Economia de Serviços

um espaço para debate

Menos emprego e mais trabalho

Meu pai me deu inúmeros conselhos. Um que jamais esqueci foi: “Em uma entrevista, nunca diga que quer emprego; diga que quer trabalhar”. Benjamin Franklin, Karl Marx e outros grandes pensadores nunca perceberam o caráter edificante e dignificante do emprego, mas todos o viram no trabalho. Na língua inglesa, a referência é labor e não job; no nosso português, trabalho e não emprego. No mercado de trabalho, as pessoas vendem sua capacidade de trabalho para que seja empregada nas necessidades das empresas. Nesse caso, a expressão mercado de trabalho é corretíssima: esse é um mercado em que se compra e se vende trabalho; o trabalhador vende seu trabalho, e o empregador o emprega como precisa.

Em economia dizem que a produtividade marginal do trabalho em relação ao capital é positiva, o que significa dizer que máquinas melhores ou mais maquinário por empregado o permitem produzir mais. Ainda segundo os preceitos da economia, a remuneração de um fator de produção é dada por sua produtividade marginal, implicando salários influenciados pela quantidade/qualidade das máquinas disponíveis aos empregados. Em resumo: mais máquinas, menos trabalhadores, maiores salários. A automação e a robotização não estariam substituindo “trabalhadores”, mas sim, contribuindo para a substituição de empregos menos qualificados por empregos mais qualificados – mas isso não costuma ocorrer na proporção 1:1. No limite, o que farão todas essas pessoas menos qualificadas? Se qualificarão para postos de trabalho mais qualificados que eliminam inúmeros outros postos de trabalho menos qualificados?

Uma empresa emprega pessoas em seu negócio, mas também emprega capital e máquinas. Empregar é o mesmo que utilizar, aplicar. Portanto, o empregado está no polo passivo da ação. O empregador emprega; o empregado, bem… o empregado é empregado. Na economia, o empregado é aquele fator de produção que desempenha uma tarefa específica. Há um século, eram empregadas pessoas na linha de produção de automóveis e agora são empregadas máquinas. Então, não se iluda: os empregadores vão empregar mais máquinas – e robôs –, e, como cada máquina – e robô – substitui várias pessoas, a empregabilidade do ser humano enquanto fator de produção, “peça de uma engrenagem”, tende a diminuir consideravelmente no longo prazo. Carro anda sozinho, avião anda sozinho, até meu aspirador de pó anda sozinho!

O verdadeiro problema não é acabar o emprego, é acabar o trabalho. E este só aumenta e nenhuma máquina ou robô é capaz de fazê-lo. Os desafios que a humanidade vem acumulando são cada vez mais complexos e demandam soluções “fora da caixa” como nunca antes. Não é por outro motivo que parcela cada vez maior da população está trabalhando no setor de serviços em atividades não padronizadas, não repetitivas e não automatizáveis. E cada vez menos estão mantendo vínculos empregatícios.

Em 2015, mais de 50 milhões de americanos (aproximadamente ¼ da força de trabalho dos EUA) atuaram exclusivamente ou parcialmente como freelancers, e as razões para tanto são simplesmente incompreensíveis para robôs: liberdade e flexibilidade. Essa multidão de pessoas quer contribuir, realizar, trabalhar, passar para o polo ativo da ação, e não apenas vender sua capacidade de trabalho e serem empregadas em algo. Mais de 60% dos freelancers entrevistados numa pesquisa realizada pelo Freelancers Union nos EUA percorrem esse caminho por opção e não por necessidade e oferecem serviços e soluções baseados na criatividade, na empatia e no arranjo de decisões negociadas e compartilhadas em redes colaborativas. Esses trabalhos são realizados com base em algo que robôs não podem compreender, por razões igualmente incompreensíveis a eles.

O trabalho dignifica o homem porque o coloca no polo ativo da ação, lhe dá razão de ser e de fazer. O emprego resume a motivação ao salário, numa recompensa pelo tempo e esforço vendidos. Não é que o emprego de muitas pessoas não seja digno; é que ele é digno de uma pessoa até que um robô seja mais digno que ela. O empregado é, por definição, o polo passivo da história.

As novas gerações e a demanda por brinquedos inteligentes

Com a globalização, até o público infantil alterou a sua demanda por consumo. Cada vez mais as crianças têm demandado brinquedos modernos e cheios de tecnologia, e a indústria tem evoluído para responder a isso. De acordo com pesquisa da empresa britânica Juniper Research, as vendas anuais dos chamados brinquedos inteligentes, que usam tecnologia para interagir com as crianças, deverão subir de US$ 2,8 bilhões em 2015 para US$ 11,3 bilhões até 2020. 

