Economia de Serviços

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5G no Brasil: uma nova rede a serviço de todos

O Brasil sairá de sua longa e profunda crise econômica. Mas só um salto tecnológico, e não as receitas convencionais de sempre, poderá garantir sustentabilidade. Como muitos outros países no mundo, a maior economia da América Latina terá de enfrentar os problemas de competitividade, crescimento econômico e geração de empregos. Hoje em dia, isso significa confrontar-se com os temas da inovação e da economia digital, que tornou-se o verdadeiro motor da economia moderna. A “bala de prata” do desenvolvimento econômico é a conectividade de banda larga. O Banco Mundial calcula que um aumento de 10% das conexões de Internet de alta velocidade representa uma expansão de 1,3% do crescimento econômico e promove uma “democratização da inovação”.

Sem dúvida, os principais desafios são o das novas redes de telecomunicações e a criação de um ecossistema de novos serviços ligados à 5G.

Afinal, por que a 5G é tão importante para o Brasil? Não se trata só de os consumidores brasileiros terem a possibilidade de desfrutar, no seu próprio telefone celular, de uma velocidade 1.000 vezes maior comparada à 4G, ou de baixar um filme em poucos segundos. A verdadeira revolução, muito mais profunda, está na capacidade de utilizar, de maneira massiva, a “Internet das Coisas” (IoT – Internet of Things) que permite conectar bilhões de objetos e, mais importante ainda, viabiliza novos serviços ditos de “baixa latência” como, por exemplo, os carros sem motorista ou os serviços de realidade aumentada para a medicina. Esses serviços de baixa latência são fundamentais para a produção dentro dos novos padrões da “Indústria 4.0” – basta pensar nos robôs industriais cada vez mais presentes nas fábricas.

Figura 1 – Possíveis usos para a tecnologia 5G

Fonte: NGMN, 2015

 

 

O atraso das redes brasileiras

 

Hoje, a infraestrutura de telecomunicações no Brasil é inadequada. As operadoras não investem de maneira suficiente, a concorrência é pouca, os preços são altos e muitas vezes a qualidade do serviço é medíocre. Tudo isso é mais do que sabido pelos brasileiros. Além disso, o Brasil tem um enorme problema de “fratura digital”: muitas áreas do país não estão cobertas, resultando num acesso praticamente impossível à Internet.

Olhando para o futuro, a situação é ainda pior. Em matéria de 5G, o Brasil ficou para trás e os operadores de telecomunicações que estão investindo na 4G – já com muito atraso – não demonstram nenhuma intenção de realizar, agora, novos investimentos na 5G, preferindo a ideia de fazer um simples upgrade da 4G. Mais grave ainda: essas operadoras farão tudo para bloquear a nova tecnologia e evitar que outros possam investir em seu lugar. Basta um só exemplo do atraso brasileiro: hoje, todos os clientes de telefonia móvel na China têm acesso à 4G. Não há razão nenhuma para que os brasileiros permaneçam no atraso.

 

Dividir atacado e varejo

 

O Brasil precisa da 5G e agora mesmo se não quiser ulteriormente perder competitividade no setor industrial e sobretudo nos campos da logística e dos sistemas de transporte. A 5G é uma infraestrutura de interesse nacional. O governo brasileiro deveria favorecer o nascimento de uma NewCo “5GBrasil”, junto com investidores privados (numa Parceria Público-Privada – PPP) cuja missão seria construir uma nova rede móvel de última geração 5G cobrindo o Brasil inteiro. A NewCo “5GBrasil” se limitaria a operar somente no mercado do atacado, incluindo os serviços ativos de rede, sem competir com as outras operadoras do mercado residencial. Qual seria a vantagem? Uma rede única é mais eficiente, com custos menores. Separando a rede propriamente dita dos serviços, ela favoreceria a concorrência com efeitos positivos para a redução dos preços, a melhoria da qualidade e maiores opções para os consumidores. Hoje, o mercado do varejo brasileiro está nas mãos de somente quatro operadoras, cada uma com sua própria rede. Com uma possível rede única, vários outros varejistas poderiam entrar no jogo, aumentando a concorrência – um poderoso incentivo para prestar maior atenção ao desenvolvimento de novos serviços.

A rede única também eliminaria a “fratura digital”. Atualmente no Brasil existem quatro redes móveis, com mais de uma em algumas áreas e nenhuma em outras. A vantagem da rede única seria também a de atrair novos investidores que apostam no longo prazo e não estão interessados em retornos de curto prazo como acontece hoje. As operadoras de telecomunicações e outros players poderiam se concentrar no mercado do varejo e nas plataformas tecnológicas para oferecer novos serviços. Os clientes da NewCo “5GBrasil” não seriam só as operadoras de telecomunicações mas também as emissoras de TV, a indústria verticalizada (automobilística, transportes, logística, indústria 4.0, etc) e as empresas de Internet. Todos teriam acesso à nova rede nas mesmas condições e sem discriminações. Os novos modelos de negócios, sustentados no acesso à fibra óptica generalizada e na partilha dos elementos ativos da rede, vão transformar o papel das empresas.

 

5G: Uma Parceria Público-Privada de 30 bilhões de dólares

 

O poder público brasileiro poderia facilitar o acesso às infraestruturas alternativas – as redes elétricas, por exemplo – e poderia entrar na NewCo “5GBrasil” com uma contribuição in natura, atribuindo as frequências e por meio de um fundo de garantia (por volta de 2 bilhões de dólares no caso de um investimento de 30 bilhões) de forma a reduzir o risco dos investidores. Uma estimação do investimento total poderia ser na ordem de 30/35 bilhões de dólares, que seriam assumidos pelos investidores internacionais privados, sócios industriais ou financeiros, e os grandes fornecedores também poderiam se parceiros dessa iniciativa.

