Economia de Serviços

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A Armadilha da Renda Média no Espaço-Indústria

A armadilha da renda média é um fenômeno que foi cunhado na literatura econômica em meados da década de 2000. Inicialmente, o termo foi utilizado para definir o processo comumente observado de diminuição do crescimento de uma economia quando esta se desloca da renda baixa para a média. Nesse processo, os fatores que geralmente impulsionam o crescimento – mão-de-obra barata, catch-up tecnológico e realocação estrutural da agricultura para a manufatura – perdem momentum, ao longo do desenvolvimento econômico, forçando o país a estabelecer novas fontes de crescimento quando a economia atinge a renda média.

Desde que fora sugerido, o termo ganhou tração no mundo acadêmico e na imprensa internacional, porém sem haver consenso sobre sua validade. O apelo e a controvérsia desse fenômeno devem-se à ausência de uma teoria que satisfatoriamente aponte políticas de desenvolvimento para economias de renda média. As teorias de crescimento endógeno são adequadas apenas para países de renda alta – que somam um bilhão de pessoas – e o modelo de Solow ainda é a base para entender o problema do crescimento nos países de baixa renda – também com um bilhão de pessoas. Nenhuma dessas teorias é satisfatória, entretanto, para os cinco bilhões remanescentes, que vivem em economias de renda média. Ironicamente, como os próprios precursores do termo afirmam, a real armadilha do tema seria a ignorância sobre a natureza do crescimento econômico na maior parte do globo.

Pensar a armadilha da renda média sob a ótica do espaço-indústria pode lançar luz sobre a questão.

A variável de interesse do espaço-indústria é a densidade industrial, ou seja, o valor adicionado da indústria per capita. Essa variável captura a capacidade de uma sociedade de investir em capital físico e humano, garantir as necessidades de infraestrutura e P&D, reformar instituições e gerenciar esses recursos para fomentar o desenvolvimento industrial, espelhando, enfim, o nível de desenvolvimento de uma economia.

Os países iniciam suas jornadas de desenvolvimento industrial na região R1 da Figura 1, abaixo. Nessa região, a economia ainda é essencialmente rural, com baixas taxas de urbanização e alta participação da agricultura no PIB. À medida que o fenômeno de urbanização ocorre, cresce a demanda por produtos industriais básicos. A região R2 caracteriza, portanto, a fase de desenvolvimento em que a indústria de base, manufaturas de baixo valor adicionado e serviços tradicionais substituem a agricultura como principal vetor de produção da economia.

Ocorre que a expansão das indústrias básicas e leves é ditada por retornos decrescentes provenientes do processo de crescimento baseado em acumulação de capital. Ao mesmo tempo em que esse processo possibilita a transformação da economia de renda baixa para a média, sua contribuição marginal para o PIB esvai-se ao longo do processo de expansão industrial. Atinge-se um ponto de inflexão no espaço-indústria no qual o simples aumento da parcela da indústria no PIB não é capaz de ampliar a densidade industrial. Nesse momento, é comum registrar economias que começam processo de desindustrialização.

Para seguir se desenvolvendo, o país deve diversificar-se em favor de bens e serviços mais sofisticados. Ao invés de majoritariamente transformar insumos, a indústria deve passar a demandar serviços logísticos, financeiros, projetos de engenharia, marketing, e diversas outras atividades de apoio. A armadilha da renda média recai justamente na dificuldade em alterar a função da indústria na economia, que deverá se transformar não só no principal conector entre os setores econômicos, mas também em catalizador de serviços de alto valor adicionado.

Se a economia obtiver sucesso ao produzir essa nova dinâmica do desenvolvimento industrial, a armadilha da renda média será superada, alcançando-se as regiões R3-R4. Nesse momento, a indústria ainda desempenha função central na economia, mas o setor deixa de ser o principal gerador direto de valor adicionado, dando lugar aos serviços profissionais e comerciais. É comum haver redução da participação relativa da indústria no PIB, apesar do rápido crescimento da densidade industrial. Consolida-se uma relação simbiótica entre indústria e serviços, típica de modelos de crescimento endógeno, gerando bens que não seriam propriamente categorizados em nenhum desses setores.

Como mostra a Figura 2, Brasil, China e Estados Unidos são casos representativos das regiões de desenvolvimento industrial mencionadas acima. Nos últimos anos (2000-2014), nossa economia não superou a armadilha da renda média e está retornando da R2 para a R1. A indústria brasileira não conseguiu abraçar a função de catalizadora de serviços complexos no seu processo de desindustrialização, minando o crescimento da densidade industrial. Resta-nos imaginar maneiras de realizar um leapfrogging em uma próxima janela de oportunidade.

A potência asiática, situada na R2, aumentou a importância dos serviços profissionais e comerciais na sua economia, com ligeira desindustrialização, o que permitiu aumento vertiginoso da densidade. Entretanto, a China ainda terá de superar muitos desafios para completar seu processo de desenvolvimento. Os Estados Unidos seguem na R4 e são o melhor exemplo da relação simbiótica entre indústria e serviços, liderados por suas superestrelas. O país possui as sete empresas mais valiosas do mundo, sendo cinco delas pertencentes ao setor tecnológico: Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon.