Crianças com menos de dez anos já sabem usar com naturalidade um computador ou um celular. Até crianças em idade pré-escolar já conseguem manusear o controle remoto, apertar o “Play” em um vídeo do Youtube, e, quando um pouco maiores, já utilizam funções dos tablets, câmeras digitais, entre outros dispositivos.

Assim como os carros, as televisões e outros eletrônicos, os brinquedos também evoluíram de forma rápida, e os brinquedos que antes eram considerados apenas bens industriais, hoje possuem diversos serviços embutidos na sua fabricação. Alguns brinquedos clássicos ganharam versões tecnológicas. O conhecido cubo mágico, por exemplo, evoluiu para o Rubik’s TouchCube, a versão touchscreen do brinquedo, na qual pequenos quadrados iluminados se alteram à medida que são manuseados.

Parte desse aumento da demanda por brinquedos tecnológicos decorre do maior acesso às tecnologias por parte das famílias no Brasil e no mundo. Computadores, tablets e celulares se tornaram bens substitutos para alguns brinquedos infantis, já que podem carregar jogos para diversas faixas etárias, além de substituir a televisão.

De acordo com dados do Cetic, a proporção de domicílios com acesso à Internet no Brasil saltou de 18% em 2008 para 51% em 2015. A instituição levantou, também, dados sobre o uso de tecnologias da informação e comunicação (TIC) entre crianças. Nos números, fica claro que muitas delas são, de fato, nativas digitais: 52% das crianças com acesso à Internet realizaram o seu primeiro acesso com 10 anos de idade ou menos; 11% delas acessaram a Internet pela primeira vez com 6 anos ou menos. O gráfico a seguir mostra a proporção de crianças e adolescentes de acordo com habilidades para utilizar a Internet. Como é possível observar, a maioria das crianças é versada em todas as habilidades listadas.

Ainda de acordo com dados do Cetic, 68% das crianças acessam a Internet mais de uma vez por dia, e 85% dessas crianças o fazem pelo telefone celular. Das crianças que possuem acesso à Internet, 87% a utilizam para realizar trabalhos escolares e 79% para utilizar redes sociais. E o que as crianças acham de seus pais ou responsáveis quanto ao uso da Internet? Entre os usuários de 11 a 17 anos, 75% acreditam que sabem usar a Internet melhor do que os seus pais.

Isso tudo mostra que, com o acesso à Internet e a maior incorporação da tecnologia na vida das famílias, o perfil do consumo infantil também mudou. Embora exista o debate de que brinquedos altamente tecnológicos podem deixar as crianças menos criativas e podem gerar problemas futuros, como, por exemplo, problemas na visão, de acordo com Yilmaz (2016), existem muitos brinquedos tecnológicos que são educativos. Exemplos disso são os tablets educativos e brinquedos que estimulam a criatividade, como o Magna Color, que permite às crianças desenhar e colorir os seus desenhos em 3D, reduzindo o uso do papel, sem deixar de estimular sua imaginação. Os drones também são altamente demandados pelos pequenos consumidores e podem até auxiliar no desenvolvimento da coordenação motora.

Com a inevitável universalização da Internet e de tecnologias de ponta, a tendência é que os brinquedos do futuro sejam ainda mais tecnológicos e que contenham cada vez mais serviços de conhecimento embutidos. O desafio para produtores de brinquedos, no Brasil (onde a indústria do setor produz mais de R$ 3 bi. anuais) e no mundo, é acompanhar essa demanda, incorporando cada vez mais tecnologia e, assim, seguir crescendo no século XXI.

Boletim de Serviços – Abril de 2017

O Boletim de Serviços de abril de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • A receita nominal do setor de serviços registrou contração de 1,9% em janeiro, enquanto o volume de atividades contraiu 13,2%, na comparação anual
  • A inflação acumulada em 12 meses foi de 4,6% em fevereiro
  • Pela primeira vez desde março de 2015, foi registrado um saldo positivo no emprego em serviços
  • As exportações de serviços registraram um aumento de 2,6% na comparação anual, enquanto as importações cresceram 12,5%
  • O IDE em serviços contabilizou expansão de 23,5% na comparação anual

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: http://economiadeservicos.com/boletim.

Do que é feito um iPhone?

A resposta para a pergunta no título parece óbvia: metais, microchips, vidro e outros materiais comumente utilizados em eletrônicos. Porém, a resposta é mais complexa do que parece. Em 2011, três pesquisadores (Kraemer, Linden e Dedrik) estudaram a cadeia de produção do famoso celular da Apple e a composição do preço final do produto.