Claro, não é possível ignorar a complexidade do mercado de telecomunicações no Brasil devida à situação da operadora Oi. Mas esse problema poderia também representar uma oportunidade. Se a Oi pudesse ser dividida em duas sociedades – Oi Rede e Oi Varejo – a NewCo “5GBrasil” poderia assumir a rede da Oi. Essa solução seria muito favorável para ambas as partes. A Oi resolveria parte de seus problemas financeiros e poderia voltar ao mercado com uma Oi Varejo muito mais competitiva, enquanto a NewCo “5GBrasil” poderia contar com uma rede já existente em muitas áreas do país.

O maior ponto positivo dessa rede 5G única é que todos saem ganhando. O governo brasileiro resolve o problema de construir uma rede de banda larga de última geração em todo o território nacional, eliminando o velho problema da “fratura digital”. As emissoras de TV brasileiras disporiam de uma nova plataforma de distribuição que poderia gerar novos serviços e novos e consistentes rendimentos. Os atuais operadores de telecomunicações poderiam utilizar a nova rede única pagando só o preço do aluguel, sem necessidade de novos investimentos, – uma vantagem que permitiria concentrar suas atividades nas novas plataformas de software, garantindo serviços de alta qualidade. Novas empresas americanas, europeias e chinesas poderiam entrar no mercado do varejo, oferecendo novos serviços aos consumidores brasileiros. Basta pensar, por exemplo, nas potencialidades do comércio eletrônico ou dos novos serviços de “Big Data” e Inteligência Artificial, Realidade Virtual, Realidade Aumentada, Robótica, etc.

 

Luigi Gambardella é Presidente da EUBrasil, ex-Presidente Executivo da ETNO, European Telecommunications Network Operators’ Association.

 

 Prof. Alfredo Valladão é Presidente do Advisory Board da EUBrasil, Professor da Paris School of International Affairs (PSIA), Sciences Po Paris, Senior Fellow OCP Policy Center.

 

O setor de serviços e o desafio da revolução digital na China

Mudanças estruturais no perfil da demanda chinesa estão em aceleração, seguindo o esgotamento do modelo baseado em investimentos, exportações e na produção estritamente industrial. Mesmo com a redução do crescimento da população trabalhadora migrante no país, muitas de suas cidades costeiras já possuem uma alta densidade populacional. Além disso, desde 2011, a população passou a ser mais urbana do que rural. Há a expectativa de crescimento dos serviços tradicionais, pela demanda da população sobretudo urbana, e dos serviços avançados pela demanda do setor manufatureiro.

Com a desaceleração do setor industrial, voltam-se as preocupações com a redução da demanda chinesa por importações, que foi um dos mecanismos importantes para a recuperação da economia global. Há uma emergência do setor de serviços na China, mas há quem defenda que ainda é improvável que isso possa compensar a redução da participação chinesa no comércio global, ou que vá apoiar as exportações do resto do mundo no curto prazo (SPIEGEL, 2015).

Ao se analisar o setor externo pelo lado dos serviços, a dinâmica aparenta ser bem diferente da verificada no setor industrial. Nota-se um grande crescimento das importações pela China a partir de 2010, saltando de US$ 140 bilhões para mais de US$ 450 bilhões em 2016. Já as exportações de serviços pelo país nesse mesmo período apresentaram-se quase constantes após um aumento de 2010 para 2011, variando em valores próximos a US$ 200 bilhões anuais desde então (ver figura abaixo). Claramente, a China não parece apresentar, no setor de serviços, a mesma competitividade verificada no setor manufatureiro, e isso pode ser um importante entrave para a continuidade no processo de forte crescimento que o país tem apresentado nas últimas décadas.

Figura – Exportações e Importações de Serviços da China

Fonte: elaboração própria, com base nos dados do Banco Mundial.

Ao mesmo tempo em que há um problema de competitividade dos serviços chineses, o país tem passado por um processo de aceleração da transformação digital nos últimos anos. Dinâmicas importantes do perfil de consumo e do padrão de vida de sua sociedade, cuja renda nacional média em termos de Paridade do Poder de Compra saltou de US$ 2.900 em 2000 para US$ 15.500 em 2011, aumentaram o ritmo dessa transformação.

De acordo com dados do Banco Mundial, o uso de celulares móveis na China saltou de 6,7% em 2000 para 63,2% em 2010, para então 92,2% em 2016. Quanto à porcentagem de usuários da internet, essa representava apenas 1,8% da população em 2000, elevando-se para 34,3% em 2010, até que, em 2016, a maior parte passou a ser usuária (50,3%). Esses dados mostram um crescimento considerável de conectividade, mas que ainda apresenta grande margem a ser explorada, seja em números absolutos de potenciais usuários da internet, seja no fechamento do hiato “celular e acesso à internet”.

Ainda que pouco mais da metade da população utilize Internet, por seu tamanho, o país possui a maior população de usuários da internet, em torno de 721 milhões. No entanto, é mais do que claro que o país conta com rígidas restrições de presença de grandes empresas estrangeiras e de acesso de seus cidadãos a plataformas globais, e que isso pode interferir na expansão digital futura. A internet para China funciona mais como uma espécie de intranet, na qual muitos sites de alcance global como o Google, Youtube e Facebook possuem acesso censurado ou conteúdo bloqueado. Como resultado, outras plataformas, em geral chinesas, passam a funcionar como ‘substitutas’ ou ‘paralelas’, como Baidu, Youku, Weino e WeChat.

