricas. Esta tendência é reforçada quando comparamos o valor da transformação industrial com o valor bruto da produção para o setor de serviços.

Além disso, conforme dados do Tribunal de Contas da União, o orçamento de TI apenas do Governo Federal totalizou R$ 16,3 bilhões em 2014, considerando também as empresas estatais. Nesse contexto, o Setor Público tem importância significativa neste mercado, e as medidas adotadas pelo Governo Federal podem ser determinantes para que a sociedade venha a se beneficiar desta mudança estrutural da indústria para os serviços.

Neste ponto, a utilização de tecnologias e modelos de negócio recentes, como a computação em nuvem e o software como serviço, poderá aumentar a efetividade da Tecnologia da Informação como área-meio para viabilizar entregas aos cidadãos. Com a economia em equipamentos proporcionada pelo avanço de tecnologias como a computação em nuvem, os órgãos poderão aumentar a oferta e disponibilidade de seus sistemas, se aproximando mais, dessa forma, dos cidadãos.

FullSizeRenderWandemberg dos Santos é Mestrando em Economia pela Universidade de Brasília (UnB) e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (MP).

Por que a participação dos serviços no PIB de Alagoas é próxima à de São Paulo?

Como já comentado em posts anteriores, via de regra, os países atualmente desenvolvidos passaram por um processo de transformação estrutural de sua economia. Nesse processo, inicialmente a economia se concentra em atividades agropecuárias e, posteriormente, passa a se industrializar, principalmente com manufatura de baixa complexidade.

Na sequência, a sociedade passa a ser majoritariamente urbana e demandar serviços básicos. Neste momento, costuma haver um forte crescimento na participação do setor terciário no PIB e uma redução na participação do setor primário. Numa próxima etapa, a sociedade, mais urbana e escolarizada, passa a demandar produtos e serviços mais sofisticados. Nesse momento, o setor terciário passa a interagir mais fortemente com a indústria, gerando bens mais complexos e com serviços intensivos em conhecimento “abarcados”. Por conta desse processo, à medida que um país vai se desenvolvendo, em geral, a participação de serviços na economia também cresce.

Espera-se, portanto, que regiões de diferentes níveis de desenvolvimento tenham níveis distintos de participação de serviços no PIB. Se isso é verdade, por quê, então, São Paulo (estado com o segundo maior PIB per capita do país) e Alagoas (terceiro menor PIB per capita) têm níveis similares de participação do setor de serviços em suas economias?  Como é possível ver no mapa 1 abaixo, o setor terciário responde por 75% e 72% das economias de SP e AL, respectivamente.

Esse aparente paradigma tem diversos motivos, mas o principal deles parece ser a natureza heterogênea do setor de serviços. Por conter atividades tão díspares quanto bancos e salões de beleza, a participação do setor de serviços no PIB, por si só, diz pouco sobre o grau de desenvolvimento de um país, região ou estado.

Seguindo nos exemplos já citados, enquanto em Alagoas 39% dos serviços são de atividades essencialmente providas pelo setor público (administração, educação, saúde, pesquisa e desenvolvimento públicas, defesa, seguridade social), esse percentual é de apenas 13% em São Paulo (ver gráfico abaixo). Ademais, em SP, percebe-se uma participação muito mais elevada de serviços voltados para empresas, muitos deles de alta complexidade, como atividades profissionais, científicas e técnicas, administrativas e serviços complementares (14%, vs. 6% em AL) e serviços de informação e comunicação (7%, vs. 2% em AL).

Exemplo tão anacrônico como o citado ressalta a importância de se buscar classificar as atividades de serviços em grupos mais homogêneos. Alguns exemplos disso são as classificações da OCDE (serviços comerciais profissionais x tradicionais), por destino (para o consumo final x para empresas), padrão tecnológico (modernos x tradicionais) ou funcionalidade (serviços de custo x serviços de agregação de valor)[1].

