No século XXI, as empresas estão cada vez mais conectadas e interdependentes, com a produção crescentemente descentralizada. Se no começo do século XX uma empresa automobilística como a Ford produzia internamente desde o aço até o carro, nos dias atuais, a Boeing produz em suas fábricas menos de um terço do seu último modelo de avião comercial, o Dreamliner.

Esse fenômeno de descentralização está intimamente ligado ao aumento de serviços na economia, que têm participado cada vez mais do processo produtivo de outros setores, como insumos. Veja, por exemplo, o caso do iPhone e do iPad: a Apple é responsável pelo planejamento e design dos produtos, desenvolvimento de software e marketing, enquanto a fabricação das peças é quase toda realizada por outras empresas na Ásia. Todas as atividades realizadas pela Apple nos processos citados são inerentemente de serviços, e a empresa americana é responsável por 80% dos lucros do iPhone e 64% dos lucros do iPad (ver interessante estudo de Kraemer, Linden e Dedrick, 2011).

Em trabalho de nossa autoria (Arbache & Moreira, 2015), mostramos que, em geral, quanto mais a indústria de um país consome serviços em seu processo produtivo, maior será sua produtividade. O gráfico abaixo, com dados de 1995 a 2009, demonstra isso claramente. Para ver essa relação ao longo dos anos, basta arrastar o a barra acima do gráfico.

Fonte: Arbache e Moreira (2015) com base em WIOD (2015).

Esses dados suscitam uma pergunta instigante: o que é mais importante para um smartphone ou tablet – o produto ou os serviços atrelados a ele? Na realidade, a resposta parece estar no meio do caminho: o smartphone precisa de software e design para ter valor, assim como esses serviços precisam de uma plataforma para existir.

Tal panorama implica que tornar os serviços brasileiros – normalmente caros e de baixa qualidade – mais eficientes e competitivos, principalmente aqueles que mais agregam valor a outros negócios, como design, engenharia de ponta, desenvolvimento de softwares, etc, teria impacto não apenas neles mesmos, mas na economia como um todo.

No passado, países se desenvolveram se industrializando. No século XXI, o desafio do desenvolvimento exigirá novas soluções, e é provável que fortalecer a indústria, somente, não baste. Para se desenvolver, o Brasil terá que tornar seus serviços competitivos internacionalmente e trabalhar para que eles agreguem mais valor às cadeias produtivas de outros setores como a indústria e o agronegócio.

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