As restrições políticas e regulatórias interferem claramente nas decisões de investimentos, mas algumas empresas estão dispostas a se adaptar ao regime. A Apple instalou o primeiro centro de dados na China, seguindo as regras mais rígidas implementadas recentemente por Pequim quanto à segurança cibernética, segundo as quais todos os dados coletados de cidadãos chineses devem ser armazenados em território chinês. As informações incluem mensagens privadas, fotos e back-ups de dispositivos (BRADSHAW; FENG, 2017). É uma espécie de concessão para que as empresas internacionais acessem o maior mercado de celular móvel do mundo, em troca de fornecer maior garantia ao governo chinês de controle e inspeção.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, em uma pesquisa de opinião realizada com executivos na China, foi revelado que a maior preocupação da comunidade de negócios do país é a dificuldade em inovar. É notório que os Estados Unidos são a economia mais competitiva no setor de serviços avançados muito em razão de seu ambiente e cultura favoráveis à proliferação de práticas inovadoras e empreendedoras. Sendo assim, cabe o questionamento: será a China capaz de criar condições e incentivos em larga escala para a inovação e livre iniciativa na economia de serviços e sem prejudicar os avanços da revolução digital? O desafio da transição estrutural pode se apresentar como um teste à própria resiliência do modelo político-econômico chinês.

Economia de compartilhamento ou de sobras?

O recente entusiasmo sobre o avanço de economia do compartilhamento, como refletido nos livros de Botsman e Rogers (2010), Sundararajan (2016) e Gransky (2014) deve-se em grande parte pela expectativa de que esse novo modelo de negócios traria impactos econômicos positivos. Economia do compartilhamento, colaborativa, mesh são termos que vêm sendo invocados para explicar recentes modelos de negócios que permitiriam o aproveitamento mais eficiente e racional de ativos subutilizados, por meio da intermediação direta entre indivíduos em plataformas digitais (BOTSMAN; ROGERS, 2010; GRANSKY, 2014; SUNDARARAJAN, 2016).

Segundo esses autores, essas plataformas promoveriam uma distribuição de renda mais equitativa e sustentável, ao reduzir não somente o custo de acesso a produtos e serviços como também a demanda pela posse de ativos. No entanto, como vem sendo discutido neste blog, e em recentes artigos científicos (FRENKEN; SCHOR, 2017), os alegados benefícios da economia do compartilhamento são muito mais complexos do que inicialmente se assume. Forças de mercado atuantes em indústrias com alta tecnologia da informação – como efeitos-rede, maior capacidade de personalização de preços e produtos, custos de substituição e melhor informação para incumbentes (VARIAN, 2001) – sugerem que existe um movimento não somente de consolidação de mercados, como também da renda global.

Como notado por Varian e Shapiro ainda em 1999, estruturas de mercado com alta tecnologia estão sujeitas a efeitos rede positivos e tendem a exibir crescimento explosivo: à medida que a base instalada de usuários cresce, mais usuários consideram que adotar uma determinada plataforma vale a pena. PARKER; VAN ALSTYNE; CHOUDARY, 2016). Assim, uma vez que uma plataforma atinge uma “massa crítica” de usuários e se estabelece no mercado, pode ser extremamente difícil para outras empresas concorrerem (VARIAN, 2001). Além disso, os custos de substituição de uma plataforma para uma nova passam a ser extremamente altos, o que acaba deixando os consumidores “locked-in[1].

Ainda, a vantagem competitiva de plataformas já estabelecidas é fortalecida pela apropriação das informações produzidas pelos usuários. Nesse contexto, à medida que as plataformas vão crescendo e expandindo seus clientes, os padrões e as preferências de cada usuário tornam-se progressivamente conhecidos, o que as permite oferecer serviços cada vez mais customizados e as tornar indispensáveis (VARIAN, 2001). Essa expansão permite que seus algoritmos sejam continuamente aperfeiçoados, tonando a vantagem competitiva cada vez maior.

Como consequência, plataformas já estabelecidas passam a desfrutar de lucros tão elevados que podem rapidamente capturar novos mercados comprando concorrentes, expandindo sua atuação para segmentos diferentes (SCHWAB, 2016; WORLD BANK, 2016) e impondo barreiras a novos entrantes, o que tem contribuído para a consolidação de mercados. Esse movimento é observado inclusive na economia do compartilhamento. O Airbnb, por exemplo, pretende evoluir de uma plataforma de acomodações residenciais para uma empresa de viagens abrangente, fornecendo serviços de turismo customizados, conforme mostrou matéria recente da Economist.

Há, ainda, a preocupação que o avanço da tecnologia e das vantagens competitivas intensifique a desigualdade na distribuição de renda em nível global. Como demonstrado abaixo, a distribuição da renda pode ser bem representada pela “curva sorriso”, que tende a ficar mais menos achatada ao longo do tempo.  Os criadores das plataformas, que desenvolvem atividades na ponta da curva – e em grande maioria estão localizados em países de renda alta – tendem a captar uma parte cada vez maior do valor produzido, enquanto os usuários das plataformas tendem a adquirir apenas uma fração pequena do valor, por oferecerem, em geral, serviços “de massa”, dificilmente diferenciáveis.  Não surpreendentemente, o termo compartilhamento de sobras já vem sendo utilizado para enfatizar o fenômeno de captura da maior parte dos benefícios gerados pelas plataformas por elas próprias.

Figura – Distribuição de Valor nas Cadeias de Produção ao longo do tempo  

 Fonte: Adaptado de Interconnect Economies Benefiting from Global Value Chains. OCDE, 2013

Sob essa perspectiva, são crescentes os desafios econômicos advindos do avanço do modelo de negócios de plataformas digitais associadas à economia colaborativa.  Na ausência de uma reflexão econômica e jurídica mais consistente sobre as falhas de mercado das plataformas associadas a economia do compartilhamento, elas têm se aproveitado de lacunas regulatórias para expandir sua atuação, como já vem sendo discutido por Frazão.

Fica clara a necessidade de avanço na compreensão da multiplicidade dos impactos da economia do compartilhamento para construção de uma arquitetura regulatória que evite o abuso de poder de mercado por parte das empresas criadoras das grandes plataformas. Não menos importante é que políticas públicas de incentivo à criação e ao desenvolvimento de empresas inovadoras sejam parte das prioridades da agenda governamental, criando condições para que o país se aproprie de benefícios cada vez maiores da economia digital.

