Economia de Serviços

um espaço para debate

Month: agosto 2015 (page 1 of 2)

Serviços de alta e de baixa produtividade

Como já destacado, o setor de serviços é bastante heterogêneo em quase todos os aspectos, incluindo a produtividade. Parte da baixa produtividade média do setor pode ser explicada pela concentração de recursos em atividades de baixa complexidade e tecnologia.

Seguindo o estudo dos dados do Sistema de Contas Nacionais de 2011, destrinchamos, na tabela abaixo, a produtividade do trabalho de 64 atividades econômicas de todos os setores. Observando os dados, percebe-se que 42 dessas atividades têm produtividade do trabalho acima da média da economia (R$ 35.247 por trabalhador). Dessas, 16 (38%) são do setor de serviços, incluindo aqueles de utilidade pública.

Essas atividades são, em geral, predominantemente prestadas de empresas para empresas e envolvem profissionais de qualificação mais alta que a média. Entre as 22 atividades abaixo da média, 12 (55%) são de serviços.

Atividades imobiliárias, o segmento de serviços mais produtivo, tem um nível de produtividade 136 vezes maior do que serviços domésticos. O problema é que este responde por 345 mil ocupações (0,4% do total), enquanto aquele responde por quase 7 milhões (7,7%).

No total, os serviços com produtividade acima da média empregam 7,3% da mão de obra brasileira, enquanto que aqueles com produtividade abaixo da média, 53,0%.

Sem dúvidas, o aumento de produtividade do setor de serviços como um todo, inclusive das atividades menos complexas, teria um impacto significativo na produtividade agregada brasileira. Mas os números abaixo mostram que a concentração em segmentos pouco produtivos é um dos principais problemas para a baixa competitividade do setor de serviços no país.

Por que a produtividade do setor de serviços é tão baixa no Brasil?

Há várias explicações para esta pergunta,  incluindo tamanho, nível tecnológico e acesso a crédito das firmas e o tamanho e a estrutura do setor de serviços.

De um lado, a produtividade do setor de serviços em geral é baixa em razão da natureza não escalável e não padronizável de muitos serviços, da forma fragmentada como eles são produzidos e fornecidos e da intensidade de uso de mão de obra.

De outro lado, os custos do setor são elevados, dentre outros, em razão da doença de custos de Baumol (Baumol 1967) associada aos efeitos nos salários do setor decorrentes da formação de salários em setores com produtividade mais elevada.

Desta forma, quanto maior for a participação dos serviços de baixo valor agregado e de baixa produtividade dentro do próprio setor de serviços e na economia, mais baixa será a produtividade agregada e mais alto será o padrão de custos da economia (Arbache 2014).

O painel A da figura abaixo mostra a participação do setor de serviços no PIB no Brasil e em países avançados e emergentes para o ano de 2011. A participação no Brasil é elevada e comparável à de países avançados. Embora a elevadíssima participação dos serviços no Brasil seja uma anomalia , ainda assim ela não é per se um problema, já que os serviços poderiam ser majoritariamente de alta produtividade.

O problema é que, conforme mostram os painéis B e C, os serviços não comerciais (*), cuja produtividade média é bem mais baixa que a dos serviços comerciais (Arbache 2015) (**), são predominantes e têm participação desproporcionalmente grande na economia para padrões internacionais.

O aumento da produtividade agregada no Brasil requer, portanto, aumento da produtividade do setor de serviços não comerciais e expansão relativa dos serviços comerciais.

Políticas regulatórias, de crédito, tecnológicas, industriais, comerciais, de formação de capital humano e de investimentos devem se coordenar para que o objetivo acima seja alcançado e para que o setor de serviços se torne um aliado, e não um inimigo da transformação estrutural e do crescimento econômico.

 

painel

Fonte: cálculo do autor a partir da WIOD.

 

(*) Serviços comerciais (I64, J e K do ISIC, Rev. 3) são correios e telecomunicações, intermediação financeira, atividades imobiliárias comerciais, aluguel de máquinas e equipamentos, TI e atividades correlatas, P&D e outras atividades comerciais.

Outros serviços são as letras E, F, G, H, I60 a I63, L, M, N e O do ISIC, Rev. 3.

Classificação da OCDE.

(**) Produtividade no setor de serviços, in F. De Negri e R. Cavalcanti (orgs), Produtividade no Brasil – desempenho e determinantes, Brasília: IPEA, no prelo, 2015.