Nesse estudo, eles encontraram que os lucros da Apple representam quase 60% do preço final do produto (ver gráfico abaixo). As matérias-primas físicas supracitadas representavam 22% do preço; a mão de obra, 5%, enquanto os lucros de demais empresas na cadeia de produção respondiam por cerca de 15% do valor final. Os gastos com a mão de obra da China, onde é montada a maior parte dos iPhones, não representam 2% do preço final.

Nada mais esperado que a Apple, empresa que efetivamente pensou e lançou o iPhone, fique com a maior parte dos lucros e do valor final do produto. Vale a pena destacar, porém, as atividades que a empresa efetivamente realiza nessa cadeia: pesquisa & desenvolvimento (P&D), design, desenvolvimento de software, marketing e branding, e, em alguns casos, atividades de varejo, por meio de suas lojas próprias. Todas essas atividades são classificadas como de serviços. Embora a Apple seja uma empresa que desenvolve e lança produtos (computadores, smartphones, tablets, smartwatches, etc), ela efetivamente realiza atividade de serviços, que terminam “embutidos” nesses bens.

O exemplo do iPhone é ilustrativo de alguns processos em curso na economia atual. Talvez o mais óbvio deles seja a total desatualização dos conceitos de setores como áreas completamente distintas e separadas: está cada vez menos claro como separar serviços de indústria, indústria de agricultura, agricultura de serviços, etc. Os três tradicionais setores (serviços, indústria e agropecuária) estão progressivamente mais integrados e, em muitos casos, são quase indistinguíveis. Ao fabricar lâmpadas e equipamentos e depois prestar serviços de iluminação para cidades, a GE é uma empresa de indústria ou de serviços?

Um segundo e talvez mais relevante aspecto que o caso do iPhone traz é que o valor adicionado, nas cadeias de valor, está cada vez menos concentrado nas matérias-primas e na efetiva montagem (“manufatura”) de produtos, e mais em serviços de maior sofisticação. Esses serviços têm alto conhecimento abarcado e servem para diferenciar e agregar mais valor a produtos, aumentando o poder monopolista de seus produtores – são os chamados “serviços de agregação de valor”.

A “smiley curve” (ou “curva sorriso”), mostrada abaixo, apresenta bem esse processo, ainda que de maneira nocional. Em uma cadeia de produção, as atividades no começo e no final do processo de produção, predominantemente de serviços sofisticados (inovação, P&D, design, marketing, branding, etc) tendem a capturar mais valor do que aquelas no centro, predominantemente de manufatura e serviços básicos (logística, matérias-primas, produção, montagem, etc) e normalmente concentradas em países de renda baixa ou média, como o Brasil.

Aqui não se pretende desprezar a importância da indústria ou da agropecuária, pelo contrário: no século XXI, serviços ganham valor com a indústria (e a agropecuária) e vice-versa. Um aplicativo não tem valor sem um celular, assim como um celular não tem valor sem um aplicativo.

Esse processo de servitização da indústria (ou industrialização dos serviços) não é exclusivo de produtos ultrassofisticados como um smartphone. Segundo dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA), do IBGE, em 2013, para cada R$ 1 de valor adicionado pela indústria brasileira, foram gastos R$ 0,70 em serviços, no processo produtivo.  E esse indicador é alto para segmentos tão distintos quanto extração de carvão mineral e fabricação de equipamentos de informática (Arbache e Moreira, no prelo).

Portanto, para crescer de maneira sustentável no século XXI, não servirão de nada estratégias como a atração de maquiladoras estrangeiras apenas para montar artigos tecnológicos no país. Estratégia mais interessante é enxergar o setor de serviços como um setor de soluções para os problemas dos demais segmentos (ou até mesmo de outras atividades de serviços), gerando uma maior integração de cadeias e o surgimento de serviços que efetivamente agreguem valor e contribuam para o aumento da competitividade e da produtividade da economia como um todo.

O que é commoditização digital?

A era digital está rompendo tudo: a natureza dos mercados e dos produtos, a forma de produzi-los, as formas de entrega e de pagamento, a escala do capital para se operar globalmente e os requerimentos de capital humano. A era digital também está promovendo a produtividade ao expor as empresas a novas ideias, tecnologias, práticas operacionais e de gestão e ao criar novos canais de acesso aos mercados. E tudo isto a custos relativamente baixos. Não é exagero prever que as empresas dependerão cada vez mais da inteligência artificial para rotinas básicas e também para atividades mais complexas. Em breve, versões mais avançadas de assistentes virtuais como os Siris e as Alexas serão parte do nosso dia-a-dia no trabalho, na escola, em casa e no lazer.