[1]Tal situação é analisada em Varian (2001), em modelo simples de “lock-in”.

Lorena Giuberti Coutinho é Analista de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). É mestranda no curso de Economia da Universidade de Brasília – UnB, com Especialização em Defesa Comercial pelo Ibmec e graduada em Economia pela UnB. Participa atualmente de intercâmbio profissional no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington, DC.

Referências Bibliográficas

BOTSMAN, R.; ROGERS, R. What’s mine is yours. 2010.

FRENKEN, K.; SCHOR, J. Putting the sharing economy into perspective. Environmental Innovation and Societal Transitions, v. 23, p. 3–10, 2017. Elsevier B.V.

GRANSKY, L. The mesh – why the future of business is sharing. 2014.

PARKER, G. G.; ALSTYNE, M. W. VAN; CHOUDARY, S. P. Platform revolution: How Networked Markets Are Transforming the Economy–And How to Make Them Work for You. 2016.

SCHWAB, K. The Fourth Industrial Revolution. 2016.

SUNDARARAJAN, A. The Sharing Economy – The End of Employment and the Rise of Crowd–Based Capitalism. 2016.

VARIAN, H. Economics of Information Technology. Working paper, n. July 2001, p. 1–53, 2001.

WORLD BANK. World Development Report 2016: Digital Dividends. 2016.

O 5G como catalisador de negócios no meio digital

Num mundo onde os dados assumem cada vez maior centralidade na geração de riqueza, as comunicações móveis evoluem para possibilitar maior capacidade, velocidade, segurança, ubiquidade e menor latência nas trocas de informações. Nesse contexto, a quinta geração de sistema sem fio (5G), prevista para 2020 pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), pretende ser poderosa e suficientemente flexível para atender aos cenários de tráfego de dados previstos e desconhecidos. Catalisando o surgimento de novos serviços e de novos modelos de negócios, o 5G deve contribuir com a tendência do crescimento da participação do setor de serviços no PIB dos países.

O ciclo da quinta geração deverá ser bem diferente das anteriores por uma razão em especial: os motivos econômicos nunca experimentaram tamanha influência na formação de suas características. Diferentemente da primeira, segunda, terceira e quarta geração de comunicação móvel, voltadas para comunicação entre pessoas, o 5G deve estar voltado para atender serviços, conectar dispositivos e máquinas, ao invés de pessoas. Exemplos: com o 5G, espera-se aumento de pagamentos efetuados online, de uso de aplicativos que aumentem a comunicação do comprador e vendedor, de máquinas interconectadas dentro das fábricas potencializando o just in time e de robôs realizando serviços.

Dessa forma, o 5G acelera o crescimento da internet das coisas (IoT) e desperta interesse de vários agentes: a exemplo da 4.0, a indústria poderá automatizar ainda mais sua linha de produção e estar mais conectada aos distribuidores e consumidores. Já o setor financeiro anseia por aumento de robôs operando nas bolsas de valores e aumento na velocidade de troca de informações, a fim de antecipar acontecimentos e reduzir latência. No mercado financeiro, o ganho de milissegundos pode ser crucial para o sucesso de várias operações financeiras. Donos de plataformas digitais e operadores de comércio eletrônico, por sua vez, pretendem expandir capilaridade, incluir novos usuários e, consequentemente, aumentar a publicidade, as compras e receitas. Também para as operadoras de telefonia, o 5G representa geração de receitas, pois se trata de um novo serviço a ser explorado. Por fim, os usuários das redes observam no 5G a possibilidade de conexão mais veloz e confiável.

Com tantos agentes interessados na evolução do serviço móvel de trocas de dados, duas preocupações são crescentes: o suporte ao uso intensivo da rede e a otimização espectral. Assim, a arquitetura de comunicação necessitará de conexões inteligentes, que recebam e enviem informações aproveitando os melhores canais e caminhos disponíveis no momento. Pela primeira vez na história da rede móvel sem fio, os serviços não estarão limitados a uma banda específica. Em vez disso, devem seguir o melhor espectro disponível no momento da transmissão de dados.

Assim, espera-se maior dinamicidade, adaptação, flexibilidade e reconfiguração automática para a rede. A inteligência para tomada de decisão quanto à conexão será máxima nos dispositivos móveis, robôs, nas antenas e nos servidores.  Ademais, baterias de longa vida devem se tornar foco de pesquisas para o suporte de toda essa inteligência.

Tudo isso permitirá o surgimento de novos serviços dependentes de internet confiável como telemedicina, transporte através de veículos autônomos, pulverização de inseticida através de drones e etc. Imagine o caso de uma cirurgia feita por robôs. Agora pense como ela se tornaria inviável se a internet é passível de falha durante o corte.

Segundo dados da IHS (2017), entre 2020 e 2035 devem ser gerados US$ 12,3 trilhões em bens e serviços através do 5G, e os investimentos médios anuais devem ser da ordem de US$ 200 bilhões em sua cadeia de valor. Tal investimento deve ser capitaneado pelos Estados Unidos (EUA) e China, conforme ilustração abaixo.

Figura 1. Proporção de investimento em bens de capital e em pesquisa e desenvolvimento da cadeia de valor do 5G, em média, por país, entre os anos de 2020 e 2035

Fonte: IHS (2017), adaptado

No Brasil, a primeira demonstração do 5G foi feita em 2016 e, no geral, as empresas de telefonia já começaram a se preparar para oferecer o serviço no país. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) tem se esforçado para ampliar o montante investido em 5G no território nacional e para estabelecer acordos multilaterais no desenvolvimento da tecnologia, com ações como chamadas de pesquisas conjuntas, fóruns de padronização e eventos anuais para compartilhamento de informações.