O desafio do desenvolvimento para economias de renda média não é trivial. Faltam a nós, economistas, ferramentas para compreender melhor a natureza do crescimento econômico nesse estágio de desenvolvimento. Refletir esse fenômeno sob a ótica do espaço-indústria não representará uma panaceia, mas poderá esclarecer alguns pontos que escapam à vista e, quem sabe, impedir que essa armadilha seja fatal.

Boletim de Serviços – Setembro de 2017

O Boletim de Serviços de setembro de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • O volume do setor de serviços registrou queda de 2,8% em julho na comparação anual, com destaque positivo para os serviços tradicionais (3,5%).
  • A inflação de serviços acumulada em 12 meses seguiu alta, chegando a 5,4% em agosto, consideravelmente acima do IPCA geral (2,5%).
  • O setor de serviços foi o que apresentou o resultado mais positivo na geração líquida de emprego em julho, tendo criado 15,1 mil novas vagas, com destaque para os serviços para empresas (14,5 mil vagas criadas).
  • A balança de serviços seguiu apresentando déficit no mês de junho, de US$ 3,0 bi.

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: http://economiadeservicos.com/boletim.

Ainda haverá emprego no futuro?

Muito tem se discutido sobre o futuro do trabalho (e do emprego) com a ascensão de tecnologias, como a Inteligência Artificial e a automação, que seriam poupadoras de mão de obra, além do crescimento da importância da chamada “gig economy”, ou “economia de bicos”, muito por conta do surgimento de aplicativos como Uber e AirBnb que possibilitam o aproveitamento de ativos e mão de obra subutilizados. No Brasil, somam-se a isso o processo de flexibilização do mercado de trabalho e a quase universalização da terceirização por meio da Lei 13.429/2017.

Todos esses movimentos apontariam para um futuro no qual poucas pessoas teriam uma ocupação e menos pessoas ainda teriam um emprego formal. Disso, surgem várias discussões sobre formas de atenuar os impactos sociais de tamanha transformação. Entre as soluções sugeridas estão a introdução da renda básica universal e a taxação do uso de robôs, defendida por figuras como Bill Gates.

Há, por outro lado, especialistas que defendem que, assim como o emprego não acabou (pelo contrário) com a introdução de tecnologias disruptivas como a máquina a vapor e a eletricidade no passado, ele também não acabará com o aumento da automação dos processos produtivos. Em um interessante Ted (ver abaixo), o economista David Autor, do MIT, apresenta um dado impressionante: desde a introdução do caixa eletrônico (ATM), há quase 50 anos, o número de caixas humanos praticamente dobrou nos EUA.

Para Autor, dois simples fatos garantiriam o futuro do emprego no mundo: a criatividade e a insaciabilidade humanas. Sobre o primeiro fato, ainda utilizando o exemplo dos ATMs, em um primeiro momento, o número de caixas (humanos) por agência bancária nos EUA caiu em um terço. Porém, como ficou mais barato manter agências, o número delas aumentou em 40% no curto prazo. Como resultado, o número de agências e de caixas humanos aumentou. A única diferença foi que esses caixas passaram a fazer trabalhos diferentes, focando mais na venda de serviços e no relacionamento do cliente do que nas atividades repetitivas que poderiam ser feitas pelos ATMs. Na leitura de Autor, à medida que as tarefas repetitivas vão sendo automatizadas, o papel daquelas tarefas menos automatizáveis, ligadas à criatividade, à resolução de problemas e às habilidades inerentemente humanas, tornam-se ainda mais relevantes, por serem os “elos fracos” da cadeia (pois estão mais sujeitas a erros).

Esse primeiro fato garantiria que haverá alguns empregos no futuro. O segundo fato, o da insaciabilidade humana, garantiria que ainda haverá muitos empregos no futuro. Muitos dos produtos e serviços nos quais gastamos nosso dinheiro nos dias de hoje não existiam ou eram muito caros há poucas décadas (em alguns casos, até poucos anos): smartphones, computadores, ar condicionado, turismo de aventura, etc. Ao poupar tempo, a automação abre espaço para a criação de novos produtos e serviços, que, por mais que muitos deles pareçam frívolos, a maior parte das pessoas deseja obtê-los. Segundo dados apresentados por Autor, um trabalhador médio americano ganha três vezes mais do que há um século, mas ainda assim não se sente saciado.

Por mais otimista que seja essa visão, ela parece ser insuficiente para o contexto brasileiro e de outros países em desenvolvimento. Em primeiro lugar, a maior parte das tecnologias que possibilitam a automatização é criada em países desenvolvidos. Se é verdade que a maior parte do emprego será em áreas que exigem criatividade e capacidade de resolução de problemas e boa parte dos empregos brasileiros estão em atividades com possibilidade de automação, será que conseguiremos migrar para essa nova economia?

Como já discutido aqui no blog com relação às novas tecnologias, a maior parte do valor não está no uso delas, mas sim na sua criação e controle. Como podemos fugir das armadilhas da commoditização digital? Estudo da McKinsey aponta que cerca de 50% dos empregos brasileiros têm potencial de serem automatizados no futuro. Por ser um problema novo, não há resposta certa para isso, mas esse deveria ser o centro das discussões sobre a competitividade da economia brasileira nos próximos anos.

