Economia de Serviços

um espaço para debate

Author: Rafael Moreira (page 2 of 4)

Chegamos ao fundo do poço no setor de serviços?

Como já discutido em posts anteriores, pelo fato de os serviços ainda serem, em sua maioria, não comercializáveis entre fronteiras, estes dependem da demanda doméstica. Portanto, o desempenho do setor tende a ser pró-cíclico. Como não poderia ser diferente, o setor de serviços tem sido fortemente impactado pela desaceleração econômica dos últimos anos.

Como é possível ver no gráfico 1, o setor de serviços tem registrado contração desde o início de 2014, por 10 trimestres consecutivos. Esta é a primeira vez na série histórica (iniciada em 1996) que isso acontece.


Com relação ao primeiro trimestre de 2015, o valor adicionado do setor de serviços diminuiu 5,8%. Como é possível ver no gráfico 2, a piora do setor é generalizada. Desde o início de 2015, todos os subsetores de serviços cobertos pelo IBGE acumularam perda, variando de 0,1% (atividades imobiliárias) a 14,5% (comércio).


Tal resultado tem consequências importantes. Desde janeiro de 2015, o setor apresenta saldo negativo de emprego de mais de 1,5 milhão de vagas, consideravelmente pior que o do setor industrial, com saldo negativo de 711 mil vagas, e que a agropecuária e indústrias extrativas, que, juntas, apresentaram saldo positivo de cerca de 50 mil vagas (dados do Boletim de Serviços). Note que até 2014, o setor de serviços era a principal âncora do emprego.

Ainda não há sinais claros de que o setor já tenha chegado ao “fundo do poço”, porém, desde o fim do primeiro trimestre de 2016, os Índices de Confiança de Serviços (ver Gráfico 3) e do Consumidor, da FGV têm registrado altas consecutivas. Apesar de ainda seguirem consideravelmente abaixo de suas médias históricas, esses podem ser os primeiros indícios de que uma recuperação pode estar a caminho.

Por suas características pró-cíclicas, é provável que o setor volte a crescer com a recuperação da economia como um todo, o que será positivo, mas não suficiente para as necessidades do país. Para que a economia brasileira saia desta crise mais competitiva e resiliente, será preciso que os graves problemas do setor de serviços, tais como a sua baixa produtividade, o seu alto custo e a sua baixa inserção em cadeias globais de valor, façam parte da agenda das políticas de crescimento econômico.

Gráfico 3 – Índice de Confiança dos Serviços (dessazonalizado).

ics

Fonte: FGV

Um ano de Blog

Neste mês de julho, completamos um ano do lançamento do Blog. Nosso intuito, desde o início, foi de dar mais atenção ao setor de serviços, que, apesar de representar mais de dois terços da economia, ainda é relativamente pouco debatido. Desde o lançamento, publicamos 117 posts de 15 colaboradores e recebemos mais de 30 mil visitas. Por esses números, acreditamos que estamos, aos poucos, conseguindo alcançar nosso objetivo inicial.

Gostaríamos de agradecer aos nossos leitores, assinantes e colaboradores e aproveitar o momento para dar destaque a alguns dos posts mais lidos e outros que acreditamos tratar de temas extremamente importantes para entender as temáticas debatidas aqui no blog. (Re)leia-os clicando nos links abaixo:

A saída da crise passa pelos serviços

A crise pela qual passa o Brasil atualmente é extremamente grave. Apesar de ainda não ser possível ver o fim da turbulência, já é seguro afirmar que esta é uma das quedas mais rápidas e profundas da nossa história econômica. No gráfico abaixo, é possível ver o crescimento econômico no Brasil do período de 1901 a 2018, utilizando o Boletim Focus como referência para as projeções de 2016 a 2018.

A perda acumulada estimada para o período de 2015 e 2016, de 7,1%, deve ser superior à do período pós-segundo choque do petróleo, entre 1981 e 1983 (-6,3% acumulados), e até à do período de 1930-31 (-5,3%), pós-Crise de 29. Levando-se em conta a variação do PIB per capita, o brasileiro deverá ficar, ao fim do período de 2014 a 2016, 10% mais pobre — ou cerca de 30%, se calculado em dólares.