 

Um mês de blog

Hoje, o blog completa um mês de lançamento. Neste período, o site teve mais de 5000 visualizações. Muito obrigado a todos que leem e compartilham nossos textos.

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Mais uma vez, agradecemos pelas visitas e convidamos a todos a participar do debate, seja comentando, seja escrevendo um post como convidado (caso tenha interesse, escreva-nos).
Abaixo, fazemos uma espécie de retrospectiva dos posts publicados até aqui, caso tenham perdido algum texto:

Cloud Computing: a nova face dos serviços de TI

A necessidade de armazenar e compartilhar rapidamente um grande volume de informações e softwares contribuiu para a explosão da computação em nuvem (ou cloud computing, na expressão em inglês).

Conforme o National Institute of Standards and Technology (NIST), a cloud computing pode ser definida como um modelo de acesso a rede que permite o compartilhamento de recursos computacionais. Dentre as características centrais desse modelo estão o rápido e fácil acesso ao conteúdo armazenado na nuvem a partir de qualquer lugar e de qualquer dispositivo com acesso à internet.

É nesse ambiente que a comercialização de serviços em nuvem ganha força. Basicamente, torna-se possível utilizar softwares e infraestrutura de rede para executar programas, armazenar informações, dentre outras funcionalidades, sem a necessidade de aquisição de licenças individuais, hardwares, servidores, etc. Em outras palavras, é como se o usuário alugasse o uso do recurso via rede.

Um ponto fundamental nessa temática é o ganho econômico com o uso de serviços em nuvem. Um estudo conduzido pela International Data Corporation (IDC) sobre a adoção desses serviços por empresas europeias mostrou que o uso da nuvem contribui para redução de custos com TI, maior produtividade, flexibilidade do trabalho e possibilidade de expansão para novas localidades. Não obstante, a Comissão Europeia levantou a bandeira em prol do desenvolvimento da cloud computing e sua adoção nos diversos setores da economia como estratégia para o aumento da produtividade.

As potencialidades desse modelo se refletem na rápida expansão da “nuvem”. Estimativas da IDC indicam que só em 2015 o gasto com infraestrutura de TI em nuvem crescerá 26,5%, alcançando 33,4 bilhões de dólares. Como resultado, espera-se que 76% do tráfego de data center seja realizado na nuvem até 2018 – em 2013, esse percentual era de 54%, de acordo com The Cisco Global Cloud Index (GCI). No Brasil, estima-se que dois terços das empresas investirão em cloud services em 2015, segundo pesquisa realizada pela consultoria Frost & Sullivan.

Ainda sobra espaço para muitas discussões em torno da cloud computing ao redor do mundo. Desafios como a segurança da informação e aspectos regulatórios que transcendem as fronteiras de um país são cruciais para que o modelo funcione e se dissemine ainda mais nos diversos setores produtivos.

O Setor de Serviços Paga Bem?

A resposta é: não e sim. Não, porque o salário médio do setor é baixo. De acordo com a Pesquisa Anual de Serviços do IBGE, em 2011, o salário médio do setor era de R$ 861 em valores de 2013. Sim, porque, como o setor de serviços é muito grande (70% do PIB e 73% da força de trabalho) e muito heterogêneo, então encontraremos ali desde pessoas bem remuneradas a pessoas mal remuneradas. Logo, os rendimentos podem depender bastante do segmento de serviços em que a pessoa se encontra.

A figura abaixo mostra o impacto da filiação industrial no salário esperado por setor. Ou seja, descontamos os efeitos de gênero, etnia, escolaridade, idade, tempo de experiência no emprego, função desempenhada, localização geográfica, dentre outras variáveis importantes na formação de salários para isolar o efeito de se estar filiado ao setor “X” ou “Y”.

Encontramos que, de forma geral, trabalhar no setor de serviços implica receber um prêmio salarial negativo. Isto ocorre não apenas porque os segmentos de serviços estão concentrados do lado esquerdo da distribuição, mas, também, porque é naqueles segmentos que estão grande parcela dos trabalhadores do setor.

Ou seja, se duas irmãs gêmeas com mesma escolaridade, no mesmo posto de trabalho, na mesma unidade da federação dentre outras características trabalhassem, digamos, uma no setor de limpeza urbana e esgoto (extremo esquerdo da distribuição) e outra no setor de extração de petróleo (extremo direito da distribuição), então os salários delas seriam substancialmente diferentes.