O mais recente esforço brasileiro para fomento e construção do ecossistema de quinta geração é o Projeto Brasil 5G, formalizado em fevereiro deste ano. Composto por Abinee, Anatel, Cetuc, CPqD, Ericsson, Fitec, Huawei, Inatel, Informa, NEC, Nokia, Oi, Qualcomm, Sindisat, SindiTelebrasil, Telebrasil, TIM, Trópico e MCTIC, o projeto também visa o preparo do país para as participações nas discussões internacionais. Esse grupo firmou em maio deste ano um acordo de cooperação tecnológica em 5G com a União Europeia, os Estados Unidos, a Coreia do Sul, o Japão e a China para o desenvolvimento da nova tecnologia.

A exemplo das teorias do comércio internacional, essas trocas e parcerias entre instituições brasileiras e grupos internacionais pode ser proveitosa para ambos os envolvidos. Porém, é preciso não perder de vista que o 5G pretende ser um meio pelo qual muita riqueza será gerada e, por isso, é necessário permanente amadurecimento das estratégias nacionais para a maximização de seu uso para o desenvolvimento de negócios no país. Aparentemente, estamos diante de uma nova forma de desenvolvimento e, se o Brasil não investir de forma estratégica nessa área agora, no futuro, a distância dele para os países desenvolvidos tenderá a ser ainda maior.

A transformação econômica da China e os serviços

A China experimenta a mais formidável transformação econômica que se tem registro. De uma economia rural e agrária, a China passou a ser uma economia industrial e voltada à exportação de bens industriais. Reformas políticas combinadas com políticas de realocação da mão-de-obra rural para movimentar fábricas e com políticas vigorosas de expansão do crédito, dos investimentos e das infraestruturas levaram o país à condição de segunda maior economia do globo em menos de duas gerações.

Mas o modelo de export-led strategy fortemente baseado em acumulação de capital e em trabalho barato está chegando ao fim. As taxas anuais de crescimento do PIB passaram da ordem de 10-12% para cerca de 6,5% e deverão caminhar para um patamar de 4,5-6,5% nos próximos anos.

A China está promovendo nova reestruturação da sua economia. Agora, em direção a uma economia com maior participação dos serviços e com maior protagonismo da ciência e da tecnologia. Busca-se organizar e preparar a economia para a etapa mais avançada do desenvolvimento econômico. Ao invés de fábricas de cimento e de aço, fábricas de bens sofisticados com alto conteúdo de inovações embarcadas e produzidos com sistemas avançados de gestão e produção. Ao invés de foco em serviços de consumo, foco em serviços sofisticados de apoio aos setores industrial, agrícola e de mineração que, de um lado, reduzam custos e, de outro, agreguem valor e diferenciem os produtos. Plantas industriais tecnologicamente defasadas, intensivas em mão-de-obra, poluidoras e que consomem muita água estão sendo fechadas ou relocalizadas em outros países. De “fábrica do mundo” a China busca ser produtora de bens e serviços altamente sofisticados e gestora de cadeias globais de valor.

O caminho será longo, mas indicadores já mostram sinais de que a transformação está em curso.

O gráfico abaixo apresenta indicadores selecionados da economia chinesa. A despeito de ligeira queda, a participação da manufatura no PIB segue elevada, por volta dos 30-35%, muito acima do padrão dos países avançados, que é de metade daquele patamar.

Gráfico – China, indicadores selecionados

Notas sobre o gráfico: Densidade industrial: valor adicionado da manufatura per capita (em US$), eixo da esquerda. Fonte: calculado com dados do World Development Indicators.

%Manuf-PIB: participação percentual da manufatura no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

%PBS-PIB (professional business services): participação percentual dos serviços comerciais profissionais no PIB; consideram-se os serviços especializados destinados às cadeias de produção tais como correios e telecomunicações, intermediação financeira, atividades imobiliárias comerciais, aluguel de máquinas e equipamentos, TI e atividades correlatas, P&D e outras atividades comerciais profissionais, eixo da direita. Fonte: World Input-Output Database.

%Serviços-PIB: participação percentual dos serviços no PIB, eixo da direita. Fonte: World Development Indicators.

A densidade industrial teve aumento contínuo e absolutamente espetacular. Entre 1979 – ano do início das reformas – e 2014, a densidade aumentou nada menos que 29 vezes, o que mostra uma crescente capacidade da indústria chinesa de se aprimorar e agregar valor.

O aumento da participação do setor de serviços não veio em detrimento da indústria. Pelo contrário, como mostram evidências empíricas (Arbache 2012, 2015, 2016), o aumento da densidade industrial resulta do aumento da relação sinergética e simbiótica da indústria e dos serviços para criar valor. O rápido aumento dos serviços comerciais profissionais (PBS) no PIB, que passou de 12% para 18% entre 2000-2014, é uma expressão desse movimento.

A tendência é que o setor de serviços siga crescendo seu protagonismo na economia chinesa, seja para atender à nova etapa do desenvolvimento econômico, seja para atender à crescente demanda do mercado interno urbano de consumo. É improvável, porém, que o setor de serviços atinja participação no PIB comparável ao dos países avançados, mas é muito provável que o PBS cresça de forma desproporcional.

Dois anos de blog

Em julho, completamos nosso segundo ano de blog. Nesse período, registramos 205 posts, de 39 autores, e registramos 130 mil visualizações. Gostaríamos de agradecer a todos que nos seguem, leem, comentam e contribuem para o nosso debate.

Cada vez mais, percebemos a temática da economia de serviços presente em discussões na imprensa, academia e na sociedade, e acreditamos que somos parte disso. Está claro que, ao pensar em saídas para a crise atual e para o desenvolvimento do país no longo prazo, não podemos ignorar o maior setor da economia, responsável por quase três quartos do PIB brasileiro.

Abaixo, segue uma compilação de posts que julgamos ser representativa dessa discussão:

A inovação na Nova Economia

A inovação é inerente à natureza humana. Entretanto, como qualquer processo de mudança, causa incômodo.  Em muitos casos, a inovação é vista mais pelo lado pessimista do que pelo otimista, com imagens de máquinas ocupando o lugar dos humanos nos processos produtivos, de concentração extrema de renda, entre outros. E, quanto mais rápida é a mudança, mais complicada é a previsibilidade sobre o resultado final.