Gráfico 1

PIB1901-2018

As causas para quadro tão dramático são diversas e estão sendo amplamente discutidas, tanto na imprensa, quanto na academia, e envolvem tanto questões conjunturais (desequilíbrio fiscal, crise política, distorções de preços causadas por subsídios, cenário internacional mais desfavorável, etc) quanto estruturais (baixa produtividade, desindustrialização precoce, infraestrutura deficiente, “custo Brasil”, entre outras).

Sem dúvida, para sair da crise, será preciso atacar questões de ambos os tipos, de maneira coordenada, simultânea e rápida. Entretanto, surpreende como, nesses debates, o setor de serviços é raramente lembrado.

Como é possível ver no Gráfico 2 abaixo, pelo menos desde 1947, o setor é o de maior participação no PIB, e, de 1986 a 2015, aumentou seu percentual de maneira significativa, tendo chegado a mais de 70%. Para além de sua contribuição mais direta, os serviços são importantes insumos para outros setores, em especial a indústria, conforme já exposto aqui no blog.

Gráfico 2

SetoresPIB

Fonte: IBGE.

O problema é que o setor de serviços, no Brasil, se concentra principalmente em atividades de baixa complexidade e, mesmo nas atividades de maior valor agregado, o país não costuma ser competitivo, como pode ser percebido pelos constantes déficits desses serviços na balança comercial e pela baixa produtividade, para níveis internacionais, dessas atividades. Esse quadro fica ainda mais claro ao olhar a evolução da produtividade do setor como um todo (Gráfico 3): de 1980 a 2011, o setor apresentou queda de quase 50% (!!!), pior resultado dos grandes setores.

Gráfico 3

Fonte: Moreira (2015) com base em Timmer, de Vries e de Vries (2014).

Fonte: Moreira (2015) com base em Timmer, de Vries e de Vries (2014).

Por conta do processo de mudança estrutural e das mudanças em curso na economia — descentralização da produção, maior interação entre bens e serviços, indústria 4.0, etc. — a tendência é que os serviços sigam sendo, com alguma distância, o maior setor da economia brasileira. Logo, não há outro caminho: o Brasil não conseguirá crescer sustentavelmente e ser competitivo no século XXI sem colocar os serviços no centro de suas políticas. O setor de serviços pode não ter sido a principal causa da crise atual, mas torná-lo mais eficiente e produtivo será indispensável para um crescimento mais sustentado.

Chamada de Trabalhos para a 5a. Conferência da Rede Latinoamericana de Pesquisa sobre Serviços – REDLAS

Chamada de trabalhos para a 5ª Conferência da Rede Latinoamericana de Pesquisa sobre Serviços (REDLAS), que ocorrerá em 4 e 5 de outubro de 2016 em São Paulo-SP.

O tema da Conferência será “Serviços, tecnologia e comércio internacional: tendências, desafios e oportunidades para a América Latina. Resumos devem ser enviados até 30 de junho de 2016 no link http://mackenzie.br/redlasconference2016.html . Na página, é possível encontrar mais informações sobre o evento.

Aviso Redlas

Novas tecnologias e o baixo crescimento da produtividade nos países ricos

Nos últimos anos, tem havido um debate sobre a capacidade das novas tecnologias promoverem um crescimento de longo prazo e a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Afinal, o avanço da Internet e de serviços sofisticados é capaz de promover aumento de produtividade no longo prazo?

Nos países desenvolvidos, e nos Estados Unidos em especial, há uma discussão a respeito do baixo crescimento da produtividade na última década. Como é possível ver no gráfico abaixo, entre 2007 e 2015, a produtividade do trabalho nos EUA cresceu, em média, 1,2% ao ano, consideravelmente abaixo do longo período pós-guerra, entre 1947 e 1973 (2,8%), ou do boom do começo da Internet, entre 1990 e 2000 (2,2%).