Serviços de saúde: cada vez mais on-line

Em artigo anterior, abordei a expansão do uso da telessaúde no Brasil, inclusive por universidades e hospitais públicos, permitindo a disseminação do conhecimento para regiões com menos acesso. A cada ano essa modalidade de ensino e compartilhamento de informações para ajudar no aprendizado e diagnósticos de doenças tem aumentado, auxiliando os médicos e pacientes em todo país.

Além da telessaúde, outras ferramentas digitais têm sido amplamente empregadas para auxiliar pacientes e médicos na prestação de serviços para saúde. De acordo com pesquisa realizada pelo SEBRAE, as startups de serviços são as mais buscadas pelos investidores (97%). Entre os serviços, destacam-se os serviços de saúde, com quase 30% da preferência.

O atendimento de pacientes para diagnóstico e tratamento on-line não é permitido atualmente, mas aplicativos e outras ferramentas podem ser utilizados para outros serviços relacionados à saúde, como o monitoramento dos pacientes, agendamento de consultas, histórico médico, etc. Além de diminuir os custos, essas ferramentas contribuem com a organização e economia de tempo (tanto do paciente como do serviço médico).

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem utilizado o sistema de envio de mensagens por SMS para agendar consultas de pacientes, lembrá-los do agendamento e monitorar pacientes crônicos (com diabetes e hipertensão). No monitoramento, o SMS é enviado aos pacientes cadastrados, que devem responder à mensagem informando sua pressão arterial ou seu nível de glicose. Com a informação em mãos, o serviço de saúde pode orientá-lo a procurar o posto médico mais próximo para orientações ou passar dicas de exercícios ou nutrição.

O envio de SMS custa ao governo entre R$ 1,50 e R$ 2,00 por paciente, por mês. Um custo baixo que pode auxiliar os médicos do serviço de saúde a monitorar seus pacientes mais críticos, sem a necessidade desses se deslocarem até o local. Esse método pode auxiliar a desafogar os ambulatórios que recebem milhares de pessoas diariamente, além de agilizar os atendimentos aos pacientes críticos, uma vez que os registros geram o histórico.

Há também aplicativos desenvolvidos com o intuito de aproximar médicos e pacientes, onde quer que estejam. Esses aplicativos permitem a “contratação” de especialistas que visitam os pacientes em casa ou em consultórios próximos à localização do paciente, facilitando o atendimento e o tratamento de casos menos graves. Além de atendimento médico, esses aplicativos disponibilizam uma rede integrada de laboratórios, fisioterapeutas e cuidadores.

Em um país como o Brasil, que passa por um processo de envelhecimento de sua população, serviços desse tipo facilitam o atendimento de idosos. Em muitos casos não há como deslocar a pessoa idosa, e o aplicativo permite o deslocamento do especialista. De certa forma, esses aplicativos ajudam na prestação do serviço de saúde suplementar. Tornam-se alternativas viáveis às pessoas que não podem arcar com os custos de um plano de saúde, mas podem pagar por uma consulta com preço mais baixo.

As operadoras de serviços de saúde também se utilizam dessas ferramentas. Visando a comodidade dos clientes, os prestadores de serviços disponibilizam aplicativo com a rede credenciada, a possibilidade de agendamento de consultas, boleto virtual, além de instrumentos de promoção da saúde (como contador de passos, alimentação saudável, etc.). Há ainda o uso de aplicativos gerenciais, que auxiliam as operadoras do serviço a gerenciar seus fluxos. Isso é de grande valia para empresas de menor porte. De certa forma essas ferramentas contribuem para respostas mais imediatas aos pacientes/clientes, podendo agregar ainda mais valor ao serviço prestado.

Outra modalidade de serviço digital para saúde é o de diagnóstico. Além daqueles aplicativos já bastante conhecidos que medem frequência cardíaca e temperatura, uma nova tecnologia portátil deve chegar ao mercado, diagnosticando de maneira rápida e precisa doenças a partir de um exame de sangue. Uma gota de sangue colocada em um dispositivo que captura imagens em alta resolução conta as células e identifica anomalias. O equipamento portátil está em análise pelo FDA, agência reguladora dos EUA, e deve ser aprovado para uso em breve.

A tecnologia tem agregado muito valor aos serviços de saúde, agilizando diversos processos, auxiliando na organização (tanto de empresas como de clientes) e facilitando o diagnóstico de doenças e os tratamentos. Ainda tem reduzido custos do serviço, o que permite uma ampliação do atendimento. Há grande expectativa de que a tecnologia seja cada vez mais agregada aos serviços de saúde, dando maiores oportunidades aos usuários desse importante serviço.

O que os últimos resultados do PIB apontam

Na última semana, o IBGE divulgou os resultados mais recentes do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais. Como foi bastante noticiado, ao apresentar dois trimestres consecutivos de crescimento positivo, a economia brasileira saiu oficialmente da recessão, depois de dois anos.

Apesar da boa notícia, o crescimento modesto (0,2% em relação ao primeiro trimestre) não foi uniforme. O setor de serviços, responsável por quase 75% do PIB, foi o que registrou maior crescimento trimestral – 0,6% – com destaque para o segmento de comércio (1,9%). Esse resultado foi puxado principalmente pela volta do crescimento do consumo das famílias (1,4%), fruto da queda do desemprego e de uma maior estabilidade do rendimento médio real da população.