Surge, então, uma vasta literatura que tenta explicar os efeitos dessa revolução tecnológica que presenciamos atualmente, cujo escopo e a velocidade de implementação apresentam-se extremamente intensos. Em especial, observa-se que, cada vez mais, os serviços têm agregado valor a produtos e até mesmo a outros serviços. Nesse cenário, o grosso do valor, numa cadeia de produção, tende a ser adicionado mais pelo setor de serviços do que pela indústria de transformação (“velha economia”). Vamos chamar esse processo de “nova economia”.

A nova economia tem como ponto de partida as grandes plataformas, empresas de criação de aplicativos, lojas virtuais e profissionais analíticos de big data, formando um mundo novo e de espantosa capacidade de crescimento e transformação. Mas analisar o resultado das mudanças é enxugar gelo. É preciso acalmar o ânimo com as novidades e tentar entender o processo que explique essas mudanças. Seria a nova economia uma exceção à Lei dos Rendimentos Decrescentes? Improvável.

Na verdade, essa nova economia representa, essencialmente, uma mudança no padrão de consumo e não no padrão de produção, que ainda se encontra inserido na velha economia. Nesta, as firmas procuram otimizar seus bens de produção, aumentando a produtividade (por meio da formação de cadeias globais de valor, investimentos em tecnologia de produção, otimização de mão-de-obra etc.). Via competição de mercado, a empresa ofertará o menor preço para obter o maior número de consumidores.

Já a nova economia apresenta a oferta qualificada como diferencial de conquista do consumidor, considerando o preço como já dado (igualmente à velha economia, mas visando a qualificação do consumidor e não da produção). Esse processo envolve elevada sofisticação de análise de dados e, para tanto, foram criadas empresas para atender esse mercado. Afinal, em um nicho novo, os primeiros entrantes tendem a ganhar as maiores margens.

O problema é que a tendência criada pela nova economia obriga as firmas a utilizar os serviços desses primeiros entrantes, em especial no que diz respeito às plataformas massificadas (commodities digitais), seja para venda, soluções de tecnologia ou geração e disponibilização de informações. Como essas plataformas são massificadas, dificilmente há um diferencial relevante entre todas as firmas que também farão uso delas. Atuar nessas plataformas tende a apenas garantir a sobrevivência dessas firmas via migração do consumidor para a “novidade personalizada”. Pense no caso das pequenas empresas que vendem em grandes plataformas como a Amazon ou o Mercado Livre: há poucas diferenças entre um ou outro vendedor.

A tendência natural é que haja maior concentração entre empresas que tenham capacidade de entrar na nova economia e necessitam de escala para utilizar as plataformas. Contudo, isso não necessariamente irá representar maior ganho de resultado para essas empresas, já que essas grandes plataformas não tendem a melhorar a produtividade das firmas, apenas tendem a garantir que elas sigam “no jogo”.

Nesse caso, há uma diferença significativa entre as empresas que criam e gerenciam as plataformas e as empresas que fazem uso delas. Enquanto as primeiras conseguem ganhar cada vez mais com sua escala internacional e usabilidade, as diversas empresas que fazem uso dessas plataformas não necessariamente apresentam melhores resultados, mas apenas não são excluídas do mercado devido a capacidade de atender ao cliente da forma personalizada e diferenciada que essas plataformas possibilitam.

Consequentemente, há um limite de renda que será possível transferir das firmas da velha economia (que ainda sustenta o sistema) para a nova economia. Ou seja, as empresas da nova economia também estão sujeitas à Lei dos Rendimentos Decrescentes. Quanto mais empresas estiverem inovando para atender uma demanda personalizada, mais estarão consumindo o mark-up de renda das empresas da velha economia e reduzindo o “estoque existente”.

Por exemplo, imagine que existe uma plataforma de pesquisa de clientes, outra plataforma que permite entregar algum produto via drone, localizada na Califórnia, outra plataforma de pagamento, etc. Em algum momento, uma empresa (restaurante, por exemplo) chegará ao seu limite no qual poderá continuar a custear os serviços disponibilizados pelas plataformas. A figura 1 ilustra esse exemplo. Já as plataformas tenderão, por conta dos efeito rede e plataforma, a ganha mais mercado, já que elas passam a ser infraestrutura necessária para outras empresas. Nesse processo, a tendência é que haja concentração de empresas tanto na velha economia, quanto na nova economia. E isso fica claro quando percebemos a compra de plataformas entrantes no mercado por outras já maiores e consolidadas.

Figura 1 – Gastos das firmas com plataformas e capacidade de escala da nova economia, valores hipotéticos

Fonte: elaboração própria

Essa capacidade de atuar em escala Mundial, podendo uma empresa estar localizada em qualquer lugar do mundo e com investimento em infraestrutura própria relativamente baixa, vem criando espanto sobre as empresas da nova economia (Google, Amazon, Airbnb, Uber, etc.). Elas estão mudando a geografia mundial de prestação de serviços, já que exigem toda uma estrutura especializada, com qualificação e capacidade de inovar e pensar além de sua fronteira. Consequentemente, acabam se localizando nos polos que melhor proporcionam esse ambiente educacional, intelectual e infraestrutura, como América do Norte, alguns países da Europa e Ásia. Já com relação às firmas da velha economia, elas sofrem naturalmente substituição de mão-de-obra não especializada, assim como um aumento na concentração de firmas devido à necessidade de escala e capacidade financeira para fazer uso dessas tecnologias.