Gráfico 1 – Crescimento anual médio da produtividade do trabalho do setor privado não-agrícola nos Estados Unidos em períodos selecionados

produtividadeEUAHá várias hipóteses para essa desaceleração da produtividade. Para alguns autores, esse fato se deve principalmente à dificuldade de se mensurar, pelos meios tradicionais, os ganhos financeiros e não financeiros dos avanços tecnológicos dos últimos anos, como a popularização do smartphone, da banda larga, das redes sociais e de serviços disruptivos da “economia colaborativa”, que visam diminuir ineficiências e ociosidade, como o Uber, o AirBnB, o Waze, etc.

Para outros acadêmicos, já não haveria mais grandes invenções a serem feitas, e os avanços recentes simplesmente não seriam suficientes para aumentar o nível de produtividade da economia de maneira substancial. Na visão desses autores, a introdução de um serviço como o Skype ou Uber não se compara, em termos econômicos, com as revoluções promovidas pelas grandes inovações dos séculos XIX e XX, como o telefone, a eletricidade, o avião comercial e os eletrodomésticos. Em uma frase já famosa de Peter Thiel, cocriador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook, “queríamos carros voadores, mas nos deram 140 caracteres”.

Em trabalho recente, Chad Syverson mostra que, entre os países desenvolvidos, não parece haver relação entre o uso de tecnologia da informação e o crescimento da produtividade do trabalho nos últimos anos (ver Gráfico 2 abaixo). Por meio de testes contrafactuais, Syverson conclui que a queda recente do crescimento da produtividade nesses países não poderia ser explicada apenas por um erro de mensuração. Segundo ele, o mais provável é que tenho havido, de fato, uma queda no ritmo de crescimento de produtividade nesses países.

Essa discussão é extremamente importante para o Brasil, país que apresenta um baixo nível e crescimento da produtividade nas últimas décadas. Melhorar nossa educação e nossa infraestrutura e promover uma maior inclusão digital serão passos importantes para a melhora da qualidade de vida e para o aumento da produtividade no país. Porém, provavelmente será preciso fazer mais do que isso para darmos um salto de patamar.

Gráfico 2 – Mudança no crescimento de produtividade (%) entre os períodos de 1995-2004 e 2005-2014 e percentual de famílias com acesso à Internet de banda larga em 25 países da OCDE

produtividade e banda larga

Fonte: Syverson, 2016.

Em que atividades se concentram as empresas de serviços?

Como tem sido discutido neste blog, o setor de serviços é bastante heterogêneo. Por isso, sempre que possível, apresentamos os dados do setor utilizando classificações de atividades econômicas, de modo a trabalhar com categorias mais homogêneas. Em geral, analisamos dados de emprego, PIB, inflação, etc. É interessante, também, saber em que atividades se concentram as empresas do setor.

Segundo o DataSebrae, 80% das empresas brasileiras são de serviços (incluindo comércio). Desses 7,6 milhões de empreendimentos, a maioria se concentra em atividades tradicionais (84%), predominantemente voltadas para o consumidor final (74%). Apenas 6% dessas empresas estão em atividades classificadas como de agregação de valor (ver gráfico 1).

Gráfico 1 – Distribuição das empresas de serviços (inclusive comércio), por categorias – 2014

Empresas por categoria

Fonte: Elaboração própria a partir de DataSebrae (2016), a partir de classificações utilizadas no Boletim de Serviços.

Quando analisamos as 10 atividades econômicas mais frequentes entre as empresas de serviços (Tabela 1), fica clara a concentração dos negócios em segmentos de menor valor agregado. As três atividades mais frequentes — (i) Comércio varejista de artigos do vestuário; (ii) Cabeleireiros, mercearias e armazéns; (iii) Minimercados, mercearias e armazéns — concentram, sozinhas, quase 20% das empresas do setor e têm como características comuns a baixa produtividade e a mão-de-obra geralmente pouco qualificada.

Tamanha concentração em atividades mais tradicionais não é surpresa, levando-se em conta o fenômeno do Microempreendedor Individual (MEI), que facilitou (e barateou) consideravelmente a abertura e a formalização de firmas de baixo faturamento; o fato de 84% da população brasileira viver em regiões urbanas (IBGE, 2012); o fenômeno da transformação estrutural, fato estilizado na economia; e o aumento da demanda por serviços pessoais, puxada pela ascensão social ocorrida até recentemente.