Ainda no setor de serviços, outros segmentos além do comércio mostraram crescimento positivo no período, também puxados pelo aumento da demanda interna: Atividades imobiliárias (0,8%); Outros serviços (0,8%); e Transporte, armazenagem e correio (0,6%). Geram preocupação os segmentos de Serviços da informação (-2,0%); o setor público (-0,3%); e Intermediação financeira e seguros (-0,2%). Todos estes segmentos apresentaram queda de atividade com relação ao primeiro trimestre.

Além desses segmentos, preocupam também o crescimento nulo da agropecuária (após um primeiro trimestre atípico) e o resultado negativo da indústria (-0,5%) (após um primeiro trimestre positivo), além da quarta queda consecutiva do investimento (Formação bruta do capital fixo) (-0,7%), o que pode gerar restrições no crescimento futuro.

Em suma, há motivos para acreditar que o pior da crise já passou, mas também não faltam razões para se preocupar. Para além das questões conjunturais, é preciso pensar em meios de tornar a economia brasileira definitivamente mais competitiva e menos sujeita aos “voos de galinha”. Preparar as novas gerações para as habilidades do século XXI e colocar os serviços e os desafios da economia digital no centro dos debates será fundamental para isso.

 

A economia do Japão e o setor de serviços

O que explica a longa estagnação da economia japonesa? Obviamente, existem explicações diversas. O objetivo deste post é o de adicionar um pouco de luz num aspecto sintomático da estagnação: o padrão e o comportamento do setor de serviços.

Vários indicadores podem ser empregados para ilustrar a estagnação da economia japonesa. O gráfico abaixo mostra dois desses indicadores. O primeiro, o de densidade industrial (Arbache 2012); o segundo, o índice de complexidade de Hausmann-Hidalgo. Esses indicadores sugerem inequívoca tendência de queda da competitividade da indústria manufatureira japonesa.

De acordo com a literatura de espaço-indústria (Arbache 2012), a variável-chave da transformação econômica é a capacidade da manufatura elevar a densidade industrial. Essa capacidade não se revela pela participação da manufatura no PIB, mas pela sua capacidade de desenvolver uma relação sinergética e simbiótica com os serviços para, juntos, agregarem valor (Arbache 2017).

De fato, evidências empíricas internacionais mostram elevada e crescente parcela de serviços e inovações “embarcados” em bens manufaturados. Tratam-se de P&D, marcas, design, distribuição, projetos, softwares customizados, funcionalidades e conectividade, marketing, entre outros tantos serviços que diferenciam, agregam valor e conectividade ao bem tangível. Serviços de custos, como logística e serviços financeiros convencionais, são importantes, mas não diferenciam produtos e nem agregam valor.

Para agregar valor, a economia precisa ter um setor de serviços capaz de responder às demandas da indústria por novas soluções e de apoiar o desenvolvimento de novos modelos de negócios.

O que se observa no caso japonês? Observa-se estagnação da participação dos serviços comerciais profissionais no PIB (professional business services – PBS), que são os serviços que agregam valor à indústria. Observa-se, também, aumento da participação do setor de serviços no PIB. Logo, a participação do PBS no setor de serviços está contraindo, enquanto que os demais serviços, incluindo os voltados para o consumo, estão vendo a sua participação na economia aumentar.

Essas tendências vão na direção contrária do que se observa em economias mais dinâmicas, como Estados Unidos e Alemanha (e China, mais recentemente), em que o nível do PBS no PIB é mais elevado e segue crescendo.

Indicadores internacionais de conectividade são reveladores em razão da sua relação com o PBS. O indicador de conectividade da McKinsey Global Institute, por exemplo, mostra que o Japão está numa longínqua 24ª posição no ranking atrás, inclusive, de países emergentes asiáticos. Os Estados Unidos estão na terceira posição, a Alemanha na quarta e a China na sétima posição. Os componentes do indicador da McKinsey que mais explicam as diferenças entre o Japão e os três países são fluxo de serviços, fluxo de dados e fluxo de pessoas, fatores comumente presentes nas economias mais abertas e dinâmicas e associados à capacidade de desenvolvimento de serviços sofisticados e novos modelos de negócios.

A economia japonesa talvez só não esteja em situação ainda mais desafiadora em razão do elevado estoque de capital per capita que tem e do ainda elevado nível de densidade industrial da sua economia.

As características estruturais da economia do Japão sugerem insistência num modelo econômico tradicional incompatível com o nível do seu PIB per capita e que, claramente, já demonstra retornos decrescentes. Para avançar, o Japão terá que considerar adotar uma visão muito mais ampla e aberta de manufatura. Para isto, terá que aprofundar o entendimento acerca do imperioso papel dos serviços para a competitividade e a criação de valor industrial.

Notas sobre o gráfico: Densidade industrial: valor adicionado da manufatura per capita (em US$), eixo da esquerda. Fonte: calculado com dados do World Development Indicators.