Embora a disseminação e a popularização da era digital sejam valiosas para a produtividade e para a geração de riquezas, é preciso ter em conta os limites daquele benefício para a competitividade. A “commoditização digital” refere-se ao impacto decrescente que a popularização do acesso e uso de tecnologias digitais padronizadas e de uso geral têm na produtividade. Tudo o mais constante, é razoável assumir que o impacto da adoção de uma nova tecnologia digital na competitividade de uma empresa de determinado segmento seguirá trajetória tal como descrita na figura 1 abaixo.

Enquanto poucas empresas têm acesso à nova tecnologia, seu impacto na produtividade deve aumentar rapidamente. Mas, à medida que o acesso e uso da tecnologia se disseminam, seu impacto marginal diminui e, eventualmente, se torna nulo. À medida que o benefício marginal decresce, o uso da tecnologia passa a se tornar requerimento de entrada no mercado. Ou seja, a tecnologia ajuda a colocar a empresa “no jogo”, mas não a qualifica a “ganhar o jogo”.

Pense no choque de produtividade que os PCs tiveram em meados dos anos 80 em atividades básicas como edição de textos, controle de estoques e gestão contábil. Naquela altura, o acesso àquelas tecnologias era limitado em razão do custo das máquinas e das poucas qualificações das pessoas para operar computadores. As poucas empresas e universidades que tinham acesso provavelmente experimentaram melhoria em indicadores de eficiência de tempo e desempenho. Porém, com o tempo, o emprego de PCs em atividades básicas passou a fazer pouca ou nenhuma diferença, já que eles praticamente se tornaram commodities.

Equipamentos de tecnologia da informação em geral, softwares padronizados de várias aplicações, sistemas e, claro, acesso à internet estão sujeitos à commoditização digital. O efeito-rede e o efeito-plataforma devem acelerar a commoditização digital de aplicativos e outros recursos livres ou de baixo  custo disponíveis na internet.

Figura 1: Relação entre commoditização digital e competitividade

Fonte: elaboração própria.

A commoditização digital ajuda a explicar o suposto paradoxo da literatura de estagnação secular que relaciona a popularização da tecnologia da informação com a desaceleração da taxa de crescimento da produtividade.

A commoditização digital tem aspectos importantes para o desenvolvimento. Isto porque, de um lado, a grande maioria das empresas é usuária de commodities digitais, enquanto, do outro lado, parcela bem menor é desenvolvedora e gerenciadora daquelas tecnologias, padrões e plataformas nas quais as commodities digitais são usadas. São estas as empresas que, de fato, tendem a capturar a maior parte dos benefícios privados das commodities digitais. Pense na Google, Amazon, Apple, Microsoft, Facebook, Baidu, Alibaba, SAP, Uber, Tencent, Cisco, Oracle, Huawei e outras empresas que estão estabelecendo padrões, criando plataformas e gerenciando os ambientes em que operam os negócios de terceiros.

Aquelas empresas atingiram nível tão elevado de captura dos benefícios privados das commodities digitais que elas se tornaram “superestrelas” com baixas possibilidades de serem contestadas por entrantes. Esta, aliás, é uma das explicações da perda do brilho dos “unicórnios”, startups que em pouco tempo chegavam a valer cerca de US$ 1 bilhão ou mais.

O encurtamento cada vez mais intenso dos ciclos tecnológicos aliado ao efeito-rede e efeito-plataforma estabelecem condições altamente assimétricas de competição que garantem o hiato tecnológico e de desempenho entre empresas usuárias e empresas desenvolvedoras e gerenciadoras de commodities digitais.

De fato, estamos vendo crescente divisão entre aqueles que usam e aqueles que desenvolvem e gerenciam tecnologias, padrões, regras e plataformas digitais. O primeiro grupo é composto majoritariamente por empresas de países emergentes e de alguns países ricos, como Portugal e Grécia. O segundo grupo é composto majoritariamente por empresas sediadas em alguns poucos países avançados e na China. Essa divisão tem implicações adversas importantes para as perspectivas de convergência da produtividade e da renda entre países e tem implicações relevantes para as políticas públicas e privadas.

Os esforços que muitos países emergentes estão fazendo para mobilizar recursos para ampliar as redes e a velocidade da internet, treinar pessoal, adquirir softwares e computadores para escolas e universidades, reduzir impostos de importação de equipamentos de informática e softwares e alterar legislações da área digital não deverão ser suficientes para reduzir o hiato tecnológico e de renda entre países.

Ao tempo em que devem popularizar o uso de commodities digitais, as políticas públicas terão que abraçar agendas muito mais ambiciosas e sofisticadas na área inovação e tecnologia se quiserem melhorar os prospectos de convergência tecnológica e de renda.