Embora não seja surpreendente, esta configuração do setor de serviços, que responde por mais de 70% do PIB, demonstra parte do enorme desafio do aumento da produtividade na economia brasileira.

A promoção de um ambiente de negócios mais amigável e um maior foco no aumento da eficiência dessas empresas em atividades tradicionais (principalmente por meio da qualificação de empresários e empregados) podem não ser medidas suficientes para o país dar um salto na sua produtividade, mas são indispensáveis para isso.

Tabela 1 – Distribuição de empresas nas 10 atividades econômicas mais frequentes no setor de serviços (inclusive comércio) — 2014

Atividade econômica (CNAE 7 dígitos) Número de Empresas Participação no total de empresas de serviços
Comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios 740.605 9,8%
Cabeleireiros, manicure e pedicure 374.174 4,9%
Minimercados, mercearias e armazéns 314.691 4,2%
Lanchonetes, casas de chá, de sucos e similares 254.391 3,4%
Restaurantes e similares 174.151 2,3%
Bares e outros estabelecimentos especializados em servir bebidas 141.395 1,9%
Transporte rodoviário de carga intermunicipal, interestadual e internacional 134.931 1,8%
Comércio a varejo de peças e acessórios novos para veículos automotores 131.458 1,7%
Atividades de estética e outros serviços de cuidados com a beleza 127.943 1,7%
Comércio varejista de cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal 123.311 1,6%

Fonte: DataSebrae (2016). Alguns nomes de atividades econômicas foram simplificados.

Por que a participação dos serviços no PIB de Alagoas é próxima à de São Paulo?

Como já comentado em posts anteriores, via de regra, os países atualmente desenvolvidos passaram por um processo de transformação estrutural de sua economia. Nesse processo, inicialmente a economia se concentra em atividades agropecuárias e, posteriormente, passa a se industrializar, principalmente com manufatura de baixa complexidade.

Na sequência, a sociedade passa a ser majoritariamente urbana e demandar serviços básicos. Neste momento, costuma haver um forte crescimento na participação do setor terciário no PIB e uma redução na participação do setor primário. Numa próxima etapa, a sociedade, mais urbana e escolarizada, passa a demandar produtos e serviços mais sofisticados. Nesse momento, o setor terciário passa a interagir mais fortemente com a indústria, gerando bens mais complexos e com serviços intensivos em conhecimento “abarcados”. Por conta desse processo, à medida que um país vai se desenvolvendo, em geral, a participação de serviços na economia também cresce.

Espera-se, portanto, que regiões de diferentes níveis de desenvolvimento tenham níveis distintos de participação de serviços no PIB. Se isso é verdade, por quê, então, São Paulo (estado com o segundo maior PIB per capita do país) e Alagoas (terceiro menor PIB per capita) têm níveis similares de participação do setor de serviços em suas economias?  Como é possível ver no mapa 1 abaixo, o setor terciário responde por 75% e 72% das economias de SP e AL, respectivamente.

Esse aparente paradigma tem diversos motivos, mas o principal deles parece ser a natureza heterogênea do setor de serviços. Por conter atividades tão díspares quanto bancos e salões de beleza, a participação do setor de serviços no PIB, por si só, diz pouco sobre o grau de desenvolvimento de um país, região ou estado.

Seguindo nos exemplos já citados, enquanto em Alagoas 39% dos serviços são de atividades essencialmente providas pelo setor público (administração, educação, saúde, pesquisa e desenvolvimento públicas, defesa, seguridade social), esse percentual é de apenas 13% em São Paulo (ver gráfico abaixo). Ademais, em SP, percebe-se uma participação muito mais elevada de serviços voltados para empresas, muitos deles de alta complexidade, como atividades profissionais, científicas e técnicas, administrativas e serviços complementares (14%, vs. 6% em AL) e serviços de informação e comunicação (7%, vs. 2% em AL).

Exemplo tão anacrônico como o citado ressalta a importância de se buscar classificar as atividades de serviços em grupos mais homogêneos. Alguns exemplos disso são as classificações da OCDE (serviços comerciais profissionais x tradicionais), por destino (para o consumo final x para empresas), padrão tecnológico (modernos x tradicionais) ou funcionalidade (serviços de custo x serviços de agregação de valor)[1].