Tais classificações são úteis para melhor compreender o setor de serviços e desenhar políticas mais corretamente direcionadas para o segmento. Portanto, mais importante que pensar no tamanho do setor de serviços parece ser refletir sobre sua composição e suas distintas funções na economia.

Mapa 1 – Dados de 2013

Gráfico 1 – Participação das atividades de serviços no PIB do setor, em Alagoas e São Paulo (2013).Servicos por atividadeFonte: IBGE (2016).

[1] Essas classificações são utilizadas no Boletim de Serviços. Para conhecer melhor essas categorizações, ver Nota Técnica do Boletim.

Um (preocupante) panorama do setor de serviços em 2015

Assim como o restante da economia, o setor de serviços foi fortemente afetado pelo momento de turbulência pelo qual o país passou e ainda passa. Em 2015, o setor apresentou contração de 2,7%, retração superada apenas pela indústria, que teve crescimento negativo de 6,2% (ver Gráfico 1). Esse é o pior resultado para o setor de serviços em toda série histórica, iniciada em 1996.

Gráfico 1 – Variação anual do PIB pelo lado da oferta

PIB1

Fonte: Contas Nacionais Trimestrais (IBGE, 2016).

O que mais chama atenção nesse resultado é que ele é fruto de uma contração generalizada do setor. Como mostrado no gráfico 2, apenas dois segmentos de serviços apresentaram crescimento positivo no ano passado: intermediação financeira e seguros e atividades imobiliárias. Chama especial atenção o tamanho da queda do comércio e da atividade de transporte, armazenagem e correio, ambas atividades com enorme importância para cadeias produtivas e, portanto, para o restante da economia.

Gráfico 2 – Variação anual dos segmentos de serviços

PIB2

Fonte: Contas Nacionais Trimestrais (IBGE, 2016).

Os resultados negativos também tiveram reflexos no mercado de trabalho. Nos últimos anos, os serviços sempre contribuíam com um saldo líquido positivo de empregos. Em 2014, o setor foi o único a apresentar saldo positivo. Em 2015, porém, as atividades de serviços foram as que mais demitiram, terminando o ano com saldo líquido de -1,1 milhão de demissões (ver Gráfico 3).

Gráfico 3 – Saldo líquido de empregos, por setor – 2014 e 2015

CAGED

Fonte: CAGED (Ministério do Trabalho, 2016).

Conforme destacado no último Boletim de Serviços, serviços voltados para o consumidor final e para empresas, seja pela classificação de valor ou de custo, demitiram mais do que contrataram em 2015, o que confirma que a situação do emprego piorou  de maneira generalizada no setor (ver Gráfico 4).

Gráfico 4 – Saldo líquido de empregos, por tipo de serviço – 2014 e 2015

CAGED2

Fonte: Machado, Arbache e Moreira, 2016 (Boletim de Serviços).

Nem mesmo o cenário mais favorável para o comércio exterior, com a forte desvalorização do real e o esfriamento da demanda interna, foi suficiente para reverter o déficit na balança comercial de serviços. Enquanto a balança de bens fechou 2015 com um superávit de US$ 17,7 bilhões, a balança de serviços apresentou déficit de US$ 36,9 bi. Assim como nos outros indicadores, o resultado atingiu todas as categorias de serviços (ver Gráfico 5).

Gráfico 5 – Balança comercial de bens e serviços, por bens e tipos de serviços, em US$ milhões (FOB) – 2014 e 2015

BCBS

Fonte: Machado, Arbache e Moreira, 2016 (Boletim de Serviços).

Por fim, vemos que a inflação de serviços foi consideravelmente superior ao índice geral, quando utilizada a metodologia de classificação do Boletim de Serviços[1]. Os serviços tradicionais, puxados principalmente pelas tarifas de transporte público e de luz, registraram inflação de 14,1% em 2015. Destaca-se a deflação dos serviços modernos, que registraram deflação de 3,8%.

Gráfico 6 – Inflação de bens e serviços (IPCA) – 2014 e 2015

IPCA

Fonte: Machado, Arbache e Moreira, 2016 (Boletim de Serviços).