O processo de industrialização dos serviços

Analisando a demanda do consumidor, verifica-se que há uma mudança no seu padrão de consumo. Cada vez mais, os consumidores direcionam suas preferências aos produtos tecnológicos, e, quanto mais próximo da atualidade (em anos), maior a demanda dos consumidores por serviços sofisticados, corroborando o que foi apresentado em Eichengreen e Gupta (2014).

Esse é um processo natural de evolução da economia, pois, uma vez que a renda dos indivíduos aumenta, as economias tornam-se mais complexas, e a demanda por serviços movidos à informação também aumenta, principalmente a demanda por serviços tecnológicos. Tal alteração nas preferências do consumidor requer que as empresas se adaptem, direcionando a sua produção industrial à fabricação de bens com elevada participação dos serviços. Esse processo de produção aqui será chamado de dPSS (density Product and Service Systems), que é uma extensão do PSS (Product and Service Systems).

Em um post anterior, foi apresentado o espaço-indústria. Nesse modelo, ao se chegar a um certo nível de desenvolvimento, as regiões R3-R4, as economias passam a observar uma relação crescentemente simbiótica e sinergética entre serviços e indústria. Nesse estágio, bens industriais passam a ter desproporcionalmente mais valor por terem muitos serviços “embarcados” na sua composição. Esse processo de “servitização” dos produtos industriais eventualmente evolui para o PSS e, finalmente, para o dPSS.

Figura 1: O processo de dPSS (density Product Service Systems)

 

Fonte: elaboração própria

De acordo com Vandermerwe e Rada (1988), o processo de servitização consiste na oferta de bens pelas indústrias manufatureiras, que buscam aumentar a participação dos serviços nos seus negócios. Os autores justificam que as empresas percebem as mudanças no padrão de demanda do consumidor e buscam agregar valor às suas principais ofertas utilizando os serviços para aumentar a sua competitividade.

O PSS (Product Service System), segundo Goedkoop et al (1999), é uma combinação integrada entre produtos e serviços que, assim como a servitização, engloba uma estratégia competitiva. Mas, além de ser orientado por serviços, o PSS também decorre de uma maior demanda pela sustentabilidade ambiental. O PSS é um caso particular da servitização e é orientada pela funcionalidade do produto gerado e não somente pela oferta do bem. Ou seja, a empresa fabrica o produto e em seguida transfere a responsabilidade de uso para o consumidor final.

Já o dPSS é um caso particular do PSS, pois ele também é um bem industrial com serviços incorporados na sua fabricação. Nesse processo, tanto o produto industrial quanto os serviços são essenciais para a composição do preço final do produto. Dados precisos sobre o dPSS são difíceis de ser obtidos, uma vez que, com raras exceções, não se encontram informações suficientemente desagregadas para se saber ao certo o quanto de serviços está embutido no bem industrial.

O dPSS possui as seguintes características:

  • Assim como o PSS, o dPSS é caracterizado pela servitização dos produtos e produtização dos serviços;
  • Quanto mais serviços forem adicionados ao produto industrial, maior será o seu valor final;
  • Não há uma ordem cronológica do que é criado primeiro, se é o bem tradicionalmente industrial, ou se é o serviço a ser desenvolvido nesse produto, pois o importante é o resultado final da união;
  • Um choque positivo de dPSS direciona a economia ao desenvolvimento econômico;
  • E, o mais importante, o dPSS está diretamente relacionado ao processo descrito pelo espaço-indústria, no sentido de que as economias se desenvolvem passando pelo processo de dPSS mas, para isso, precisam alcançar a região R4, mesmo que por um atalho.

Entender o funcionamento do dPSS pode ser importante para melhor compreender o futuro do crescimento econômico, especialmente para os países que chegarem tarde na competição industrial e precisam buscar um atalho para o desenvolvimento. O fato de a indústria em quase todo o mundo em desenvolvimento e mesmo em muitos países ricos não estar em um estágio avançado de produção não implica que ela tenha perdido importância. O que ocorre é que o próprio conceito de indústria está mudando e o dPSS passará a ser cada vez mais a norma do setor.

Essa crescente demanda por serviços tecnológicos não pode ser desconsiderada. Caso as empresas e os trabalhadores não consigam acompanhar esse movimento, poderá haver, em um futuro próximo, um desequilíbrio de mercado. Tal desequilíbrio poderá gerar uma tendência de aumento do preço relativo dos serviços, pois, com a escassez de mão de obra em um setor altamente demandado, a tendência é que o salário desse setor se eleve e, como o salário sobe, os produtos se tornam mais caros para serem produzidos, implicando potencialmente no problema de Baumol cost disease.