Tais classificações são úteis para melhor compreender o setor de serviços e desenhar políticas mais corretamente direcionadas para o segmento. Portanto, mais importante que pensar no tamanho do setor de serviços parece ser refletir sobre sua composição e suas distintas funções na economia.

Mapa 1 – Dados de 2013

Gráfico 1 – Participação das atividades de serviços no PIB do setor, em Alagoas e São Paulo (2013).Servicos por atividadeFonte: IBGE (2016).

[1] Essas classificações são utilizadas no Boletim de Serviços. Para conhecer melhor essas categorizações, ver Nota Técnica do Boletim.

Chamada de trabalhos – V Conferência REDLAS, em São Paulo

Copiamos abaixo mensagem de Felix Hugo (Universidade Presbiteriana Mackenzie) e Nanno Mulder (CEPAL/REDLAS), com uma chamada para trabalhos para a V Conferência REDLAS (Rede Latino-Americana de Investigação em Serviços), com tema “Services, technology and international trade: Trends, challenges and opportunities for Latin America” que ocorrerá nos dias 5 e 6 de outubro em São Paulo. Os resumos devem ser enviados até o dia 15 de junho de 2016 para congressodeservicos@mackenzie.br

Segue a mensagem, em espanhol e inglês:

“Estimad@s colegas,

Con mucho gusto reiteramos que la quinta conferencia de la Red Latinoamericana de Investigación en Servicios (REDLAS) se celebrará el  4 y 5 de octubre 2016 en Sao Paulo, Brasil. El tema de esta conferencia es “Servicios, tecnología y comercio internacional: Tendencias, desafíos y oportunidades para América Latina”. El anfitrión de la conferencia es la Universidad Prebistariana Mackenzie y los coorganizadores son la Asociación Latinoamericana de exportadores de servicios (ALES), la CEPAL, el Centro de Estudios del Comercio Mundial e Inversiones de la Fundación Getulio Vargas y la Universidad de Chile. Para mayores informaciones del Call for Papers, véase http://www.redlas.net/materiali/priloge/slo/llamada-de-trabajos–redlas-2016–espa~nol.pdf

Le invitamos enviar un resumen de un trabajo para presentar en la conferencia antes del 15 de junio al correo congressodeservicos@mackenzie.br. Una selección de los mejores resúmenes recibirán un apoyo financiero para asistir a la conferencia.

Estamos a la orden por cualquier consulta.

Saludos atentos,

En nombre del comité organizador, Felix Hugo (Universidad Prebistariana Mackenzie) y Nanno Mulder (Presidente REDLAS) 

—————————–

Dear colleagues,

With great pleasure we would like to remind you that the fifth Conference of the Latin American Network for Research on Services (REDLAS) will take place on 4 and 5 October 2016 in Sao Paulo, Brazil. The theme of this conference is “Services, technology and international trade: Trends, challenges and opportunities for Latin America”. The meeting is hosted by Mackenzie Presbyterian University and co-organized with the Latin American Association of Service Exporters (ALES), the Center of Global Trade and Investment Studies of the Getulio Vargas Foundation, ECLAC, and  the University of Chile. For more information on the Call for Papers, please see http://www.redlas.net/materiali/priloge/slo/call-for-papers-new-deadline.pdf.

We kindly invite you to send an abstract of a paper you could present before  15 June to the email congressodeservicos@mackenzie.br. A selection of the best abstracts will receive financial support to attend the meeting.

Please contact if you have any queries.

Kind regards,

On behalf of the organizers,  Felix Hugo (Mackenzie Presbyterian University) and Nanno Mulder (President REDLAS)”

Por que não devemos limitar a Internet fixa

Nos últimos dias, muito tem se debatido sobre a questão da imposição de franquias de uso de dados por parte dos provedores de internet fixa. Na visão dessas empresas, o aumento do uso de serviços intensivos em banda, como o Netflix, o YouTube e plataformas online de jogos, tornaria inevitável a necessidade de imposição de limites no tráfego de dados.