Pode-se inferir que haverá cada vez mais perda de emprego para trabalhadores não qualificados pertencentes à velha economia. Assim como a necessidade de se fazer investimentos em educação formal de qualidade (especialmente nas áreas de exatas), ensinamento em linguagem de programação, língua estrangeira e desenvolver capacidade de inferência sobre dados, conforme vem sendo discutido neste blog. Pois, sem esse mínimo, o Brasil não corre o risco somente de ficar sem empresas da nova economia como desenvolvedor e distribuidor, que trazem consigo uma externalidade positiva, mas também de ficar sem empresas competitivas da velha economia.

Alisson Peixoto é Mestre em economia, com especialização em finanças de empresa. Trabalha como consultor na Caixa Seguradora.

Boletim de Serviços – julho de 2017

O Boletim de Serviços de julho de 2017 está no ar, clique aqui para acessá-lo. Alguns dos destaques:

  • O volume do setor de serviços registrou leve aumento de 1,3% em abril na comparação anual, com destaque negativo para os serviços de valor (-6,9%).
  • A inflação de serviços acumulada em 12 meses registrou aumento, chegando a 5,3% em maio.
  • O setor de serviços voltou a apresentar resultado negativo na geração de emprego, tendo destruído 12,1 mil novas vagas.
  • O déficit na balança de serviços seguiu em US$ 2,5 bi. no mês de maio.

Para acessar a metodologia e as séries históricas em excel, acesse: http://economiadeservicos.com/boletim.

Multa da Google, rendição da Nike e desenvolvimento econômico: o que há em comum?

Em 27 de junho, o órgão de defesa da concorrência da União Europeia (UE) anunciou uma multa recorde de € 2,42 bilhões para a Google. Trata-se da maior multa já aplicada pela UE para uma empresa por conduta anticompetitiva. A sanção se deveu por abuso de posição dominante em buscas na internet para favorecer o próprio comparador de preços para compras online, o Google Shopping. A Google também responde a dois outros processos na UE. Um relacionado à sua ferramenta de publicidade e outro relacionado ao Android, que já vem com diversos aplicativos próprios pré-instalados. Em ambos, a acusação é a mesma: prática anticompetitiva.

Por anos, a Nike se recusou a vender seus produtos no marketplace da Amazon por entender que este não seria o melhor caminho para a imagem da marca e para o seu modelo de negócios. Recentemente, porém, a Nike jogou a toalha e se associou ao gigante do e-commerce para comercializar os seus produtos.

O que essas duas estórias aparentemente dissociadas têm em comum? A explosiva importância da economia digital para determinar os contornos da economia no século XXI e os meios utilizados pelos grandes operadores para ampliar e manter o seu domínio.

Conforme indicou a UE, a Google usa e abusa de expedientes não competitivos para seguir ampliando a fatia da sua plataforma em vários segmentos da Internet. Ainda que isto possa lhe custar sanções, não é óbvio que a Google abandonará práticas competitivas questionáveis, já que os benefícios podem ser enormes. Já a Amazon, através de uma formidável capacidade de ação, ameaça sem cerimônia o varejo de rua não apenas dos Estados Unidos, mas, também, de outros países.

Há, definitivamente, uma transformação econômica em curso associada à economia digital e empresas com ambições globais sabem que é preciso se preparar para ela sob pena de ficarem pelo caminho. Ou de se tornarem dependentes da plataforma de alguma outra empresa.

Neste momento, observam-se plataformas segmentadas e plataformas mais amplas. Dentre as plataformas segmentadas incluem-se a PayPal, a SAP e outros serviços de propósitos específicos que se tornaram influentes em suas áreas, inclusive contribuindo para determinar padrões e regras.

Já as plataformas amplas atuam em frentes diversas e oferecem cada vez mais um leque de bens e serviços de A a Z . Ali estão as temidas superestrelas, como a Amazon e a Google. Os efeitos-rede e plataforma que essas empresas têm sido capazes de criar são de tal monta que tornou-se quase impossível contestá-las, ao menos no horizonte previsível. Isto explica, ao menos em parte, as práticas não-competitivas ousadas da Google e a capitulação da Nike.

Esse movimento também ajuda a explicar o definhamento dos unicórnios, startups que chegaram a valer US$ 1 bilhão ou mais e que, até recentemente, incomodavam as superestrelas. A PayPal, por exemplo, está perdendo clientes para a Amazon simplesmente porque uma plataforma de pagamentos segmentada tem menos condições de competir com um sistema de pagamentos próprio já “pré-embarcado” numa plataforma geral.

O que está em jogo nem sempre é a melhor prestação de serviços para o consumidor ou mesmo o melhor algoritmo, mas o modelo de negócios mais adaptado ao  agressivo ambiente que se desenrola. Por isto, o futuro da PayPal é incerto.

O que tudo isto tem a ver com o desenvolvimento?

Haverá um acelerado processo de consolidação de vários segmentos que estão direta ou indiretamente expostos à economia digital dando origem a conglomerados sem precedentes com enorme poder de ação e influência global.

A despeito da briga de foice que se trava entre empresas dos Estados Unidos e de outros países avançados pela dominância de mercados digitais, esta estória não é neutra do ponto de vista do desenvolvimento. Afinal, como temos reiterado neste blog, o mundo está sendo dividido entre usuários de um lado, e desenvolvedores, distribuidores e gerenciadores de commodities digitais de outro.  E neste último grupo estão países como Estados Unidos, Alemanha e Japão, e, correndo por fora, a China.

Esse movimento sugere fortemente a necessidade de governos e reguladores se atentarem para o canto da sereia das supostas belezas da convergência regulatória e da liberalização dos mercados digitais sem terem uma estratégia de longo prazo.  Diferentemente de mercados convencionais, como  automóveis, têxteis e produtos químicos, a economia digital não é mais do mesmo. Ao tempo em que é uma grande ameaça para aqueles que ficarem para trás em áreas variadas como perspectivas de crescimento econômico, criação de empregos, carga tributária, privacidade e proteção de dados e segurança nacional, a economia digital ainda oferece enormes oportunidades, justamente em razão da sua natureza tecnológica.