O ensejo protecionista de Trump e o futuro do emprego nos EUA

Em seu governo, Trump mantém um discurso carregado de práticas protecionistas em relação ao comércio internacional, em conformidade com sua campanha presidencial. Muitas de suas ações vão no sentido de desmontar o legado de seu antecessor e, mais do que isso, desafiam fenômenos marcantes da economia global das últimas décadas, como a globalização, a interdependência e até o curso das revoluções tecnológicas e digitais. Dentre esses atos, estão a retirada dos Estados Unidos do Acordo Trans-Pacífico (TPP), as críticas direcionadas ao NAFTA e certa coerção a grandes montadoras para que mantenham as suas plantas industriais nos EUA.

A principal justificativa de Trump para tais atos e para os vários outros que poderão vir – cujas consequências para o mundo ainda são incertas – é a de aumento e/ou recuperação de empregos nos EUA, sobretudo para a classe média na produção do setor manufatureiro. Nos discursos do presidente, no entanto, há uma simplificação muito grande da complexidade da economia atual, em grande parte moldada pela globalização, tecnologia e serviços.

Em relação às tendências para o emprego, há grandes desafios críticos para a administração de Trump perante esse objetivo no médio prazo, sendo muitos deles ligados às transformações estruturais que tem ocorrido na economia norte-americana.

Apesar de não haver redução da produção manufatureira dos Estados Unidos, é mais do que evidente que nas últimas décadas houve um aumento da importância do setor de serviços em termos de agregação de valor “embarcados” no produto. Razões para isso não faltam, e destacam-se duas: primeira, o aumento de renda da população tende a aumentar a demanda por serviços de qualidade, como cuidados com a saúde; e, segundo,  a competitividade no setor manufatureiro demanda cada vez mais uma íntima relação com o setor de serviços, tornando-os, sob diversos aspectos, praticamente inseparáveis. Nesse sentido, serviços tais como pesquisa e desenvolvimento, engenharia de software, marketing e “health care”, por exemplo, tornam-se campos nos quais haveria maior perspectiva de geração de emprego, cuja oferta não supre a demanda.

A figura abaixo mostra a evolução dos principais setores em termos de emprego para cada estado americano em quatro tempos. Nota-se que pelo menos desde 1990, o setor manufatureiro foi perdendo constantemente participação relativa para o comércio de varejo. ‘Relativa’ também porque um setor não necessariamente cresce às custas de outro setor. A indústria manufatureira permaneceu como maior empregador em 2013 apenas em estados próximos da região “Rust Belt”, como Michigan, Iowa, Wisconsin, Indiana e Kentucky, e outros mais ao sul do país, como Alabama e Mississípi. Estes últimos são estados que não se destacam por dinamismo econômico e estão entre as mais baixas rendas per capita do país. Do outro lado, segundo o Bureau of Labor Statistics, em 2013, o setor de cuidados de saúde e assistência social era predominante em 34 estados, sendo que no moderno estado de Nova York é o setor predominante desde 1992.

Figura – Setores responsáveis pela maior parte do emprego por estado americano

A redução da participação relativa do setor manufatureiro é um marco da transição do sistema de riqueza industrial para a de economia do conhecimento. Em países de economia madura, dificilmente a produção manufatureira tradicional, de chão de fábrica, responderá de forma ascendente pela maior parte dos empregos. Países como a Alemanha – de alta participação do setor manufatureiro no PIB comparado a outros países desenvolvidos – têm reconhecido que, sem a incorporação de serviços de qualidade aos seus bens manufaturados (assim como sem a benesse do mercado europeu para as suas exportações), o país não conseguirá manter altos índices de competitividade na “Indústria 4.0”, ameaçando, assim, inclusive, os próprios ganhos salariais no setor de manufaturados.

De fato, o eleitor mediano de Trump não vem dos setores mais sofisticados voltados para serviços avançados e indústria de média/alta tecnologia, que são setores de alto desempenho na economia americana e mundial. Mas, com os novos modelos de negócios e revoluções tecnológicas, o hiato de salários entre os trabalhadores de alta e de baixa qualificação tende a aumentar, elevando ainda mais a preocupante desigualdade de renda. Seria mais razoável a utilização de recursos e esforços em um programa de requalificação de trabalhadores para reingressarem no mercado de trabalho com habilidades mais requeridas na economia moderna, mesmo que não seja efetivado na velocidade desejada.

O retorno aos EUA de etapas de processos produtivos que foram terceirizadas para o Leste Asiático na “fase de ouro” das cadeias globais de valor poderia ser feito pelas novas tecnologias de produção, reduzindo a fragmentação espacial da produção, e possibilitaria a produção fisicamente próxima do mercado consumidor. É incerto, no entanto, a velocidade com que esses processos se dariam, e se as normas e instituições internacionais contrarrupturas radicais poderiam adiar ou interromper tais mudanças.