Segundo o presidente da Vivo, discriminar usuários “leves” e “pesados” seria mais justo do que tratar todos igualmente. No mesmo sentido, o presidente da Anatel deu a entender que a era da internet fixa ilimitada havia chegado ao fim, e que as operadoras haviam “educado mal” os usuários, que estariam utilizando banda demais.

É verdade que o usuário (não apenas no Brasil) está utilizando mais banda por conta principalmente do avanço dos serviços de streaming e de computação em nuvem. Na era em que o tráfego de dados tem se tornado mais importante que o fluxo de bens, não há como ser diferente. Segundo estimativas da Cisco, o tráfego de dados da internet fixa no Brasil em 2019 deverá ser o dobro do nível de 2014.

Como argumentado por Rodrigo Zeidan em seu ótimo post sobre o assunto, o acesso à internet só passa a ser um bem rival (ou seja, o consumo de um usuário concorre com o de outro) se houver congestionamento na rede por conta de infraestrutura insuficiente para o tamanho da demanda. É possível que isto esteja ocorrendo no Brasil, mas uma forma menos restritiva para combater isto seria estimular o aumento da concorrência no mercado de provedores.

Atualmente, há forte concentração do serviço de provimento de internet no Brasil. Conforme é possível ver no gráfico 1, os três maiores provedores de internet do Brasil respondem, juntos, por 86% dos usuários de banda larga fixa. O quarto maior provedor, Algar, responde por apenas 1,8% dos usuários.

Gráfico 1 – Participação dos provedores de internet no total de usuários em dezembro de 2015

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Anatel.

Neste cenário, o consumidor parece ter poucas opções, já que, em muitas regiões, não há mais do que dois ou três provedores de internet. Para efeito de comparação, enquanto a Oi, a terceira maior provedora de internet de banda larga do país, se encontra em 5.419 municípios (97% do total), a Algar, quarta maior provedora, fornece serviços em apenas 242 cidades (4%).[1]

Esta discussão é especialmente importante em um momento em que provedores de internet, que também costumam fornecer serviços de TV por assinatura, telefonia fixa e móvel, têm criticado abertamente serviços como Whatsapp, Netflix e YouTube, que se utilizam da internet e concorrem diretamente com aqueles serviços. Todas as três maiores provedoras de internet fixa também fornecem TV por assinatura (e telefonia fixa e móvel), que sofre concorrência direta do Netflix, possivelmente um dos principais responsáveis pelo aumento do consumo de banda.

Ao impor franquia de dados, os provedores de internet podem acabar “forçando” usuários – principalmente aqueles de mais baixa renda – a desistir de serviços como Netflix, YouTube e Skype para aderir aos serviços de TV por assinatura e telefonia prestados por aquelas mesmas empresas.

Talvez esta seja a questão mais preocupante da imposição de franquias de dados. A internet é, antes de tudo, uma plataforma para diversos mercados. Limitar, mesmo que indiretamente, o acesso a serviços que se utilizam de muita banda pode ter como consequência o desestímulo ao surgimento de novos aplicativos, jogos e serviços inovadores.

Não por acaso, a Netflix passou a pagar para provedores de internet americanos para que os usuários acessassem mais rapidamente seus serviços. Se todo serviço intensivo em banda se vir obrigado a fazer o mesmo, possivelmente teremos menos inovações na internet e serviços prestados por grandes empresas, que podem pagar por um melhor acesso, terão grande vantagem no mercado.

Um cenário com poucas provedoras impondo franquias de dados aos usuários pode resultar em usuários, especialmente os de mais baixa renda, “presos” aos serviços das provedoras de internet e em uma internet menos livre. Ademais, em uma era em que a internet e o fluxo de dados são (e serão cada vez mais) a norma, é mais que esperado que as provedoras de internet tenham que se adaptar, atualizando seus modelos de negócios, sem ir na contramão da tecnologia.

Um mercado mais competitivo de provimento de internet seria um ótimo caminho para que esses novos modelos apareçam. Portanto, antes de permitir a imposição de limites de dados, reguladores deveriam considerar como fazer com que mais empresas entrem no mercado de provimento de internet. Esta seria uma solução mais adequada para consumidores, empresas de conteúdo que atuam na internet e a sociedade em geral.

[1] Os dados sobre acessos a banda larga foram retirados da Anatel.