%Manuf-PIB: participação percentual da manufatura no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

%PBS-PIB (professional business services): participação percentual dos serviços comerciais profissionais no PIB; consideram-se os serviços especializados destinados às cadeias de produção tais como correios e telecomunicações, intermediação financeira, atividades imobiliárias comerciais, aluguel de máquinas e equipamentos, TI e atividades correlatas, P&D e outras atividades comerciais profissionais, eixo da direita. Fonte: World Input-Output Database.

%Serviços-PIB: participação percentual dos serviços no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

Indicador de complexidade (0-1). Eixo da direita. Fonte: Atlas of Economic Complexity

De onde virão os empregos?

Uma das perguntas mais relevantes deste início de século XXI é: de onde virão os empregos?

A pergunta é mais que pertinente em razão da commoditização digital, que está fazendo com que bens de capital e tecnologias super-sofisticados, como robôs e impressoras 3D, inteligência artificial, internet das coisas, computadores e softwares avançados e até aplicativos disponíveis na Internet experimentem queda de preço e popularização jamais registrados.

Mudanças nos modelos de negócios dos produtores e desenvolvedores desses bens de produção tangíveis e intangíveis, que passaram a mirar o efeito-rede e o efeito-plataforma, e crescimento dos serviços na composição do valor agregado, estão entre as causas primárias daquela popularização. A tendência é que a commoditização digital siga avançando a passos ainda mais largos ao longo dos próximos anos.

Essa mudança é transformadora para o emprego por várias perspectivas. Neste post, tratamos de uma delas: o desenvolvimento econômico.

Um dos atrativos dos países em desenvolvimento para investidores é o custo relativamente baixo da força de trabalho. No entanto, a combinação de commoditização digital com mudanças nas preferências dos consumidores, que exigem cada vez mais bens e serviços customizados e de fornecimento (quase) instantâneo, entre outros fatores, estão desafiando a capacidade daqueles países de competir por investimentos estrangeiros, mesmo que para produzir bens relativamente simples, como têxteis e calçados.

Considere o caso das camisetas esportivas. A Adidas passará a produzir nada menos que 800 mil camisetas por dia numa nova planta industrial a partir do emprego de robôs, impressoras 3D e computadores. Vinte e dois segundos será o tempo de produção de cada camiseta. Detalhe: a planta fabril será em Little Rock, Arkansas. Com a automação, o custo da força de trabalho por camiseta será de 33 centavos de dólar (trinta e três!). Serão criados um total de 400 empregos naquela que será a maior planta de camisetas esportivas do mundo.

A produção de outros itens simples também está voltando para “casa”. A Adidas decidiu iniciar produção de calçados esportivos na cidade bávara de Ansbach e em Atlanta a partir da instalação de fábricas também supersofisticadas e automatizadas. A Nike não está atrás e também já decidiu produzir calçados esportivos nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos onde estão os seus principais mercados.

Hoje, fábricas da Adidas, Nike, Zara e outras tantas marcas globais estão concentradas em países como Vietnam, Tailândia, Laos, Indonésia, El Salvador e outros países em desenvolvimento. A produção responde por parcela importante do emprego formal, receitas tributárias e exportações daqueles países. Em El Salvador, por exemplo, os têxteis representam nada menos que 45% do total das exportações.

Mas é muito provável que esse cenário se altere significativamente nos próximos anos.

De fato, estamos presenciando uma profunda transformação da geografia da produção que terá efeitos sem precedentes para os países em desenvolvimento. Força de trabalho e mesmo incentivos fiscais e subsídios muitas vezes oferecidos para atrair investidores estão perdendo relevância em favor de novas tecnologias de produção e de gestão da produção e proximidade dos mercados consumidores. De outra forma, fatores de custo estão definitivamente perdendo espaço para tecnologias.

De onde, então, virão os empregos? Virão, majoritariamente, do desenvolvimento, distribuição e gerenciamento de plataformas digitais, inovações, tecnologias, design, marcas e outros fatores intangíveis e da gestão de cadeias de valor. Milhões de empregos já estão sendo criados nessas áreas em países como Estados Unidos e Alemanha e até na China, que entendeu a transformação em curso e nela se engajou de corpo e alma. Não é propriamente no chão de fábrica, mas no “entorno” dela que estará a criação de empregos.

E os países em desenvolvimento? É muito provável que eles se defrontem com desafios jamais vistos para criar empregos. Agendas de custos baixos já não serão suficientes. Capital humano, ambiente de negócios, fomento ao empreendedorismo e maior acesso a commodities digitais serão parte da solução, mas também não serão suficientes.

A esta altura, soluções muito mais complexas e sofisticadas terão que ser exploradas, como a industrialização das vantagens comparativas, e políticas que promovam leapfrogging. Isto exigirá enorme capacidade de elaboração e implementação de políticas.

Revolução digital e serviços de transporte

O setor de serviços passou por transformações importantes nas últimas décadas. Mais especificamente no setor de transportes, as mudanças foram também significativas em termos de crescimento e desenvolvimento. Em virtude da revolução digital e da universalização da Internet e de smartphones, os serviços de transporte estão se transformando estruturalmente, com papel cada vez mais relevante da economia compartilhada e do uso de plataformas digitais para promover o encontro entre a oferta e a demanda nos diversos mercados de transporte de cargas e passageiros.