São muitas as explicações para isto, mas, dentre as principais estão estrutura de mercado e de competição, regulação de mercados, relação capital-trabalho por setor e, claro, a produtividade.

Como o setor de serviços em geral concentra empresas pequenas e em segmentos pouco produtivos e sofisticados como, por exemplo, alimentação, limpeza, comércio e alojamento, então não surpreende encontrar que o prêmio salarial no setor tende a ser negativo. Mas, como mostra a figura, há segmentos de serviços que pagam relativamente bem, como transporte aéreo e intermediação financeira.

Diferencial de salários interindustriais

Serviços e a produtividade no Brasil

Ao analisarmos a produtividade – seja ela do trabalho, do capital ou a produtividade total dos fatores – do Brasil, três fatores se destacam:

  1.  o nível de produtividade é relativamente baixo, ficando atrás de vários países emergentes;
  2.  esse nível pouco tem mudado nas últimas décadas, o que tem feito que, ao longo dos anos, fiquemos ainda mais atrás de outros países;
  3.  a produtividade brasileira é bastante desigual entre setores.

Os dois primeiros pontos podem ser observados no gráfico abaixo, no qual comparamos a produtividade do trabalho brasileira com a de outros países. Nele, vê-se claramente que a produtividade brasileira é mais baixa do que a de países como Argentina, México e Chile, e provavelmente será ultrapassada em breve por Peru e China.

Outro fato preocupante é ver que Coreia do Sul e Chile tinham praticamente a mesma produtividade que o Brasil em 1985 e hoje têm entre 2 e 2,5 vezes o nível brasileiro. No período de 30 anos, nossa produtividade cresceu cerca de 0,7% ao ano, muito pouco para um país de renda média.

Produtividade do trabalho em US$ de 2014 PPP por trabalhador em países selecionados – 1985-2015

Fonte: Elaboração própria a partir da Total Economy Database (OCDE, 2015).

Fonte: Elaboração própria a partir da Total Economy Database (The Conference Board, 2015).

Os motivos para essa baixa e estanque produtividade são vários, desde limitações sistêmicas – infraestrutura falha, alto custo da mão de obra, burocracia, etc. – e limitações internas às empresas (o chamado “chão de fábrica”) – empregados pouco qualificados, métodos de gestão atrasados, pouco investimento em P&D, alta rotatividade do trabalho, etc.

Porém, um fator que não pode ser ignorado é o terceiro ponto do início do texto. Como é possível observar na tabela abaixo, a produtividade brasileira é bastante heterogênea entre setores, e serviços têm produtividade menor que a de outros setores como a indústria manufatureira.

O problema é que os serviços respondem por quase 60% da mão de obra pelas Contas Nacionais e são insumo fundamental dos demais setores (mais da metade do consumo intermediário da indústria). Logo, não será possível aumentar a produtividade agregada da economia sem tornar nossos serviços mais produtivos e competitivos.

Produtividade do trabalho e participação na mão de obra por setor – 2011

Setor* Produtividade do trabalho (VAB/PO) Participação na mão de obra
Agropecuária 13,254 17.0%
Indústria extrativa 565,153 0.3%
Indústria manufatureira 45,183 13.3%
Energia elétrica, gás natural, água e outras utilidades 136,708 0.9%
Construção civil 28,768 9.6%
Serviços 36,777 58.9%

*Não inclui o setor público.      Fonte: Elaboração própria a partir do Sistema de Contas Nacionais (IBGE, 2015).

Qual é a Grande Novidade Trazida pelo UBER?

A polêmica, aqui e além-mar, associada ao UBER é própria de mudanças de paradigmas tecnológicos de gestão e de produção – lembre-se dos Luddites durante a revolução industrial inglesa, que destruíram teares por medo de perderem seus empregos.

UBER, Amazon, Hotel.com, Decolar.com, Netflix e muitos outros serviços disponíveis na internet seriam parte daquilo que vem sendo chamado por autores como Paul Mason de “infocapitalismo”, qual seja, negócios que se beneficiam das novas tecnologias de comunicação e da superconectividade para explorar falhas de mercado (pense nos serviços de taxi de qualidade duvidosa), mercados latentes associados à ociosidade de recursos produtivos e de ativos (pense no Airbnb) e mudanças nas necessidades e nas preferências das pessoas e empresas (pense no e-commerce).