Pode ser que o método da coerção realizado até aqui por Trump — discriminação contra produtos estrangeiros, privilégios tributários e investimentos em infraestrutura — traga de volta alguns empregos tradicionais para o solo americano sob o slogan “buy American, hire American”. Entretanto, é improvável que haverá geração significativa de empregos no setor manufatureiro, assim como é improvável que haverá prosperidade duradoura numa economia que se fecha.

Em algum momento, Trump terá que lidar de frente com o lado mais sofisticado e dinâmico da economia contemporânea, os serviços.

Jean Santos Lima é Doutorando em Relações Internacionais na UnB e se dedica ao estudo e pesquisa sobre Desenvolvimento Comparado, Globalização, e Política Internacional.

Os serviços em 2016

Saíram na última semana os dados do produto interno bruto (PIB) do Brasil de 2016. Os resultados são, sem exagero, catastróficos. A economia brasileira registrou queda de 3,6% no ano, ligeiramente menos pior do que em 2015, quando a variação foi de -3,8%. Em dois anos, o PIB do país encolheu em 7,3%, voltando aos níveis de 2010. Se levado em conta o PIB per capita, mais adequado para medir a riqueza de um país, o cenário é ainda mais preocupante: queda de 9% desde 2013 e volta aos níveis de 2009. Em palavras simples, nos últimos anos, a economia brasileira voltou quase uma década no tempo.

Esse cenário crítico ainda demonstra poucos sinais claros e consistentes de melhora. É provável, porém, que o pior já tenha passado. Como discutido continuamente no blog, o setor de serviços responde por mais de 70% da economia, pelo maior número de empregos formais, está fortemente presente nas cadeias produtivas e, em geral, não é comercializável para além de fronteiras (um serviço de cabeleireiro, por exemplo, não pode ser ofertado a distância). Por todos esses motivos, e pelo fato de seu consumo ser muito sensível à renda e ao desempenho da atividade econômica, os serviços são altamente pró-cíclicos: quando a economia como um todo vai bem, eles vão bem; quando vai mal, eles também vão mal. Logo, o resultado dos serviços nas contas nacionais de 2016 não poderia ser diferente: queda de 2,7% na sua produção, voltando a níveis de 2011.

Com a exceção honrosa das atividades imobiliárias, que apresentaram ligeiro crescimento de 0,2%, todos os demais segmentos do setor de serviços encolheram em 2016 (ver gráfico abaixo). Os segmentos de comércio e de transporte, armazenagem e correios foram os mais afetados pela crise no setor: queda na atividade de 6,3% e 7,1% cada, respectivamente. Mesmo com resultados tão negativos, o setor de serviços como um todo apresentou resultados um pouco melhores (ou menos piores) que os setores da agropecuária (-6,6%) e indústria (-3,8%).

Com as mudanças no perfil de consumo e os avanços tecnológicos em curso, está claro que o crescimento dos países no século XXI dependerá, em grande parte, da capacidade de se produzir bens e serviços com cada vez mais conhecimento e tecnologias “embarcados”. Para isso, é preciso desenvolver um setor de serviços qualificado e mais integrado às cadeias de produção, em especial naquelas nas quais o Brasil apresenta vantagens comparativas estáticas e dinâmicas já reveladas.

É preciso colocar essa agenda como prioridade, ou correremos o risco de seguirmos eternamente suscetíveis aos custosos “voos de galinha”.

Os serviços incluídos nos carros autônomos

Quem não gostaria de parar de procurar vagas de estacionamento? Ou até mesmo de parar de dirigir em um engarrafamento longo e exaustivo? Enquanto a maioria dos consumidores aguarda pela chegada dos carros autônomos, as montadoras estão buscando cada vez mais agradar os seus clientes, oferecendo mimos tecnológicos. Uma das novidades é o assistente para estacionamento (park assistance), que é um comando que permite que o automóvel estacione sozinho. No Brasil, o Ford Focus Titanium Plus e alguns carros importados já possuem essa tecnologia. O Smile drive permite a conexão entre o carro e as redes sociais. Ele se conecta ao carro via bluetooth podendo compartilhar os caminhos percorridos, fazer check-in, postar fotos, enviar áudios, postar um texto, entre outros.

No mundo da tecnologia, as inovações têm surgido cada vez mais rapidamente. No mercado de automóveis não é diferente. Com tantas mudanças, Governos têm que agir mais rápido para atualizar sua normas e regras. A Alemanha e a França, por exemplo, já anunciaram que pretendem utilizar rotas para testar carros autônomos. Alguns países, se quiserem fazer o mesmo, terão que adaptar suas regulamentações para poder utilizar esses carros.