O Brasil é altamente dependente do transporte rodoviário, que movimenta mais de 60% das cargas no país. Os custos de transporte no país são elevados e afetam de maneira mais intensa indústrias mais dependentes de logística, como a metalúrgica, de alimentos, bebidas e outras intensivas em recursos naturais em geral (Arbache, 2014). Os serviços de transporte de passageiros também são relevantes na cesta de consumo das famílias brasileiras, que gastam em média cerca de 15% de sua renda com transporte urbano (Carvalho e Pereira, 2012). Os dados da PNAD mostram que, em quase todas as regiões metropolitanas (RM) do Brasil, houve aumento no tempo médio de deslocamento casa-trabalho entre 2011 e 2015 e que parcela considerável da população gasta mais de uma hora para ir ao trabalho (Tabela 1). Outros trabalhos revelam que as pessoas de menor renda são as que gastam mais tempo nesse deslocamento diário, independentemente do meio de transporte utilizado.

Tabela 1 – Tempo médio gasto no deslocamento casa-trabalho nas RMs brasileiras e parcela dos indivíduos que gastam em média mais de uma hora no descolamento.

RM Tempo médio gasto no deslocamento casa-trabalho (em minutos) Parcela dos indivíduos que gastam em média mais de uma hora até o trabalho (%)
2011 2012 2013 2014 2015 2011 2012 2013 2014 2015
São Paulo 45 46 46 46 44 23% 24% 25% 26% 24%
Rio de Janeiro 44 47 49 50 48 22% 27% 29% 29% 26%
Belo Horizonte 37 37 37 36 36 16% 16% 16% 15% 15%
Porto Alegre 30 30 31 32 32 8% 8% 8% 10% 11%
Recife 37 38 40 41 39 12% 16% 17% 18% 16%
Fortaleza 32 32 32 33 34 10% 10% 10% 12% 12%
Salvador 38 40 39 39 38 16% 19% 19% 16% 15%
Curitiba 33 32 33 33 33 12% 11% 12% 11% 10%
Distrito Federal 34 35 38 38 40 10% 11% 16% 16% 18%
Belém 32 33 36 37 33 10% 11% 16% 13% 10%
Fonte: Microdados PNAD 2011,2012,2013,2014,2015.
Elaboração própria com metodologia adaptada de Pereira e Schwanen (2013).

 

Os principais desafios enfrentados pelos formuladores da política de transportes estão relacionados a questões demográficas, socioeconômicas, tecnológicas, ambientais e financeiras. O desenvolvimento tecnológico traz consigo um desafio resultante do aumento da complexidade em planejar, gerir e regulamentar os sistemas de transporte. Por isso, as novidades tecnológicas não devem ser ignoradas nas discussões políticas sobre mobilidade urbana e matriz de cargas, pois trazem benefícios não desprezíveis para a população.

Novas empresas estão crescendo significativamente nesses mercados e mudando a maneira tradicional de funcionamento dos mesmos. Por exemplo, nos EUA está ocorrendo substituição de linhas de ônibus pelo serviço do Uber, inclusive com subsídio público, e a empresa quer lançar uma versão aérea de seu serviço de transporte individual, com carros voadores, que estão sendo desenvolvidos em parceria com a Embraer e devem estar operando a partir de 2026.

Os caminhões autônomos e carros autônomos também são uma realidade. Em outubro de 2016 um caminhão autônomo da Uber percorreu mais de 190 quilômetros em uma rodovia dos EUA para fazer entrega de cervejas. Também no final de 2016, a Amazon, depois de quase 3 anos desde o primeiro anúncio, fez sua primeira entrega via drone em Cambridge, no Reino Unido, e, recentemente, entrou com um registro de uma patente diferente: uma torre cilíndrica composta por drones, como se fosse uma colmeia. Com isso, a empresa promete agilizar ainda mais o processo de entregas.

As mudanças que estão em curso no mercado de transportes de cargas e passageiros são consequências da nova globalização e da revolução digital, que compreendem não só o intercâmbio de bens, serviços e capital entre países, mas também o fluxo intenso de dados e serviços digitais. As plataformas digitais também são ricas fontes de informação para a tomada de decisão. Atualmente, algumas plataformas geram dados riquíssimos para subsidiar estudos que busquem identificar padrões de deslocamentos de pessoas e cargas em um determinado espaço geográfico. Por exemplo, a Uber lançou recentemente, por enquanto apenas para algumas cidades, o Uber Movement, sistema que fornece informações históricas detalhadas de milhões de viagens realizadas diariamente pelos usuários que permitem medir o impacto de melhorias nas estradas, grandes eventos e novas linhas de trânsito.

Contudo, a proliferação dos serviços digitais de transporte está provocando reações negativas de governos e grupos de interesses de alguns países, com a proibição do funcionamento de alguns serviços e conflitos trabalhistas. O Uber, por exemplo, enfrentou proibições na Índia, Espanha, Bélgica, Holanda, Tailândia e em outros lugares. Além disso, recentemente, o Tribunal do Reino Unido reconheceu a existência de vínculo trabalhista entre os motoristas e a Uber, implicando em efeitos tributários que encareceram o serviço. No Brasil, algumas decisões estão sendo tomadas por tribunais regionais tanto a favor quanto contra os motoristas, e essa discussão ainda está em aberto. A legislação nacional é pouco clara sobre essa espécie de relação de trabalho, dando margem para interpretação de juízes. Além disso, há projetos de lei em tramitação no Congresso que têm por objetivo proibir o serviço no país, e Estados e Municípios também enfrentam pressões de alguns grupos organizados da sociedade.