O quadro geral do setor de serviços foi, portanto, bastante negativo em 2015. O setor, que era uma espécie de “âncora” do emprego, passou a demitir mais do que contratar. Ademais, os serviços responderam por parte importante do aumento de preços. Por fim, o tamanho e a constância do déficit da balança de serviços reforça a percepção da baixa competitividade internacional dos nossos serviços.

Tendo em vista o tamanho do setor de serviços e sua influência sobre indicadores chave da economia, parece-nos razoável sugerir que o setor de serviços deveria ser alçado ao centro do debate sobre a recuperação econômica e aumento da competitividade.

 

[1] O índice de inflação de serviços calculado pelo Banco Central só leva em conta consertos e manutenção, pintura de veículo, serviços de saúde, serviços pessoais e cursos. A metodologia de Machado, Arbache e Moreira é mais abrangente, incluindo itens como alimentação fora do domicílio, serviços de transporte, comunicação etc.

Qual a relação entre o setor de Tecnologia da Informação e Comunicação e o desenvolvimento econômico?

Desenvolvimento econômico e crescimento de longo prazo têm suas origens, usualmente, na inovação e no aumento da produtividade. A caracterização da produtividade e seu aumento contínuo como um fator determinante do desenvolvimento econômico é um fato estilizado da economia: um grande número de estudos mostra que diferenças no crescimento da produtividade são responsáveis não só pela variação na taxa de crescimento dos países ao longo do tempo, mas também pela diferença no nível de desenvolvimento deles.

Neste sentido, o objetivo deste post é avaliar qual a contribuição do setor de TIC para o desenvolvimento econômico dos países. Como este setor é conhecido por sua inovação constante e por fornecer significativos ganhos de produtividade, há de se esperar alguma correlação positiva entre o setor de TIC de um país e seu grau de desenvolvimento econômico. Para avaliar esta correlação quantitativamente, optou-se por calcular o coeficiente de correlação de Pearson utilizando as seguintes variáveis: como medida do setor de TIC, utilizou-se o Networked Readiness Index (NRI); como medida de desenvolvimento econômico, foi utilizado o conceito de densidade industrial.

O coeficiente de correlação de Pearson é uma medida do grau de relação linear entre duas variáveis quantitativas. Calculando-se o coeficiente de correlação entre duas variáveis, podemos avaliar não só se elas estão relacionadas, mas também qual a intensidade desta relação. O coeficiente varia entre -1 e 1. Quanto mais próximo dos extremos, mais correlacionadas as variáveis estão: ou seja, o crescimento de está associado ao crescimento da outra. O sinal indica se a correlação observada é direta ou inversa (se elas crescem no mesmo sentido ou em sentidos opostos).

O Networked Readiness Index (NRI) é um índice desenvolvido pelo Fórum Econômico Mundial para medir o nível de preparo tecnológico das economias. Seu objetivo é avaliar o grau de propensão dos países analisados para explorar as oportunidades oferecidas pelo setor de TIC, possibilitando, com isso, identificar áreas de prioridade para alavancar o desenvolvimento. Por ser considerado o indicador mais abrangente na avaliação das tecnologias da informação e comunicação dos países analisados, ele pode ser considerado um bom indicador de medida do grau de desenvolvimento do setor de TIC de um país. O índice foi abordado de forma mais abrangente em um post anterior.

A densidade industrial é uma medida que reflete a razão entre o valor adicionado da indústria de um país e sua população total. O conceito de densidade industrial busca identificar a capacidade e o interesse de um país em mobilizar seus recursos produtivos para promover o desenvolvimento industrial. O diagrama de espaço indústria, mostrado na Figura 1 abaixo (e explorado em post anterior), descreve a trajetória do desenvolvimento industrial dos países, utilizando um gráfico de três dimensões: densidade industrial, participação da indústria no PIB e participação dos serviços comerciais no PIB. O diagrama é dividido em quatro regiões distintas: R1, R2, R3 e R4.