Qual seria, então, a grande novidade trazida pelo UBER? O UBER não é propriamente uma novidade do ponto de vista tecnológico, já que há outras plataformas similares no mesmo setor e em outras áreas de negócios. O UBER também não é uma novidade do ponto de vista de proposta de compartilhamento e de modelo de negócios, já que o que ele busca é desafiar um modelo de monopólio no transporte público individual que beneficia somente os donos de licenças de taxis para, se deixar, instalar o seu próprio monopólio.

A novidade associada ao UBER é, isto sim, a profunda mudança na natureza da prestação de serviços. Serviços que até então eram tidos como convencionais e fornecidos localmente “face-to-face” pelo Seu João do ponto de táxi da esquina estão se transformando em commodities fornecidas internacionalmente. Afinal, o cliente interage e paga a um prestador de serviços que está na Califórnia.

De outra forma, até mesmo serviços que eram classificados pelos economistas de “não comercializáveis” (protegidos da concorrência internacional) estão passando à categoria de “comercializáveis” (expostos à concorrência internacional). Isto era algo impensável até muito recentemente e é revolucionário do ponto de vista conceitual e indica que a globalização está definitivamente atingindo a todos os mercados.

Os UBER da vida sinalizam as mudanças profundas que ainda estão por vir. As repercussões no funcionamento dos mercados, na competição, nas finanças públicas (pense na carga tributária), nas contas externas (pense na transferência de milhões de dólares entre países), no mercado de trabalho e nas relações entre consumidores e prestadores de serviços são grandes e requerem reflexão.

Independentemente do que vier a acontecer com o UBER, as mudanças que ele trouxe provavelmente vieram para ficar e teremos que nos preparar para elas. Ao Estado, caberá desenvolver e adaptar a sua capacidade regulatória aos novos desafios, ao tempo em que fomenta a competição e encoraja start-ups e novos modelos de negócios. Ao consumidor, caberá defender a competição e a qualidade dos serviços, sem perder de vista que o que está em jogo não é somente uma corrida de táxi até o shopping do bairro.

Serviços e Comércio Exterior: A Relevância da Importação de Serviços para a Indústria e suas Exportações

Na última década, o comércio mundial em serviços dobrou. Além disso, apesar de responder por menos de um quarto do comércio total, os serviços, como insumos, representam 45% do valor agregado dos bens exportados no mundo.

No Brasil essa tendência também é visível. O país triplicou suas exportações do setor na última década e subiu de 37º maior exportador para 31º no ranking mundial. No entanto, as importações brasileiras de serviços tiveram um incremento ainda maior, de 5 vezes, e o país subiu 13 posições como maior importador, de 30º para 17º. Essa assimetria levou o Brasil a um déficit de US$ 46 bilhões em 2014.

Ranking Brasil como exportador no mundo
  2005 2014
Bens manufaturados 27º 31º
Serviços 37º 31º
 Fonte: OMC

O que fazer com o déficit grande na balança comercial de serviços?

Para responder essa pergunta é preciso levar em conta que os serviços representam cerca de 56% do custo para agregação de valor da produção industrial. Em adição, os serviços sobre o valor agregado dos bens exportados alcança, segundo dados do TiVA da OCDE, o valor de 40%, muito maior do que as exportações contabilizadas como de serviços.

O que se pode afirmar a partir disso é que restringir a importação de serviços não é o caminho mais interessante.

Várias empresas de ponta no Brasil precisam de serviços importados para viabilizar suas exportações, como aluguel de equipamentos para o setor extrativo ou garantia de peças para empresas de caminhões, ônibus e aeronaves. Mais importante, é que muitas vezes esses serviços não competem com serviços ofertados dentro do país, pois são necessariamente consumidos no local de destino das exportações de bens.

Mesmo assim, devido à distorções do sistema tributário brasileiro, qualquer operação de importação de serviços no Brasil encara uma carga tributária que varia entre 41% e 51%.

Competir melhor com suas exportações de bens e inserir se mais e melhor nas cadeias globais de valor demandam do Brasil uma política comercial ativa em serviços e a revisão da tributação nas importações neste setor.

O caminho é promover mais as exportações de serviços do Brasil no exterior e ter uma política industrial ativa para melhorar a oferta interna. Onerar as importações de serviços, muitas vezes, significa onerar as exportações de bens.