China e Índia já entenderam isto e trabalham com estratégias bem definidas tanto para protegerem seus interesses como para contestarem mercados e se tornarem players globais.

O caminho a seguir é o de desenvolver políticas públicas que identifiquem e removam obstáculos e criem oportunidades para o país participar da economia digital como desenvolvedor, distribuidor e gerenciador de commodities digitais e não apenas como usuário.

Fortalecer o conhecimento das crianças e jovens em matemática, ciências da vida, machine learning, programação e desenvolvimento de algoritmos e línguas estrangeiras; criar um ambiente favorável para o surgimento, crescimento e atração de startups; e colaborar com centros de pesquisa estrangeiros e com empresas multinacionais de economia digital devem ser parte de uma agenda mais extensa e ambiciosa que proteja os interesses do Brasil ao tempo em que otimiza o seu potencial de voos mais altos na economia global.

As cidades no contexto da transformação digital

No cenário de mudança da sociedade para a era da informação, duas forças estão em ação induzindo mudanças estruturais na economia, com potenciais efeitos espaciais. O rápido desenvolvimento das tecnologias digitais e o uso de informação nos processos produtivos estão transformando o mercado de trabalho, os modelos de produção e de negócios. Também, o declínio do crescimento demográfico impactará o crescimento econômico no futuro. Nesse contexto, cabe a pergunta sobre qual o papel do espaço na nova produção do século XXI e o seu impacto no desenvolvimento de cidades, regiões e países.

No fim do século XIX, o progresso tecnológico e a queda dos custos de distância – transportes de bens, informação e interpessoal – intensificou o comércio inter-regional e mundial e também a fragmentação da produção no espaço. Associados ao crescimento demográfico e à abundante oferta de mão de obra, esses fatores induziram o desenvolvimento de grandes cidades e regiões, aproveitando os ganhos de eficiência na produção, nos transportes, nos mercados de trabalho e no intercâmbio de informações, dando forma ao desenvolvimento da sociedade industrial que adquire feições mundiais no século XX.

No século XXI, novas tecnologias de comunicação e processamento de informações e a criação de novos produtos digitais estão redesenhando os sistemas produtivos e a natureza das atividades econômicas. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que existem duas tendências de transformação da produção causadas pelas tecnologias digitais: (i) custos decrescentes a partir da sua maior difusão e utilização, e (ii) combinação de diferentes tecnologias da informação e comunicação (TIC) e sua convergência com outras tecnologias.

Nos países avançados, a produção industrial tem se tornado mais complexa, adaptada a um número reduzido de trabalhadores de alta qualificação onde o setor de serviços, especialmente os serviços digitais, adquire mais importância. Hoje interessa não mais o produto em si, mas a solução – ou serviço – a ele integrado. Estamos passando de uma sociedade industrial para uma sociedade informacional, de um consumo em massa de produtos padronizados para um consumo de produtos customizados.

Junto à transformação digital da economia outra questão que se apresenta é a do baixo crescimento demográfico. O crescimento econômico a partir de 1960 em 56 países que sustentaram uma taxa de pelo menos 6% durante uma década ou mais foi acompanhado por um crescimento da força de trabalho – população acima de 15 anos – de 2,7% ao ano. No entanto, observa-se uma queda cada vez mais acentuada do crescimento demográfico na Europa, Japão, Estados Unidos e também nas economias emergentes, indicando um maior envelhecimento da população mundial com potenciais reflexos para o crescimento no longo prazo da força de trabalho mais jovem, do consumo e das cidades.

Gráfico 1 – População mundial (em azul) e seu crescimento (em vermelho), 1750-2100

Fonte: Max Roser and Esteban Ortiz-Ospina (2017) – ‘World Population Growth’. Publicado online em OurWorldInData.org.

Em setores da Indústria 4.0, na qual os processos produtivos são intensivos no fluxo de informações e conhecimento, a proximidade física a matérias primas, oferta abundante de mão-de-obra ou mercados consumidores podem perder importância como forças de aglomeração, pois insumos e produtos podem ser transportados por via remota a custos próximos a zero. Isso implica que empresas e trabalhadores poderiam se dispersar no espaço, buscando áreas com mais amenidades e dotadas de infraestrutura adequada, longe dos grandes centros urbanos congestionados, com alto custo de moradia, poluição e alta criminalidade.

Contudo, na nova economia, as tecnologias digitais e a informação são os fatores críticos para a produtividade e a competição das empresas – devido à sua rápida obsolescência. Mesmo contando com a comunicação remota, empresas e trabalhadores tenderiam a se localizar uns próximos aos outros devido à maior interação física potencializada nas aglomerações, por exemplo, junto a universidades e centros de pesquisa. Devido à demografia e à natureza da economia digital, no entanto, provavelmente, não haverá, no futuro, condições para a formação de cidades muito grandes.

Na medida em que cidades menores podem não oferecer toda a gama de serviços demandados por trabalhadores e empresas tecnológicas, que necessitam de escala para se viabilizarem – serviços financeiros, empresariais (design, marketing, consultorias especializadas, etc.), cultura e lazer –, a proximidade aos grandes centros urbanos ainda será importante.

Embora essas tendências possam sugerir que a formação de grandes cidades poderá perder força nas sociedades informacionais, os sistemas urbanos continuarão a atuar com força no progresso tecnológico e no desenvolvimento das inovações, mas agora sob uma nova ordem. Cidades hiperconectadas e integradas a uma produção centrada em serviços digitais e no intercâmbio de conhecimento estabelecerão uma dinâmica própria, formando redes globais de relacionamentos sem uma coordenação centralizada. Este é um cenário possível. Assim, não é irreal pensar em cidades como entidades discretas que competem e colaboram entre si, independentemente dos Estados a que pertencem.

Paulo C. Avila é Mestre em Planejamento Urbano pela Universidade de Brasília. Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Brasília. Atualmente é Coordenador do Programa Nacional de Capacitação das Cidades, do Ministério das Cidades.
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