Figura 1 – Diagrama Espaço Indústria

Diagrama Espaço IndustriaFonte: Arbache (2014).

Em geral, os países iniciam sua trajetória rumo ao desenvolvimento industrial na região R1. Nesta região, a densidade industrial é baixa, a participação da indústria no PIB é pequena e a participação dos serviços no PIB também é baixa. Logo, pode-se concluir que os países em R1 são essencialmente agrários, com grande parte do PIB vindo da agricultura. Com a chegada à região R2, os países alcançam o primeiro estágio de desenvolvimento industrial: indústrias de base, manufaturas de baixo valor adicionado e serviços de custo ganham importância na economia: a participação da manufatura no PIB cresce, mas a dos serviços comerciais é baixa.

O grande salto para o desenvolvimento é observado na transição da Região R2 para R3. Neste estágio, a densidade industrial passa a crescer rapidamente e vem acompanhada do aumento da participação dos serviços comerciais no PIB. A indústria passa a produzir bens mais sofisticados, que começam a requerer serviços profissionais especializados no processo de produção. Em virtude disso, a participação da indústria no PIB tende a diminuir: parte dos serviços da linha montagem industrial, até então executados internamente pela própria indústria, passam a ser terceirizados para empresas de serviços comerciais mais especializadas. É justamente neste ponto que começam a aparecer os serviços de outsourcing.

Finalmente, a região R4 é caracterizada pelo estágio mais avançado do desenvolvimento industrial (o qual poucos países alcançam). Nela, a densidade industrial continua a se expandir, juntamente com a demanda por serviços comerciais. Como consequência, a participação da indústria tende a declinar ainda mais, indicando uma intensa participação do setor de serviços profissionais na indústria, visando à produção de bens cada vez mais sofisticados: bens e serviços passam a se combinar para criar um terceiro produto, que não é um bem industrial tradicional, nem tampouco um serviço convencional. Os exemplos vão desde smartphones e tablets (nos quais os serviços de software compõem a maior parte do valor agregado) até mesmo carros e apartamentos do século XXI (com seus computadores de bordo e softwares de automação residencial).

Se, empiricamente, podemos esperar uma correlação positiva entre densidade industrial e serviços comerciais e profissionais, podemos esperar que esta correlação se manifeste também entre a densidade industrial e o setor de TIC. Este comportamento foi de fato observado avaliando-se os valores dos coeficientes de correlação calculados, apresentados na Tabela 1 abaixo.

Tabela 1 – Coeficiente de Correlação de Pearson para NRI e Densidade Industrial – 2012 a 2014

Coeficientes Correlação NRI-DIFonte: Elaboração própria a partir de dados do Banco Mundial e do Fórum Econômico Mundial.

Como era de se esperar, a correlação calculada é positiva e bastante forte. O resultado indica que os conceitos e indicadores por trás do NRI estão fortemente correlacionados com a densidade industrial dos países. Como o conceito de densidade industrial é uma medida de desenvolvimento econômico, o resultado nos leva a crer que o setor de TIC pode ter papel importante no desenvolvimento econômico dos países. Consequentemente, dar atenção especial ao setor de TIC pode ser um caminho interessante para o desenvolvimento.

O Brasil precisa pensar políticas públicas de desenvolvimento econômico que levem em conta o setor de serviços, que hoje representa 75% do PIB nacional. O tempo de se negociar acordos de comércio pensando em commodities e subsídios agrários ficou para trás: o país precisa pensar em como transformar seu setor de serviços, hoje essencialmente focado em serviços de custo de baixo valor agregado e de baixa produtividade, em um setor de serviços comerciais sofisticados, de alto valor agregado. Para tanto, reformas estruturantes (política, administrativa, tributária) são necessárias para que não só o setor de TIC volte a crescer, mas principalmente para que os setores demandantes de soluções de TIC também voltem a crescer, impulsionando assim a inovação e o desenvolvimento do país.

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