 

AliExpress, Spotify e os novos intermediadores

Em muitos mercados, o número de intermediadores tem diminuído. Antigamente, se um consumidor precisasse de uma peça importada específica para o seu computador, ele teria que buscar em lojas especializadas, que, por sua vez, teriam que importar a peça de fornecedores no exterior, caso não a tivessem em estoque. Nos dias de hoje, esse mesmo consumidor pode comprar quase que diretamente dos produtores, por meio de sites como o AliExpress ou eBay.

Atualmente, grande parte dos aplicativos e sites de sucesso se baseiam em aproximar prestadores e compradores de serviços – em muitos casos, compradores também são prestadores e vice-versa. Em geral, aplicativos como o AirBnB ou mesmo sites como o Estante Virtual, nascem da percepção de uma falha de mercado.

Pense no exemplo da Estante Virtual, plataforma que reúne milhares de sebos espalhados pelo país. Antes, se um consumidor procurasse um livro fora de circulação, ele limitaria sua busca a lojas de livros usados locais. Caso encontrasse em uma dessas lojas, provavelmente não saberia se está pagando caro ou barato, pois estaria limitado às opções locais.

O site aumenta a concorrência entre sebos, já que o consumidor acessa o catálogo de lojas de todo o país. Adicionalmente, o serviço amplia de forma considerável o mercado para os sebos. Uma loja de livros usados no interior do Paraná pode, pelo Estante Virtual, vender seus livros para um cliente no Nordeste – algo impensável há 20 anos.

Portanto, o maior valor do site é agir como um intermediador, que informa tanto o preço quanto a qualidade do serviço ou bem prestado, por meio de avaliação de usuários. Esse processo, que se repete em diversos mercados, traz importantes ganhos de eficiência e de bem-estar. O consumidor passa a ter acesso a uma maior diversidade de bens e serviços, normalmente a preços mais baixos, por conta da menor assimetria de informação e maior concorrência.

Tal transformação acaba por diminuir o mercado de intermediários locais e, portanto, muda consideravelmente a estrutura de diversos setores. Um exemplo disso são os serviços de streaming de músicas, como o Spotify ou o Deezer. Até recentemente, um artista que não tivesse uma gravadora e distribuidora dificilmente conseguiria ser ouvido para além de sua região.

Uma grande gravadora era necessária não apenas para que o artista tivesse acesso a equipamentos de última geração, mas principalmente para que a sua obra fosse gravada em um meio físico (disco, fita, CD, etc) e fosse distribuída para lojas e estações de rádio. Nos dias de hoje, um músico ou uma banda pode gravar seu disco em casa e, por meio de distribuidores independentes, inserir sua música nessas plataformas que contam com milhões de ouvintes do mundo todo e seguem crescendo[1]. Os custos da intermediação são consideravelmente mais baixos, dado que há maior concorrência e os serviços são menos complexos do que antes.

Movimento similar está ocorrendo no mercado editorial. A Amazon, responsável por 74% do mercado norte-americano de e-books (ver gráfico abaixo), permite que um autor publique e venda seus livros em formato digital por meio do seu serviço Kindle Direct Publishing, com o escritor recebendo até 70% do preço em royalties.

Apesar dos ganhos para consumidores e empresas já discutidos, esses novos serviços também levantam algumas questões. Se por um lado eles aumentam a competição para o consumidor final, parece estar havendo uma concentração nos mercados de intermediários. Num futuro próximo, é possível que artistas e escritores sejam praticamente obrigados a publicar suas músicas no Spotify ou seus livros na Amazon, sob o risco de não terem audiência fora dessas plataformas.

Com isso, esses novos intermediários virariam quase monopsônios (compradores únicos) e teriam poder excessivo para determinar quanto um autor ou artista “mereceria”. Já há diversos artistas no Brasil e no resto do mundo se queixando das divisões de lucros dos serviços de streaming. Essa pode ser a primeira de muitas batalhas, em diversos mercados.

Gráfico 1 – Participação no total de ebooks vendidos no mercado americano em 2015

[1] Alternativamente, o artista pode simplesmente disponibilizar sua música em seu site, como muitos já o fazem.

Older posts Newer posts