Foto FabrizioFabrizio Panzini é Mestre em Economia Política pela PUC-SP e Especialista em Políticas e Indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Redução de vagas nos serviços aumentará taxa de desemprego

Nos últimos anos, vem ocorrendo uma clara mudança na dinâmica de criação de empregos no país, conforme apresentado no gráfico abaixo. A rápida verificação do movimento de trabalhadores admitidos menos os desligados indica que, a partir de 2010, o saldo de emprego passou a ser cada vez menor. Apesar disso, a geração de vagas ainda foi suficiente para reduzir a taxa de desemprego, que alcançou a taxa mínima histórica em dezembro de 2014 (4,3%).

A situação mudou quando a economia perdeu capacidade de gerar saldos positivos de postos de trabalho. Em um primeiro momento, foi o setor industrial que apresentou indícios da dificuldade de manter o nível de emprego, registrando saldo negativo ao final de 2014. No entanto, ainda assim a taxa de desemprego se manteve baixa em razão da geração de empregos no setor de serviços, que compensou a redução das vagas na indústria.

Mas, em 2015, essa compensação deixa de acontecer. Dados de janeiro a junho mostram que o setor de serviços já acumula saldo negativo de quase 157 mil postos de trabalho. Com isto, o setor que mais gerava vagas no país mudou de tendência, evidenciando um potencial aumento do desemprego nos próximos meses.

Dinâmica do Emprego

Gráfico emprego

Fonte: PME/IBGE e CAGED/MTE. Elaboração própria.

Economia colaborativa (?)

Como discutido previamente em post sobre o Uber, a natureza dos serviços está em constante mutação. Se, antes, serviços como transportes individuais eram considerados non-tradables, hoje, uma empresa estrangeira compete diretamente com taxistas brasileiros. Exemplos similares são o Netflix, que concorre com locadoras (embora se possa contestar se estas já não estariam extintas), AirBnB com hotéis, e o Coursera com empresas de capacitação. Os exemplos não se encerram aí e estão nos mais diversos setores, como indicado por Jeremiah Owyang (ver abaixo).

Nesse contexto, o consumidor se beneficia de maior oferta de serviços e de maior competição, o que leva a mais variedade e a menores preços. Do ponto de vista da oferta, essas plataformas também abrem caminhos para que mais empreendedores e freelancers entrem no mercado, provendo “caronas” pagas, leitos e outros serviços.

Entretanto, o crescimento da chamada “economia colaborativa” incita algumas questões. Como apontado por Olivier Blanchard, essas empresas, em geral, atuam em desigualdade de concorrência com as locais. Por mais que seja conveniente alugar uma casa durante as férias, os imóveis listados no AirBnB não precisam passar pelo mesmo tipo de vistorias e nem pagam os mesmos impostos que as pousadas licenciadas.

Fundamentalmente, as pessoas não estão “colaborando” ou “compartilhando” umas com as outras, mas, sim, vendendo e comprando serviços através de aplicativos. Logo, o que se costuma chamar de “economia colaborativa” ou “economia compartilhada” estaria mais próximo de uma economia de serviços baseada em micropagamentos feitos em grandes plataformas que costumam trespassar regulações. Não se trata, portanto, de uma economia genuinamente colaborativa.

Na velocidade em que as mudanças estão ocorrendo na área de serviços, o Estado deveria ser mais ágil para atualizar marcos regulatórios de forma a não prejudicar nem consumidores, nem prestadores de serviços.

Nesse contexto, o caso do Uber é exemplar. Não se pretende, evidentemente, condenar ideias inovadoras ou novas formas de se fazer negócios, essenciais para o crescimento de longo prazo. A questão fundamental é que, se o serviço de taxi não fosse tão cartelizado e repleto de barreiras de entrada, os taxistas possivelmente estariam em melhores condições de competir com inovações como o Uber.

Portanto, é essencial tornar os mercados de serviços mais competitivos, com empresários e empregados mais capacitados e com diminuição de custos de transação e de barreiras de entrada. Somente assim prestadores de serviços tradicionais terão condições de competir com os “Uber da vida” e os consumidores poderão usufruir dos benefícios das novas tecnologias e formas de prestação de serviços.

Exemplos de empresas da “economia colaborativa”, por áreas (clique na imagem para ver em maior resolução).

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