A inserção rápida e global de plataformas que fornecem serviços digitais de transporte mostrou que essas novas tecnologias podem gerar benefícios importantes para a sociedade e ao mesmo tempo demandam regulação por parte do poder público. Se a regulamentação do Uber vem enfrentando problemas atualmente, não é difícil imaginar que, quando chegar a vez dos veículos autônomos, carros voadores e das entregas via drones, as dificuldades serão muito maiores. A maneira de funcionar dos serviços de transportes de cargas e passageiros está mudando, e essas mudanças devem ser entendidas e consideradas pelos formuladores de políticas públicas nas discussões nacionais, estaduais e municipais sobre o tema. Visando o desenvolvimento econômico e social do país com papel ativo dos serviços digitais, é importante que o poder público trabalhe para facilitar e não para dificultar a inserção e o desenvolvimento de novas tecnologias e plataformas digitais no setor de transportes.

Caio Assumpção Silva é doutorando em economia pela UnB e analista de transportes da Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Comércio eletrônico: é preciso regulamentar?

O entendimento sobre o que é comércio eletrônico abrange mais do que a simples venda de bens pela internet. Apesar do varejo em lojas físicas ainda representar a maior parcela do comércio total, o e-commerce – tanto business-to-business (B2B) como business-to-consumer (B2C) – tem crescido muito nos últimos anos, especialmente na modalidade transfronteiriça. Relatório da empresa internacional de logística DHL aponta que, em 2020, esse mercado poderá passar de US$ 1 trilhão, representando 22% de todo o e-commerce mundial.

As implicações desse movimento para a economia são cada vez mais visíveis. Basta observar o valor de mercado e o crescimento projetado das vendas de empresas como Amazon e Alibaba, e o fortalecimento dos braços de compras de plataformas como Facebook e Google (Google Shopping) para compreender porque temas ligados ao comércio eletrônico estão ganhando cada vez mais espaço nas discussões internacionais de comércio.

A consolidação do mercado global de e-commerce está se tornando desafio crescente para empresas locais ou entrantes competirem com “superestrelas” como a Amazon. A lógica do winner-takes-all explica as aquisições e fusões defensivas de grandes varejistas. No fundo, é uma competição não mais por nichos de mercados, mas uma busca pela sobrevivência. Afinal, já há sinais de que as plataformas de fornecimento cuidarão de quase tudo que o consumidor precisa e deseja comprar. Como resultado, o único caminho para os varejistas locais, principalmente as lojas de médio e pequeno portes, é vender nessas megaplataformas ou marketplaces se subjugando às regras do jogo e imposições das plataformas (há algo ainda mais importante aqui, que é o fato de a plataforma capturar e usar todos os dados originados da relação entre o consumidor e o lojista – mas isto será objeto de outro post).

Apesar de paralisadas as negociações, o Tratado da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) cumpriu papel importante ao revelar que o e-commerce é uma das novas arenas de “luta” no comércio mundial. Basicamente, o TPP pretendeu determinar os rumos da economia digital ao definir regras e procedimentos, incluindo o comércio eletrônico de bens e serviços, e temas como padrões, regras e tarifas sobre produtos digitais, localização de servidores, códigos fonte, etc. – todos considerados como “barreiras” aos mercados dos gigantes digitais do e-commerce. Assim, o TPP teria consequências contundentes para os seus signatários e também para os não signatários, em particular para o espaço de formulação de políticas públicas para o setor de serviços e para o e-commerce. Apesar de estar atualmente paralisado, o TPP se tornou inspiração e ponto de partida para as novas negociações comerciais.

Para economias em desenvolvimento, a atenção a essas condições deve ser redobrada, pois a participação em acordos que tratam do comércio eletrônico sem um cuidadoso debate interno sobre onde queremos chegar e o que precisa ser feito poderá dificultar o desempenho do setor e até mesmo as perspectivas do crescimento econômico de médio e longo prazos. O caso do Chile é simbólico: o comércio de varejo do país já é dominado pelos gigantes globais do e-commerce.

A corrida de ocupação dos espaços do e-commerce já tem players bem sucedidos, mas com estratégias distintas. A China praticamente fechou o mercado de e-commerce ao funcionamento de empresas americanas, como o Google e o Facebook, e limitou a ação da Amazon a vendas de bens que ela dispõe em seus próprios armazéns, impedindo-a de exercitar o seu superpoderoso braço de marketplace. Com isso, a China pavimentou o caminho para o desenvolvimento de novos gigantes como o Alibaba, JD.com e Weibo, que hoje já têm projeção global e são, juntos, substancialmente maiores que a Amazon. A China percebeu a sua condição de latecomer num setor crítico e usou ferramentas protecionistas para desenvolver a sua indústria digital nascente. Para empresas estrangeiras que podem operar na China, todos os dados devem ser depositados em servidores lá sediados.