Os carros autônomos são mais um exemplo de bens industriais com alta proporção de serviços incorporados na sua fabricação. Como já explorado aqui no blog, esses serviços podem ser classificados como serviços de custo (ajudam a reduzir custos de produção), ou de agregação de valor, a depender de sua função no processo produtivo. No caso dos serviços embutidos nos carros autônomos, estes são majoritariamente de agregação de valor, já que, o valor do bem final (carro) será maior quanto mais desses serviços forem integrados na sua fabricação.

As grandes empresas perceberam o novo padrão do consumidor, que busca adquirir mais serviços tecnológicos. Com isso, essas empresas estão investindo alto em carros que podem, de alguma forma, trafegar sozinhos. O Pilot Assist é um serviço mais próximo dos carros autônomos. Com essa tecnologia os carros podem dirigir sozinhos na estrada, mantendo a sua posição na faixa e uma distância segura entre os carros.

Recentemente, a Tesla anunciou o lançamento de um carro quase autônomo, que prevê acidentes na pista, medindo precisamente a distância entre os veículos e a sua velocidade, bem como os obstáculos à frente. De acordo com a empresa: “a total autonomia permitirá a qualquer Tesla ser substancialmente mais seguro do que um condutor humano, baixar o custo financeiro dos transportes para quem tem um carro e oferecer mobilidade on-demand de baixo custo para quem não tem”. À medida que as empresas investem na pesquisa de carros autônomos, esses carros ficam cada vez mais eficientes e precisam cada vez menos de humanos em seus testes.

Figura 1. Tecnologias de um carro autônomo

Fonte: Product Design and Development (PDD)

De acordo com Wei, Pissardini e Fonseca (2013), alguns benefícios esperados com a chegada dos carros autônomos são:

1 – Redução de acidentes – pois serão quase que completamente eliminados os fatores erro e emoção;

2 – Melhoria do trânsito – em decorrência da organização e disciplina para o tráfego, gerada pela automação;

3 – Melhoria no ambiente de direção – pois não será preciso depender do ofuscamento dos faróis gerados por carros na direção oposta, já que toda a informação estará contida no para-brisas do carro.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) fabricaram, em 2013, o primeiro carro autônomo do Brasil, um Palio Weekend, que circulou cerca de 5,5km na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo. Esse mesmo grupo de pesquisa desenvolveu o primeiro caminhão autônomo da América Latina. Além da USP, pelo menos outras duas universidades brasileiras, a UFES, no Espírito Santo, e a UFMG, em Minas Gerais, têm projetos de pesquisa nessa área.

Porém, pelo seu custo elevado, esse tipo de pesquisa não é tão simples de se manter. O mercado automobilístico brasileiro tem reduzido a sua receita nos últimos anos, e, para além da crise, essa pode ser consequência de uma mudança no perfil do consumidor atual. Um estudo realizado pela Deloitte, em 2014, mostra que o consumidor brasileiro procura veículos com tecnologia voltada à segurança. Além da busca por segurança, os consumidores brasileiros parecem mais conscientes em relação ao alto custo de aquisição e manutenção de um automóvel. Essa é uma consequência da geração atual, que, muitas vezes, prefere abrir mão de adquirir um veículo para obter mais praticidade, trocando a necessidade de possuir um bem para simplesmente ter acesso a ele, por meio de serviços como o Uber.

Por conta desse processo, dificilmente a indústria automobilística venderá tantos de veículos como no passado. Mas certamente haverá mercado para carros autônomos, cada vez mais inteligentes, e com mais serviços embutidos. Nesse mercado promissor, empresas tradicionais do setor, como a Toyota, General Motors e outras já competem diretamente com empresas tradicionalmente de software e tecnologia, como Uber, Google e Baidu. Ainda não está certo qual dos dois grupos sairá vencedor, mas o consumidor certamente sairá beneficiado.

Boletim de Serviços – Março de 2017

O Boletim de Serviços de março de 2017 está disponível, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • A receita nominal do setor de serviços registrou contração de 1,43% em dezembro, na comparação anual, enquanto o volume de atividade contraiu 5,72%
  • A inflação de serviços atingiu 4,84% no acumulado em 12 meses
  • O primeiro mês de 2017 registrou o encerramento de 69 mil vagas de trabalho no setor de serviços
  • O déficit da balança de serviços foi de US$ 2,4 bilhões em janeiro
  • O IDE em serviços contabilizou crescimento de 353% na comparação anual

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: http://economiadeservicos.com/boletim.

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