Já os EUA estão empenhados na promoção de ampla liberalização e desregulamentação do mercado digital global, já que, à exceção das chinesas, quase todas as principais plataformas digitais globais são americanas, bem como o são as gigantes do e-commerce com maior presença no ocidente.

Os europeus, cientes dos efeito-rede e efeito-plataforma no mundo digital e no e-commerce, e temendo os efeitos de seu atraso nessas tecnologias, também estão jogando pesado em suas negociações comerciais com regiões menos desenvolvidas em prol da liberalização dos mercados de serviços, inclusive do e-commerce, em favor das suas empresas. Talvez não sejam apenas a preocupação concorrencial e com o bem estar do consumidor que expliquem as recentes multas bilionárias para a Microsoft e Google impostas pelas autoridades de competição de Bruxelas.

EUA e China são dois modelos extremos. O Brasil não é um líder digital e, por isso, agendas ultra-liberalizantes ou ultra-protecionistas devem ser vistas com cautela. Mas o Brasil não pode se enclausurar e proteger a ineficiência, sob pena de repetir os conhecidos erros do passado que ajudaram a nos trazer aqui. Talvez o mais razoável seja desenvolver uma estratégia que leve os operadores internacionais da economia digital a estabelecerem bases operacionais no Brasil (com servidores e abertura de código fonte) e formarem clusters digitais nacionais com parceiros locais.

Nessa discussão, também será preciso levar em conta que o comércio de varejo é, de longe, o setor que mais emprega no Brasil, em especial pessoas com pouca qualificação, bem como um dos setores que mais recolhem ICMS. A eventual expansão do e-commerce internacional no país não será, portanto, neutra em efeitos sociais nem fiscais, incluindo ali os impactos nos recolhimentos e nos benefícios previdenciários.

Uma estratégia nacional para inserir o Brasil na economia digital global deveria incluir ações em ao menos três direções: regulamentação interna do comércio eletrônico; construção de “capabilities”; e inserção internacional.

A regulação interna do comércio eletrônico deve partir do pressuposto de que esse não é um mero canal de vendas remoto, pois as modernas tecnologias permitem experiências de compra e venda tão ou mais completas quanto às do mundo real. Isso traz implicações para os direitos do consumidor, direito econômico (defesa da concorrência, mais especificamente), tributação, entre outros. Além disso, o Marco Civil da Internet e toda a sua regulamentação devem ser pensados numa perspectiva de desenvolvimento econômico, para além das questões sobre democracia e liberdade de expressão. Até mesmo a infraestrutura de transportes e armazenamento e suas regras precisam se adaptar para comportarem uma maior demanda por entregas rápidas, com extensa capilaridade e com projeção internacional. Também é preciso simplificar leis e normas. Porém, algumas das iniciativas recentes requerem atenção. Exemplo disso é a lei – suspensa por liminar no STF – que obriga varejistas online a recolherem ICMS em dois estados em transações interestaduais.

A construção de capabilities é uma tema especialmente importante. Apesar da tendência de consolidação do varejo eletrônico, ainda existe possibilidade de crescimento do mercado, especialmente o de nichos. Análise feita pela FedEx aponta que os segmentos de varejo eletrônico de médio porte crescem mais rapidamente que o segmento de massa. Isso ocorre pela possibilidade de prestação de vendas online e serviços com maior customização e especialização. Obviamente, isso faz parte de uma cultura empresarial na qual a possibilidade de contribuição do governo está centrada numa política de ambiente de negócios e incentivos à inovação e ao capital humano que incorporem, desde a alfabetização, o contato e a aprendizagem de linguagens de programação, machine learning e tecnologias digitais.

Finalmente, a inserção internacional deve ser o farol que orienta os dois pilares anteriores. Para isso, o país precisa amadurecer rapidamente seus planos de abertura comercial, inclusive com vistas à conquista de mercados externos. Manter a economia fechada será um equívoco; abrir o mercado digital de forma apressada sem um plano estratégico será outro equívoco.

Mas que uma coisa fique clara: o Brasil está atrasado na agenda da economia digital, que é a verdadeira guerra dos tronos do século XXI. Embora o momento atual seja de reformas estruturais que estabilizem e reorganizem a economia, é preciso ter clareza do contexto e propor políticas públicas que pensem as fronteiras econômicas do futuro. O que não podemos é esperar que o dirigismo estatal ou que o mercado por si só apareçam com soluções que parem de pé neste complexo novo mundo. Elas simplesmente não aparecerão.

Boletim de Serviços – Agosto de 2017

O Boletim de Serviços de agosto de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • O volume do setor de serviços registrou queda de 2,1% em junho na comparação anual, com destaque positivo para os serviços tradicionais (-5,4%).
  • A inflação de serviços acumulada em 12 meses registrou aumento, chegando a 5,3% em julho, consideravelmente acima do IPCA geral (2,7%).
  • O setor de serviços foi o que apresentou o resultado mais positivo na geração líquida de emprego, tendo criado 15,1 mil novas vagas, com destaque para os serviços para empresas (14,5 mil vagas criadas).
  • A balança de serviços seguiu apresentando déficit no mês de junho, de US$ 3,2 bi.

 

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: http://economiadeservicos.com/boletim.

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